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Um único macho de onça-pintada devolveu a espécie ao Rio de Janeiro depois de mais de 50 anos, e as armadilhas fotográficas do Parque Estadual da Serra da Concórdia voltaram a flagrá-lo caminhando dentro de um rio, de dia e de noite, o que fez o Inea intensificar o monitoramento do parque

Um único macho de onça-pintada devolveu a espécie ao Rio de Janeiro depois de mais de 50 anos, e as armadilhas fotográficas do Parque Estadual da Serra da Concórdia voltaram a flagrá-lo caminhando dentro de um rio, de dia e de noite, o que fez o Inea intensificar o monitoramento do parque

RJ

6 min de leitura

Um único macho de onça-pintada devolveu a espécie ao Rio de Janeiro depois de mais de 50 anos, e as armadilhas fotográficas do Parque Estadual da Serra da Concórdia voltaram a flagrá-lo caminhando dentro de um rio, de dia e de noite, o que fez o Inea intensificar o monitoramento do parque

Escrito por Jefferson Augusto

Publicado em 14/08/2026 às 20:12

Atualizado em 14/08/2026 às 20:13

Meio Ambiente

Onça-pintada macho às margens de um rio. A imagem é ilustrativa, foi feita no Pantanal e não registra o animal monitorado em Valença. Foto: Charles J. Sharp, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

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Ele anda pelo mesmo trecho de rio em horários diferentes, o que indica rotina de território e não passagem de quem está apenas atravessando a região.

A onça-pintada some de um estado inteiro e volta na forma de um único bicho. Não é uma população que retorna, não é um grupo que se restabelece, é um macho solitário andando por dentro de um parque estadual, filmado por câmera automática, carregando sozinho a presença da espécie num território de mais de quarenta mil quilômetros quadrados.

Conforme reportagem publicada pelo site OEco, novos registros feitos por armadilhas fotográficas no Parque Estadual da Serra da Concórdia, em Valença, no sul fluminense, voltaram a mostrar o animal. A última vez que uma onça-pintada tinha sido documentada em território fluminense antes desse reencontro foi na década de 1970.

O que as novas imagens mostram

As cenas mais recentes mostram o animal caminhando dentro de um rio no interior do parque, e isso acontece mais de uma vez, em horários diferentes, tanto de dia quanto à noite. Não é um flagrante único, é uma sequência de passagens pelo mesmo trecho.

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A repetição é o dado que importa. Um bicho que atravessa uma área uma vez está de passagem. Um bicho que volta ao mesmo ponto em dias e horários distintos está usando aquele lugar como parte de um território estabelecido, e isso muda o que se pode concluir.

Por que ele anda no leito do rio

Curso d’água funciona como estrada dentro da mata. O leito costuma ser o caminho mais aberto disponível, sem cipó nem vegetação fechada atravancando, e leva o animal até pontos de bebida e de caça sem exigir esforço de abrir passagem.

É também por isso que armadilha fotográfica é instalada perto de rio. Quem monitora fauna aprende rápido que o gasto de câmera rende muito mais em corredor natural de deslocamento do que em ponto escolhido pela conveniência de quem instala.

Desde quando o Inea acompanha

O Instituto Estadual do Ambiente passou a monitorar o Parque Estadual da Serra da Concórdia de forma mais intensiva desde dezembro de 2024, justamente por causa desse animal. O trabalho recente foi feito em parceria com o Projeto Aventura Animal, que acompanha vida selvagem na Mata Atlântica.

Monitoramento intensivo significa mais câmeras, revisão mais frequente do material e tentativa de identificar o indivíduo pelas manchas, que funcionam como impressão digital em felino pintado. É assim que se sabe que se trata do mesmo bicho, e não de vários. Foi também com esse método que câmeras na Mata Atlântica registraram uma irara quase branca com mutação rara em Resende.

Um único macho e o problema óbvio

Um macho sozinho não recompõe espécie nenhuma. Sem fêmea, não há reprodução, e sem reprodução o retorno da onça-pintada ao Rio de Janeiro dura exatamente o tempo de vida desse animal, que em ambiente natural raramente passa de doze a quinze anos.

É uma situação frágil e, ao mesmo tempo, informativa. A chegada dele prova que existe caminho por onde uma onça consegue vir e que existe presa suficiente para sustentá-la. O que ainda não se provou é que existe caminho suficiente para mais de uma.

