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Uma fábrica levou microscópios ao território Navajo, contratou centenas de mulheres para montar chips menores que uma unha, comparou circuitos a tapetes tradicionais e fechou em meio a demissões e protestos

Uma fábrica levou microscópios ao território Navajo, contratou centenas de mulheres para montar chips menores que uma unha, comparou circuitos a tapetes tradicionais e fechou em meio a demissões e protestos

6 min de leitura

Uma fábrica levou microscópios ao território Navajo, contratou centenas de mulheres para montar chips menores que uma unha, comparou circuitos a tapetes tradicionais e fechou em meio a demissões e protestos

Escrito por Flavia Marinho

Publicado em 03/08/2026 às 17:54

Indústria

Uma mulher Navajo observa por um microscópio um circuito menor que a própria unha.

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Centenas de mulheres Navajo realizaram montagem de circuitos integrados na fábrica da Fairchild Semiconductor em Shiprock, nos Estados Unidos. A unidade funcionou entre 1965 e 1975, produziu componentes para equipamentos eletrônicos e foi elogiada pela própria empresa. O fechamento ocorreu durante uma desaceleração industrial marcada por demissões, reivindicações trabalhistas e uma ocupação.

Uma mulher Navajo observa por um microscópio um circuito menor que a própria unha. Em 1965, essa cena passou a fazer parte da rotina de uma fábrica da Fairchild Semiconductor instalada em Shiprock, no território Navajo do Novo México, nos Estados Unidos.

A unidade contratou centenas de mulheres Navajo para montar transistores e circuitos integrados. As trabalhadoras faziam soldas delicadas e uniam componentes minúsculos destinados a calculadoras, sistemas de orientação de mísseis e outros equipamentos eletrônicos.

A informação foi publicada por Computer History Museum, museu dedicado à história da computação. Os registros mostram uma fábrica reconhecida internamente pela qualidade, mas também sustentada por mão de obra barata e benefícios fiscais.

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A chegada da Fairchild uniu tecnologia, empregos e interesses econômicos

A Fairchild precisava ampliar suas operações durante a expansão da indústria de semicondutores. Esses materiais controlam sinais elétricos dentro dos aparelhos e são usados na fabricação de computadores, calculadoras, sistemas de comunicação e diferentes equipamentos eletrônicos.

Centenas de mulheres Navajo realizaram montagem de circuitos integrados na fábrica da Fairchild Semiconductor em Shiprock, nos Estados Unidos.

A construção da unidade resultou de esforços da empresa, de lideranças Navajo e de um órgão federal dos Estados Unidos responsável por assuntos indígenas. Raymond Nakai, presidente da Nação Navajo entre 1963 e 1971, participou das negociações para levar a fábrica a Shiprock.

Para as lideranças locais, a instalação representava a possibilidade de criar empregos e inserir trabalhadores Navajo em uma indústria tecnológica. Para a Fairchild, a região oferecia trabalhadoras disponíveis e habilidosas, custos menores e vantagens ligadas ao pagamento de impostos.

A empresa passou a ocupar a posição de maior empregadora privada de trabalhadores indígenas dos Estados Unidos durante o período. Apesar disso, as oportunidades estavam concentradas principalmente nas etapas manuais da produção.

Centenas de mulheres Navajo montavam chips sob microscópios

A equipe da fábrica era formada quase inteiramente por mulheres Navajo. Elas trabalhavam diante de microscópios porque muitos componentes eram pequenos demais para serem montados com precisão apenas a olho nu.

Centenas de mulheres Navajo montavam chips sob microscópios

Chip é o nome popular dado a uma pequena peça eletrônica que pode reunir vários componentes. Dentro dela, o circuito integrado organiza conexões responsáveis por controlar e transmitir sinais elétricos.

As trabalhadoras precisavam posicionar peças, fazer soldas e verificar ligações delicadas. Um erro em uma conexão poderia comprometer todo o circuito, por isso a atividade exigia concentração, firmeza nas mãos e cuidado constante.

O trabalho documentado em Shiprock era de montagem industrial precisa. As mulheres Navajo não inventaram os chips nem criaram os desenhos dos circuitos, mas executavam uma etapa essencial para que os componentes funcionassem.

