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Uma ilha do Caribe introduziu mangostas para combater ratos nos campos de açúcar, 150 anos depois, elas se tornaram o principal foco de raiva entre os animais terrestres

Uma ilha do Caribe introduziu mangostas para combater ratos nos campos de açúcar, 150 anos depois, elas se tornaram o principal foco de raiva entre os animais terrestres

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Uma ilha do Caribe introduziu mangostas para combater ratos nos campos de açúcar, 150 anos depois, elas se tornaram o principal foco de raiva entre os animais terrestres

Escrito por Noel Budeguer

Publicado em 24/08/2026 às 19:29

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Predadores importados no século XIX para acabar com os ratos nos canaviais não cumpriram a missão, espalharam-se pelo território e, 150 anos depois, transformaram uma solução agrícola em um problema ambiental e sanitário que ainda desafia as autoridades

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Predadores importados no século XIX para acabar com os ratos nos canaviais não cumpriram a missão, espalharam-se pelo território e, 150 anos depois, transformaram uma solução agrícola em um problema ambiental e sanitário que ainda desafia as autoridades

Uma tentativa de controlar ratos nas plantações de cana-de-açúcar de Porto Rico acabou produzindo uma consequência que atravessou mais de um século. Na década de 1870, proprietários rurais introduziram pequenas mangostas indianas na ilha acreditando que os animais ajudariam a reduzir uma das principais pragas dos canaviais.

O plano parecia simples: colocar um predador natural onde havia excesso de roedores. O problema é que as mangostas se adaptaram muito melhor ao ambiente do que o esperado, enquanto os ratos continuaram presentes.

Cerca de 150 anos depois, a indústria açucareira perdeu a importância que tinha naquela época, mas as mangostas permaneceram. Hoje, além de serem consideradas invasoras, elas são apontadas como o principal reservatório de raiva entre os animais terrestres de Porto Rico.

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Mangostas chegaram para proteger as plantações de cana

Mangosta registrada em meio à vegetação; introduzida no Caribe no século XIX para combater ratos nos canaviais, a espécie se espalhou pelo território e hoje é considerada invasora e um importante reservatório de raiva entre animais terrestres.

Durante o século XIX, a produção de açúcar tinha peso central na economia porto-riquenha. Ratos atacavam os canaviais e causavam prejuízos, levando produtores a procurar uma solução que pudesse reduzir as populações de roedores sem depender exclusivamente de métodos tradicionais de controle.

Foi nesse contexto que pequenas mangostas indianas foram levadas para diferentes ilhas do Caribe. A estratégia funcionava como uma forma inicial de controle biológico: introduzir um predador capaz de caçar os animais responsáveis pelos danos às lavouras.

Porto Rico adotou a ideia na década de 1870. O que parecia uma solução eficiente, porém, encontrou um obstáculo básico no comportamento das duas espécies.

Ratos e mangostas estavam ativos em horários diferentes

Uma das explicações para o fracasso está nos hábitos dos animais. As mangostas apresentam atividade principalmente durante o dia, enquanto boa parte dos ratos que viviam nas áreas de cultivo saía em busca de alimento à noite.

Isso significava que predador e presa podiam ocupar praticamente o mesmo espaço sem se encontrar durante grande parte de seus períodos de atividade.

Com isso, os ratos não desapareceram dos canaviais. Ao mesmo tempo, as mangostas passaram a se reproduzir e se espalhar pela ilha sem depender dos roedores como única fonte de alimento.

Espécie passou a atacar outros animais

Mangosta ataca uma cobra em ambiente natural; a capacidade de caçar répteis, aves, anfíbios e outros pequenos animais ajudou a espécie a se adaptar rapidamente após ser introduzida no Caribe, ampliando seu impacto sobre a fauna nativa.

A capacidade de adaptação das mangostas transformou rapidamente o problema agrícola em uma questão ambiental. Quando os ratos não estavam disponíveis, os animais passaram a se alimentar de outras espécies encontradas com facilidade no território.

A dieta passou a incluir aves, répteis, anfíbios e pequenos animais que haviam evoluído sem a presença daquele tipo de predador. O mesmo fenômeno também foi registrado em outras ilhas caribenhas onde mangostas foram introduzidas.

