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Uma construtora quer erguer na cidade do metro quadrado mais caro do Brasil uma torre de 557 metros que passaria o Senna Tower e equivale a quase dez estátuas da Havan empilhadas, e o projeto de R$ 300 milhões esconde uma sacada de vidro no topo
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 03/08/2026 às 11:18
Atualizado em 03/08/2026 às 11:30
Construção
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A proposta é da GPC Empreendimentos e mira Itapema, no litoral norte catarinense. Seriam sete metros a mais que o edifício residencial mais alto do mundo, em construção na cidade vizinha. A prefeitura classifica o material entregue como estudo técnico preliminar de viabilidade.
Sete metros separam um projeto do outro. É essa a diferença entre a torre de 557 metros proposta para Itapema, em Santa Catarina, e o Senna Tower, edifício residencial mais alto do mundo, que está sendo erguido a poucos quilômetros dali, em Balneário Camboriú, com aproximadamente 550 metros de altura.
A proposta é da GPC Empreendimentos e está orçada em R$ 300 milhões, conforme reportagem de Katriani dos Santos publicada pelo ND Mais em 3 de agosto de 2026 e cobertura anterior do mesmo veículo em agosto de 2025. Não se trata de um prédio residencial, e sim de uma torre de observação, com finalidade turística. Segundo a construtora, seria a terceira maior do gênero no mundo e a primeira das Américas.
Em que estágio o projeto realmente está
Aqui está a informação que muda a leitura da notícia e que costuma se perder nas manchetes. Nada foi aprovado, nada foi licitado e nenhuma obra começou.
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Em nota, a Prefeitura de Itapema esclareceu que o material apresentado corresponde a um estudo técnico preliminar de viabilidade, entregue ao Conselho Gestor de Concessões e Parcerias Público-Privadas do município. O procedimento segue os trâmites previstos na legislação de parcerias público-privadas, que exige uma série de análises técnicas, jurídicas e financeiras antes de qualquer decisão. A própria construtora informou que não há previsão de início das obras, porque o cronograma só será apresentado após a conclusão dos trâmites com a prefeitura. Uma vez iniciada, a construção levaria cerca de quatro anos.
A comparação com o Senna Tower
O confronto entre os dois números é o que mais chama atenção, mas exige um ajuste de categoria. O Senna Tower, da FG Empreendimentos em parceria com a marca Senna e com a Havan, é um edifício residencial, com aproximadamente 550 metros e 157 pavimentos, e disputa o posto de mais alto do mundo nessa categoria segundo o Conselho de Edifícios Altos e Habitat Urbano.
A proposta de Itapema é de torre de observação, estrutura pensada para visitação e não para moradia. São tipologias diferentes, com exigências construtivas, uso do solo e modelos de negócio distintos. Comparar as duas pela altura é legítimo, mas dizer que uma supera a outra no mesmo ranking não é, porque elas não competem na mesma lista.
Por que a estátua da Havan virou régua
A comparação com o monumento da rede varejista funciona porque quase todo brasileiro já viu uma delas de perto ou pela janela do carro. A Estátua da Liberdade faz parte da identidade visual da rede desde 1995.
O modelo padrão tem 37 metros de altura. A unidade instalada em Barra Velha, também em Santa Catarina, é a maior da rede, com 57 metros. Dividindo os 557 metros da torre proposta pelos 57 metros do monumento catarinense, chega se a aproximadamente 9,8, daí a conta de quase dez estátuas empilhadas. A diferença entre as duas alturas é de exatos 500 metros. Sobre quantas lojas exibem o monumento, os números divulgados variam: uma publicação fala em mais de 70 unidades e outra em mais de 80.
Outra régua que ajuda a dimensionar
Existe uma segunda comparação divulgada pela própria construtora e que talvez funcione melhor para quem não é de Santa Catarina. Ela envolve o monumento mais conhecido do país.
O Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, tem 38 metros de altura sem contar o pedestal. Para alcançar os 557 metros previstos, seriam necessárias mais de 14 estátuas empilhadas uma sobre a outra. É um número que dá dimensão do que se está propondo: uma estrutura vertical isolada, sem função residencial, mais alta que qualquer edifício já construído no Brasil.
O que teria no topo
A parte alta concentra a promessa comercial do empreendimento. Estão previstos cinco pavimentos de experiências, distribuídos com funções diferentes.
No nível mais alto ficaria a atração que dá o gancho ao projeto: uma sacada com piso de vidro, destinada a fotografias. A construtora descreve a proposta como a sensação de ter a cidade e o oceano aos pés do visitante. É o mesmo recurso usado em torres de observação famosas mundo afora, em que o chão transparente sobre uma queda de centenas de metros funciona como principal item de marketing. O projeto prevê ainda uma plataforma de observação a mais de 450 metros de altura.