Em 1969, a Fairchild produziu um folheto para celebrar a instalação de Shiprock. O material mostrava mulheres trabalhando diante de microscópios e também apresentava imagens da tecelagem tradicional Navajo.

Uma das páginas exibia um tapete com formas geométricas. Outra mostrava uma imagem ampliada do circuito integrado 9040, cujo desenho apresentava linhas e ângulos visualmente semelhantes aos padrões do tecido.

A publicidade aproximou circuitos integrados e tapetes Navajo

A Fairchild usou essa aproximação para afirmar que a atenção presente na tecelagem também aparecia na montagem dos componentes eletrônicos. A publicidade colocava a tradição artesanal e a produção industrial como expressões de uma mesma habilidade.

A comparação era visual e promocional. Ela não significava que os desenhos dos chips tivessem sido criados a partir dos tapetes, mas ajudava a apresentar a fábrica como uma união entre cultura Navajo e tecnologia eletrônica.

Um dos circuitos apareceu ligado a satélites de comunicação

O circuito integrado 9040 foi divulgado pela Fairchild como um componente usado em satélites de comunicação. A informação ajuda a mostrar o nível de precisão exigido na montagem realizada dentro da fábrica.

Isso não significa que todos os componentes produzidos em Shiprock fossem destinados a satélites. A unidade também fabricava peças para calculadoras, sistemas de orientação e equipamentos antigos de computação.

Também não há base para afirmar que as mulheres Navajo participaram da invenção desses aparelhos. Sua contribuição documentada estava na montagem dos componentes, trabalho sem o qual os circuitos não poderiam ser instalados nos equipamentos.

Mesmo restrita a uma etapa da produção, essa participação colocou centenas de trabalhadoras indígenas dentro de uma indústria que ajudava a ampliar o uso da eletrônica nos Estados Unidos.

A qualidade elogiada convivia com a busca por produção mais barata

O Computer History Museum, museu dedicado à história da computação, registrou que a própria Fairchild apresentou Shiprock como uma de suas melhores unidades em produção e qualidade.

A avaliação aparecia na publicidade da empresa e valorizava a precisão alcançada pelas mulheres Navajo. A montagem de circuitos integrados exigia poucos erros, pois os componentes eram pequenos e delicados.

Ao mesmo tempo, os motivos econômicos da instalação eram claros. A Fairchild buscava mão de obra barata, trabalhadoras disponíveis e benefícios fiscais, além da habilidade necessária para realizar tarefas minuciosas.

A fábrica ofereceu empregos em uma região com poucas oportunidades, mas também aproveitou condições que permitiam produzir por custos menores. O reconhecimento da qualidade convivia com uma estrutura que reservava às mulheres Navajo atividades repetitivas e delicadas.

Demissões e ocupação antecederam o fechamento em 1975

A indústria eletrônica enfrentou uma desaceleração em 1975, e trabalhadores começaram a ser demitidos. Os cortes atingiram uma comunidade que dependia das oportunidades criadas pela fábrica.

Manifestantes ligados ao Movimento Indígena Americano ocuparam a unidade e exigiram melhores condições para os trabalhadores. A ocupação interrompeu a produção durante cerca de uma semana.

Quando os manifestantes deixaram o prédio, a Fairchild já havia decidido encerrar permanentemente as atividades em Shiprock. A empresa passou a concentrar parte de suas operações na Ásia.

O protesto marcou os últimos dias da fábrica, mas não explica sozinho o fechamento. A desaceleração industrial, as demissões e a busca por custos de produção ainda menores já influenciavam as decisões da empresa.

A fábrica deixou um legado tecnológico e trabalhista contraditório

Entre 1965 e 1975, centenas de mulheres Navajo participaram da montagem de componentes usados na expansão da eletrônica. O trabalho realizado diante dos microscópios ajudou a sustentar uma fábrica que a própria Fairchild elogiava pela qualidade.

A experiência criou empregos e aproximou a comunidade de uma indústria tecnológica, mas também expôs baixos custos trabalhistas, desigualdade e dependência econômica. A fábrica terminou fechada, enquanto a participação das mulheres Navajo permaneceu pouco conhecida fora da história dos semicondutores.

Essa fábrica representou progresso para as mulheres Navajo ou exploração apresentada como oportunidade? Deixe sua opinião e compartilhe.

Fonte

Computer History Museum


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

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