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Um ‘Pix do BRICS’ pode fazer o Brasil vender soja, carne e minério ao exterior sem passar pelo dólar, os bancos centrais do bloco negociam interligar seus sistemas de pagamento para baratear as exportações e cortar tarifas bancárias

Um ‘Pix do BRICS’ pode fazer o Brasil vender soja, carne e minério ao exterior sem passar pelo dólar, os bancos centrais do bloco negociam interligar seus sistemas de pagamento para baratear as exportações e cortar tarifas bancárias

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Um ‘Pix do BRICS’ pode fazer o Brasil vender soja, carne e minério ao exterior sem passar pelo dólar, os bancos centrais do bloco negociam interligar seus sistemas de pagamento para baratear as exportações e cortar tarifas bancárias

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 12/08/2026 às 09:27

Economia

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Bancos centrais negociam o Pix do BRICS para o Brasil vender soja, carne e minério sem passar pelo dólar, cortando tarifas e prazos de liquidação.

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Hoje, quando um exportador brasileiro vende para a China ou para a Índia, o dinheiro passa por uma conversão intermediária em dólar e por uma cadeia de bancos correspondentes. Cada etapa cobra tarifa e adia a liquidação. A proposta em discussão é cortar esse caminho.

Os bancos centrais dos países do BRICS intensificaram as negociações para interligar seus sistemas nacionais de pagamento instantâneo e suas moedas digitais, movimento apelidado de Pix do BRICS que abriria caminho para liquidar comércio diretamente em moedas locais, conforme reportagem publicada pela revista IstoÉ Dinheiro em 11 de agosto de 2026. A informação foi confirmada pelo portal Reuters.

O objetivo declarado do bloco é montar uma infraestrutura financeira própria e independente das redes de liquidação internacionais tradicionais. A dependência dessas redes exige hoje uma conversão intermediária por moedas de reserva global, o que impõe tarifas bancárias elevadas, taxas de correspondência entre instituições e risco de liquidação diferida, ou seja, o intervalo entre o envio e a chegada efetiva do dinheiro.

O caminho que o dinheiro de uma exportação percorre hoje

Bancos centrais negociam o Pix do BRICS para o Brasil vender soja, carne e minério sem passar pelo dólar, cortando tarifas e prazos de liquidação.

Para entender o que o arranjo pretende resolver, vale acompanhar o trajeto de um pagamento internacional. Quando um comprador chinês adquire soja brasileira, ele não transfere yuan diretamente para a conta do exportador em reais. O valor é convertido em dólar, passa por um ou mais bancos correspondentes que atuam como intermediários entre os sistemas financeiros dos dois países, e só então é convertido novamente na moeda de destino.

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Cada elo dessa corrente cobra pela participação. Há tarifa de remessa, spread nas duas conversões cambiais, taxa de correspondência e, dependendo do fuso e do calendário bancário dos países envolvidos, dias de espera até o crédito efetivo. O exportador recebe menos do que o comprador pagou, e a diferença fica distribuída entre agentes que não participaram da negociação comercial. Some-se a isso a exposição à variação do câmbio durante o período de liquidação, risco que precisa ser coberto com operações de proteção que também têm custo.

As duas frentes que estão sobre a mesa

A pauta técnica do bloco se divide em duas partes com graus de complexidade bem diferentes. A primeira, e mais próxima de sair do papel, é a conexão entre os sistemas de pagamento instantâneo já consolidados nos mercados domésticos de cada país.

O modelo brasileiro, lançado pelo Banco Central em novembro de 2020, e o sistema indiano UPI, sigla para Unified Payments Interface, são as referências dessa frente e serviriam de ponte operacional para pagamentos comerciais e de turismo entre os países do grupo. São plataformas já testadas em escala massiva, com bilhões de transações mensais, o que reduz a incerteza técnica da integração.

A segunda frente é mais complexa e mexe na própria natureza do dinheiro envolvido. Ela trata das moedas digitais emitidas por bancos centrais, conhecidas pela sigla CBDC, e envolve o desenvolvimento de plataformas programáveis construídas sobre tecnologia de registro distribuído. É nessa camada que entra a promessa mais ambiciosa do projeto, e também a que depende de mais tempo e de mais decisões regulatórias em cada país.

O contrato que se executa sozinho quando o navio parte

A tecnologia em discussão na segunda frente permite algo que hoje não existe no comércio internacional: pagamento automático disparado por um evento, sem que ninguém precise autorizar a transferência.

O funcionamento previsto é o dos chamados contratos inteligentes, programas que executam uma instrução quando determinada condição é cumprida. Aplicado a commodities, o desenho seria o seguinte: o embarque de uma carga registrado no sistema dispara imediatamente a liquidação da moeda digital do comprador para o vendedor, sem passagem por intermediário e sem intervalo entre a entrega e o pagamento.

