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Um peixe “comum” está revirando o fundo de lagos e empurrando a água para o estado turvo: a engenharia ecológica silenciosa do bagre-marrom (Ameiurus nebulosus)

Um peixe “comum” está revirando o fundo de lagos e empurrando a água para o estado turvo: a engenharia ecológica silenciosa do bagre-marrom (Ameiurus nebulosus)

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Um peixe “comum” está revirando o fundo de lagos e empurrando a água para o estado turvo: a engenharia ecológica silenciosa do bagre-marrom (Ameiurus nebulosus)

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 31/08/2026 às 18:33

Atualizado em 31/08/2026 às 18:41

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Ao procurar alimento junto ao fundo, o bagre-marrom pode ressuspender sedimentos, arrancar vegetação e interferir na entrada de luz na água, criando condições que dificultam a recuperação das plantas submersas e modificam o habitat usado por outros organismos aquáticos.

O impacto do bagre-marrom (Ameiurus nebulosus) sobre um lago vai além da entrada de mais uma espécie na cadeia alimentar. A atividade repetida do peixe junto ao substrato pode alterar características físicas do ambiente e contribuir para a permanência de partículas em suspensão na coluna d’água.

A Environment Canterbury, autoridade ambiental regional da Nova Zelândia, relaciona a espécie à deterioração da qualidade da água, à ressuspensão de sedimentos, ao arrancamento de plantas aquáticas e ao agravamento de florações de algas.

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O órgão também aponta que a presença do peixe pode contribuir para uma mudança de estado do lago, substituindo condições com vegetação por um ambiente sem plantas submersas, de água turva e dominado por fitoplâncton.

A transformação não depende necessariamente de um episódio único e facilmente perceptível. Em locais onde populações estão estabelecidas, a interação contínua com o fundo pode manter pressão sobre os sedimentos e a vegetação, dois componentes diretamente ligados à transparência e à estrutura física do ambiente.

Menos luz e menos vegetação podem reforçar a turbidez

Bagre-marrom pode revirar sedimentos, aumentar a turbidez e afetar plantas aquáticas, alterando o equilíbrio ecológico de lagos rasos.

Quando partículas depositadas no fundo retornam à coluna d’água, a transparência diminui. Com mais material suspenso, menos luz pode alcançar as regiões submersas onde plantas aquáticas dependem da fotossíntese para crescer e continuar ocupando o substrato.

A explicação sobre clareza da água apresentada pela NIWA relaciona a turbidez à presença de pequenas partículas suspensas e mostra que tanto sedimentos quanto fitoplâncton podem limitar a penetração de luz e afetar o desenvolvimento da vegetação aquática.

No caso do bagre-marrom, a perda de plantas não depende apenas da redução da luminosidade. A Environment Canterbury também registra o arrancamento direto de vegetação pela espécie, eliminando estruturas que ocupam o fundo e ajudam a manter o ambiente fisicamente mais complexo.

Essa cobertura vegetal também interfere na relação entre a água e o sedimento. Raízes, caules e folhas formam obstáculos sobre o substrato e, quando desaparecem, deixam partículas anteriormente depositadas mais expostas a novas perturbações.

O resultado pode ser uma dinâmica de reforço entre diferentes alterações. Menos plantas deixam o fundo mais vulnerável à ressuspensão, enquanto a maior turbidez reduz a luz disponível para a recuperação dessa mesma vegetação, prolongando condições desfavoráveis ao retorno de águas mais transparentes.

O fitoplâncton acrescenta outro componente ao processo porque permanece suspenso na coluna d’água. Quando esses organismos microscópicos passam a dominar o sistema, contribuem para a perda de transparência associada pela autoridade ambiental neozelandesa ao estado alternativo de água turva.

A mudança física alcança outros organismos

Bagre-marrom pode revirar sedimentos, aumentar a turbidez e afetar plantas aquáticas, alterando o equilíbrio ecológico de lagos rasos.

Plantas aquáticas não são apenas parte da aparência de um lago. Elas ocupam o substrato, aumentam a complexidade física do ambiente e formam áreas utilizadas por diferentes organismos para atividades relacionadas à alimentação, ao abrigo e à reprodução.

Quando essa estrutura diminui, a alteração deixa de envolver somente a qualidade visual da água. Peixes, invertebrados e outros organismos passam a encontrar condições diferentes daquelas existentes em um fundo com vegetação submersa abundante.

O próprio bagre-marrom acrescenta pressão direta por meio da alimentação. A espécie procura comida sobre ou perto do fundo e consome organismos aquáticos, de modo que sua presença pode interferir simultaneamente na comunidade biológica e nas características físicas do habitat.

É essa capacidade de modificar o espaço ao redor que ajuda a explicar a ideia de engenharia ecológica aplicada ao peixe. Diferentemente de animais que constroem grandes estruturas, o bagre-marrom interfere no ambiente ao movimentar sedimentos, perturbar plantas e alterar condições da coluna d’água.

A espécie apresenta corpo geralmente entre tons de marrom-escuro e verde-oliva e possui oito barbilhões ao redor da boca. Essas estruturas sensoriais auxiliam a exploração do substrato, região onde ocorre parte importante da interação do animal com o ambiente.

Exemplares podem atingir cerca de 50 centímetros e ocupar lagos, córregos, canais de drenagem e outros ambientes de água doce com movimento lento. Essa variedade de habitats aumenta a atenção sobre a espécie nas regiões em que foi introduzida e conseguiu estabelecer populações.

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O problema cresce onde a espécie foi introduzida

O bagre-marrom não é nativo da Nova Zelândia e acabou estabelecido em diferentes sistemas de água doce do país após sua introdução. Em Canterbury, seus efeitos sobre sedimentos, plantas e qualidade da água colocaram a espécie entre os organismos acompanhados por ações de controle ambiental.

A presença do peixe também mostra que a água turva de um lago não precisa resultar exclusivamente de chuva, erosão das margens ou entrada de sedimentos externos. A própria atividade de animais que revolvem o fundo pode contribuir para manter partículas na coluna d’água.

Esse efeito se torna mais relevante quando ocorre junto à perda da vegetação, porque o enfraquecimento dessa cobertura deixa o substrato mais exposto. Ao mesmo tempo, a alimentação do bagre acrescenta uma pressão sobre outros integrantes da comunidade aquática.

Na região de Canterbury, a orientação oficial é não distribuir nem liberar exemplares em cursos d’água. A autoridade ambiental também recomenda que registros da espécie sejam comunicados aos responsáveis pelo manejo, em vez de iniciativas particulares de controle que possam favorecer novas dispersões.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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