Os outros quatro andares
A distribuição dos demais pavimentos segue uma lógica de permanência e consumo. Um deles abrigaria um museu dedicado ao futuro detentor dos direitos de nome do empreendimento, aquilo que o mercado chama de naming rights, além de lojas exclusivas.
O quarto pavimento receberia uma praça de alimentação, com redes de fast food e outras opções gastronômicas. O terceiro seria destinado a um restaurante com acesso mediante reserva. O segundo comportaria um espaço para eventos, voltado a lançamentos, celebrações e atividades similares. É um arranjo que combina visitação rápida com permanência longa, modelo comum em atrações turísticas verticais que precisam gerar receita além do ingresso.
As atrações radicais na base
A parte inferior da estrutura teria outro perfil, voltado a quem procura adrenalina em vez de contemplação. O projeto inclui uma passarela externa ao redor da torre, tirolesa vertical e cadeira de queda livre com óculos tridimensionais.
Também estão previstas outras experiências interativas. Esse tipo de atração cumpre uma função clara no modelo de negócio: gera receita adicional por visitante e cria conteúdo para redes sociais, o que funciona como divulgação gratuita. Torres de observação que dependem apenas do mirante costumam ter dificuldade em sustentar movimento fora da alta temporada.
O modelo de parceria com a prefeitura
Um ponto técnico define o rumo do projeto e merece atenção. A iniciativa seria desenvolvida por meio de parceria público-privada, modelo já utilizado em outros empreendimentos da cidade voltados a transformá la em destino turístico.
Nesse formato, o poder público e a iniciativa privada compartilham investimento, risco e receita, sob contrato de longo prazo. É por isso que o estudo foi entregue ao Conselho Gestor de Concessões e Parcerias Público-Privadas, e não simplesmente a um setor de licenciamento de obras. A tramitação exige análise técnica, jurídica e financeira, e o projeto pode ser modificado, adiado ou rejeitado ao longo desse percurso.
Por que Itapema
A escolha do município tem base econômica. Itapema figura como a cidade com o metro quadrado mais caro do país, tendo ampliado a vantagem sobre Balneário Camboriú nesse indicador.
O litoral norte catarinense concentra hoje o maior polo de verticalização do Brasil, com uma sequência de cidades que competem entre si em altura de edifícios, preço de imóvel e atração de investimento. A lógica do projeto se encaixa nesse ambiente: uma cidade que já tem valorização imobiliária recorde busca um equipamento turístico capaz de gerar fluxo de visitantes durante o ano inteiro, e não apenas na temporada de verão.
O desafio técnico de construir tão alto
Estruturas acima de 500 metros enfrentam um inimigo específico, e ele não é o peso. É o vento.
Nessa faixa de altura, a oscilação provocada pelas rajadas se torna o principal problema de engenharia, e a solução usual envolve sistemas de amortecimento. O Senna Tower, por exemplo, prevê o uso de amortecedor de massa sintonizada, mecanismo de contrapesos que se movem em sentido contrário à oscilação da estrutura. Uma torre de observação com plataforma de vidro a mais de 450 metros precisa lidar com esse mesmo desafio, somado à exigência de conforto para visitantes que não estão acostumados a sentir um prédio se mover.
O que ainda não se sabe
A lista de indefinições é grande e vale registrar. Não há divulgação do terreno onde a torre seria erguida, do traçado do projeto executivo, do prazo de concessão, da divisão de investimento entre poder público e empresa nem do valor previsto de ingresso.
Também não há informação pública sobre quem seria o detentor dos direitos de nome, embora o projeto já reserve um museu inteiro a essa figura. E não houve, até agora, divulgação de estudo de impacto ambiental, de tráfego ou de capacidade de atendimento turístico da cidade. Um equipamento desse porte transforma a dinâmica urbana de um município, com efeito sobre trânsito, estacionamento, hotelaria e serviços, e essas análises fazem parte justamente da etapa em que o projeto se encontra.
A distância entre anúncio e obra
Convém encerrar com uma nota de calibragem. Projetos de arranha-céu recorde são anunciados com frequência no Brasil e no mundo, e uma parcela relevante deles nunca sai do papel ou é reduzida ao longo do caminho.
O caso de Itapema tem um dado adicional que ajuda a dimensionar o ritmo: a proposta foi apresentada em agosto de 2025 e, um ano depois, continua na fase de análise preliminar. Isso não significa que o projeto vá fracassar, e sim que o processo de parceria público-privada é longo por definição. Entre o estudo de viabilidade e a inauguração de uma estrutura de 557 metros existem etapas de aprovação, licitação, financiamento e cerca de quatro anos de obra.
E você, subiria numa sacada de vidro a mais de 450 metros do chão? Conta aqui nos comentários se você acha que o litoral catarinense precisa de mais uma torre gigante ou se essa competição por altura já passou do ponto, e diga qual mirante você já visitou que valeu a pena.
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TORRE
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