O ganho aqui não é apenas de custo, é de risco. No modelo atual, existe sempre uma janela em que uma das partes já cumpriu a obrigação e a outra ainda não, e é justamente essa janela que exige garantias, seguros e cartas de crédito. Liquidação simultânea elimina a possibilidade de uma das pontas ficar a descoberto, o que reduz a necessidade de instrumentos de proteção que hoje encarecem qualquer operação de grande porte.

O que isso significaria para soja, carne e minério

Para o Brasil, o setor mais diretamente afetado seria o exportador de commodities, que concentra a maior parte das vendas ao bloco. Agronegócio e indústria extrativa operam com margens apertadas e volumes altos, combinação em que redução de custo de transação tem efeito direto sobre a rentabilidade.

O ambiente financeiro do momento amplifica essa conta. Em agosto de 2026, o dólar operava cotado em torno de R$ 5,11 e a taxa Selic estava em 14% ao ano, patamar que encarece o custo de carregamento de posições financeiras e de operações de proteção cambial. Quanto mais caro o dinheiro, mais pesa cada dia de espera na liquidação de uma venda internacional.

A capacidade de liquidar exportações de soja, carne e minério diretamente em moedas locais reduziria a necessidade de operações de proteção complexas e diminuiria a exposição a oscilações que nada têm a ver com a operação comercial em si. Um produtor que vende para a China deixaria de ficar refém do que acontece com o dólar entre a assinatura do contrato e o recebimento.

O que muda para o Banco Central e o que não muda para o dólar

Um ponto que costuma ser mal compreendido nesse debate é o alcance real da mudança. A integração não elimina a relevância do dólar como principal ativo de reserva global, e nada no que está sendo negociado aponta nessa direção.

O que o arranjo faz é descentralizar os canais de fluxo de capitais, criando uma rota alternativa para um tipo específico de transação. A moeda americana continua sendo a referência de reserva, o denominador da maior parte dos contratos de commodities e o ativo de refúgio em momentos de tensão nos mercados. O que muda é que parte do comércio bilateral entre países do bloco deixaria de precisar dela como etapa intermediária obrigatória.

Do ponto de vista de política monetária brasileira, há um efeito que interessa ao regulador. O Banco Central ganharia ferramentas adicionais de monitoramento de fluxo de divisas, mantendo o controle normativo sobre conversibilidade e sobre as regras de conformidade e combate à lavagem de dinheiro. Rastreabilidade é justamente uma das características das plataformas em discussão, o que em tese facilita a fiscalização em vez de dificultá-la.

O Drex passou por uma reviravolta que muda o calendário

Aqui está o ponto que exige cautela em qualquer previsão sobre a segunda frente. O projeto de moeda digital brasileira não está no ritmo que se esperava dois anos atrás, e o cronograma foi refeito.

Em novembro de 2025, o Banco Central desligou a plataforma que vinha sendo usada nos testes do piloto, construída sobre tecnologia de registro distribuído. O presidente da instituição, Gabriel Galípolo, afirmou que a tecnologia testada não se mostrou viável, sem detalhar publicamente os problemas identificados. A dificuldade apontada ao longo do processo por técnicos e especialistas era conciliar a transparência inerente a esse tipo de arquitetura com as exigências de privacidade de dados dos usuários, questão para a qual não se divulgou solução geral.

A decisão não encerrou o projeto, mas mudou a ordem das etapas. O Banco Central passou a definir primeiro os casos de uso e só depois escolher a tecnologia que os suportará, em abordagem descrita como agnóstica quanto à arquitetura. Isso significa que a peça brasileira da integração de moedas digitais ainda está em redefinição, enquanto a peça chinesa, o yuan digital, é testada em larga escala desde 2020.

O que já existe de concreto e o que ainda é negociação

Vale separar o que está em operação do que está em conversa. A primeira frente, de conexão entre sistemas de pagamento instantâneo, tem base sólida: os sistemas brasileiro e indiano funcionam, processam volumes massivos e já demonstraram capacidade de integração com plataformas estrangeiras em iniciativas bilaterais.

A segunda frente é diferente. Ela depende de que cada país tenha uma moeda digital madura, de que essas moedas conversem entre si e de que exista acordo regulatório sobre conversibilidade, tributação e compliance. O Brasil participa também do projeto mBridge, iniciativa conduzida com o Banco de Compensações Internacionais e com bancos centrais de China, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos, voltada justamente a conectar moedas digitais para câmbio internacional com liquidação simultânea.

Não há prazo divulgado para a conclusão das negociações do bloco, nem detalhamento público sobre qual seria a arquitetura da conexão, quais moedas entrariam primeiro, como seriam definidas as taxas de conversão entre elas ou que volume de comércio poderia migrar para o novo canal nos primeiros anos. O que existe, neste momento, é uma agenda técnica em andamento entre autoridades monetárias, com uma frente próxima da viabilidade e outra ainda dependente de decisões que não foram tomadas em nenhum dos países envolvidos.

E você, acha que o Brasil ganha vendendo commodities sem passar pelo dólar, ou prefere que o comércio exterior continue ancorado na moeda americana? Conta nos comentários o que você acha desse tipo de integração entre bancos centrais.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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