Com o passar do tempo, o animal que havia sido levado para controlar uma praga passou a ser classificado como espécie invasora e ameaça para parte da fauna nativa.

Problema ganhou dimensão sanitária décadas depois

As consequências não ficaram restritas ao meio ambiente. Em 1950, Porto Rico registrou o primeiro grande surto de raiva confirmado em laboratório envolvendo mangostas.

Nas décadas seguintes, o vírus continuou circulando entre esses animais, até que a espécie se tornou o principal reservatório da doença entre os mamíferos terrestres da ilha.

Dados citados em estudos apontam que mangostas chegaram a representar mais de 70% dos casos de raiva animal registrados. O CDC já estimou historicamente essa proporção em aproximadamente 75%.

Estudos encontraram anticorpos em até 39% dos animais analisados

Pesquisas realizadas em diferentes áreas de Porto Rico mostram que o contato das mangostas com o vírus pode variar bastante conforme a região.

Em áreas como El Yunque e Cabo Rojo, um estudo encontrou anticorpos neutralizantes contra a raiva em aproximadamente 39% das mangostas examinadas.

Outros levantamentos realizados posteriormente encontraram percentuais menores, próximos de 17%, indicando que a exposição ao vírus não ocorre de maneira uniforme em toda a ilha.

A presença de anticorpos, no entanto, não significa necessariamente que todos esses animais estivessem com a doença ativa no momento em que foram examinados.

Cerca de 280 pessoas eram mordidas por mangostas por ano

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A circulação do vírus também criou um risco direto para a população. Pesquisadores estimaram que aproximadamente 280 moradores de Porto Rico eram mordidos por mangostas todos os anos.

Um desses episódios mostrou a gravidade que uma mordida pode alcançar quando não há tratamento médico.

Um homem de 54 anos, que vivia no sudeste da ilha, foi atacado por uma mangosta enquanto cuidava de um galinheiro. Após a mordida, ele não procurou atendimento.

Semanas mais tarde, começou a apresentar sintomas como febre, dificuldade para engolir e alterações de sensibilidade. O quadro piorou, o homem retornou ao hospital e morreu depois de sofrer uma parada cardíaca.

Exames confirmaram transmissão de raiva por mangosta

Análises realizadas após a morte confirmaram que o homem estava infectado pelo vírus da raiva.

Os exames ainda relacionaram o caso à variante caribenha do vírus associada às mangostas. Segundo os registros citados, foi a primeira morte documentada em Porto Rico atribuída diretamente à mordida de uma mangosta.

O episódio também foi apontado como o primeiro caso desse tipo registrado nos Estados Unidos ou em seus territórios.

Cientistas agora tentam controlar o animal que deveria controlar outra praga

O problema criado no século XIX levou pesquisadores a buscar formas de reduzir a circulação da raiva entre as mangostas.

Estudos passaram a acompanhar densidade populacional, deslocamentos dos animais e possíveis métodos de vacinação oral, seguindo estratégias já usadas para controlar a doença em outras espécies nos Estados Unidos.

Os pesquisadores chegaram até a testar diferentes tipos de iscas para identificar quais seriam mais atraentes. Nos experimentos mencionados, as mangostas demonstraram preferência por iscas com sabor de queijo, em comparação com opções de coco ou peixe.

A ideia é que, no futuro, esse tipo de isca possa ser utilizado para distribuir vacinas orais e reduzir a circulação do vírus.

Açúcar perdeu espaço, mas as mangostas permaneceram

A economia de Porto Rico mudou profundamente desde o período em que a cana-de-açúcar dominava grandes áreas agrícolas da ilha.

Os canaviais diminuíram e a produção perdeu a importância que tinha no século XIX. As mangostas, porém, já estavam estabelecidas e continuaram se reproduzindo geração após geração.

Hoje, autoridades e pesquisadores ainda precisam acompanhar mordidas, transmissão da raiva e métodos de controle populacional e sanitário.

O caso se tornou um exemplo de como uma solução aparentemente simples para uma praga agrícola pode produzir efeitos muito mais duradouros do que o problema original. Cerca de 150 anos depois da introdução das mangostas, Porto Rico continua lidando com as consequências de uma decisão tomada para proteger seus antigos campos de açúcar.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

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