De onde ele provavelmente veio

A hipótese que circula entre pesquisadores é que o animal tenha chegado pelo corredor de Mata Atlântica que liga o sul fluminense ao sul de Minas Gerais e ao vale do Paraíba paulista, região onde ainda existem manchas grandes de floresta conectadas.

Machos jovens de felinos grandes costumam percorrer distâncias longas ao deixar a área da mãe, em busca de território próprio. É nesse tipo de deslocamento que um animal acaba aparecendo em lugar onde a espécie não é vista há décadas.

Por que a onça sumiu do Rio

A Mata Atlântica fluminense foi reduzida a fragmentos ao longo de dois séculos de café, pastagem e expansão urbana. Um predador de topo precisa de território amplo e de presa abundante, e nenhum fragmento pequeno sustenta as duas coisas por muito tempo.

Somou-se a isso a perseguição direta. Onça que se aproxima de área de criação é abatida, e essa prática eliminou a espécie de regiões inteiras muito antes que a perda de mata sozinha o fizesse. A combinação dos dois fatores foi o que encerrou a presença dela no estado.

O que a volta de um predador significa

Predador de topo regula a cadeia inteira abaixo dele. Sem onça, populações de herbívoros de médio porte crescem e mudam a pressão sobre a vegetação, num efeito que leva anos para aparecer e mais anos ainda para ser revertido.

Por isso o retorno de um único indivíduo é acompanhado com atenção desproporcional ao número. Não é o bicho que importa, é o que a presença dele indica sobre a recuperação do ambiente em volta e sobre a possibilidade de outros virem depois.

O papel das armadilhas fotográficas

Praticamente tudo o que se sabe hoje sobre fauna esquiva vem de câmera automática. Ela funciona sem presença humana, opera dia e noite e registra o animal em comportamento natural, sem o viés de alguém observando de perto.

Foi essa tecnologia que permitiu ao estado do Rio instalar centenas de câmeras escondidas em reservas para descobrir quais animais ainda vivem nas matas, depois de quase três décadas sem atualizar a lista de fauna.

O que mais essas câmeras já encontraram

O monitoramento sistemático produz achados que ninguém estava procurando. Registros de espécies raras, de comportamentos pouco documentados e de variações genéticas que só aparecem quando se acumula volume grande de imagem ao longo de meses.

Foi assim que se confirmou no estado o segundo caso conhecido de irara com pelagem quase branca, resultado de mutação genética rara.

O que precisa acontecer agora

Três frentes se impõem. Proteger o corredor por onde ele chegou, para que outros consigam fazer o mesmo trajeto. Trabalhar com os produtores do entorno, para reduzir o risco de abate. E ampliar o monitoramento, para detectar a chegada de uma fêmea assim que acontecer.

Nenhuma dessas frentes produz resultado rápido nem rende manchete todo mês. São medidas de manutenção, que só aparecem no noticiário quando falham, e é justamente por isso que costumam ser as primeiras a perder verba.

O que fazer se alguém encontrar o animal

A orientação de quem trabalha com fauna é a mesma em qualquer situação de encontro com felino grande: não correr, não virar as costas, não tentar fotografar de perto e afastar-se caminhando de frente para o animal, dando espaço para que ele se retire.

Onça-pintada não caça pessoa e evita contato por padrão. Praticamente todos os incidentes registrados envolvem animal encurralado, ferido ou defendendo filhote, situações que dependem de alguém ter chegado perto demais antes.

A convivência com a produção rural

O entorno de qualquer unidade de conservação no sul fluminense é ocupado por propriedade rural, e é aí que o retorno de um predador vira problema prático. Ataque a criação existe, e ignorar isso é a forma mais rápida de perder o apoio de quem vive na região.

Programas de convivência costumam trabalhar com três frentes: cercado reforçado para a criação, cão de guarda de rebanho e compensação por perda comprovada. Onde nada disso é oferecido, o desfecho tende a ser o abate silencioso, sem registro e sem processo.

O que ele representa

A espécie voltando ao estado por meio de um único animal é ao mesmo tempo notícia boa e diagnóstico duro. Boa porque prova que a recuperação é possível. Dura porque mostra o tamanho do buraco: cinquenta anos de ausência e um bicho para preencher tudo.

É um retorno parecido em lógica com o do pássaro dado como extinto há mais de cem anos que reapareceu no Nordeste e voltou a se reproduzir. A diferença é que, no caso da onça fluminense, a segunda parte ainda não aconteceu.

Fontes

OEco

Conexão Planeta


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

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