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Uma nave de 190 metros e 54 mil toneladas viajando a 36 mil km/s: o plano que usaria 50 mil toneladas de combustível de fusão para cruzar 56 trilhões de quilômetros e alcançar a Estrela de Barnard em apenas 50 anos

Uma nave de 190 metros e 54 mil toneladas viajando a 36 mil km/s: o plano que usaria 50 mil toneladas de combustível de fusão para cruzar 56 trilhões de quilômetros e alcançar a Estrela de Barnard em apenas 50 anos

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Uma nave de 190 metros e 54 mil toneladas viajando a 36 mil km/s: o plano que usaria 50 mil toneladas de combustível de fusão para cruzar 56 trilhões de quilômetros e alcançar a Estrela de Barnard em apenas 50 anos

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 20/08/2026 às 17:30

Atualizado em 20/08/2026 às 17:37

Ciência e Tecnologia

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o plano dos anos 1970 que usaria 50 mil toneladas de combustível de fusão para cruzar 56 trilhões de quilômetros e alcançar a Estrela de Barnard em apenas 50 anos

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Projeto Daedalus imaginou uma nave robótica interestelar de 190 metros e 54 mil toneladas, abastecida com 50 mil toneladas de combustível para motores de fusão capazes de acelerar a cerca de 12% da velocidade da luz, aproximadamente 36 mil km/s, e alcançar a Estrela de Barnard em uma missão de apenas 50 anos.

Uma nave robótica com 190 metros de comprimento, massa inicial de aproximadamente 54 mil toneladas e 50 mil toneladas de combustível seria montada no espaço para realizar uma viagem que nenhum veículo construído pela humanidade conseguiu sequer se aproximar de completar. O objetivo era acelerar até aproximadamente 12% da velocidade da luz, cerca de 36 mil km/s, e atravessar os quase seis anos-luz que separam o Sistema Solar da Estrela de Barnard em aproximadamente 50 anos.

Segundo a British Interplanetary Society, essa gigantesca máquina fazia parte do Projeto Daedalus, estudo de engenharia desenvolvido por uma equipe de 13 integrantes durante a década de 1970 para investigar se uma missão interestelar poderia ser concebida usando física conhecida e tecnologias consideradas possíveis de desenvolver.

O projeto nunca foi construído, mas produziu uma série de trabalhos técnicos que continuam sendo referência em estudos sobre viagens interestelares.

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Projeto Daedalus queria alcançar outra estrela dentro de uma vida humana

O Projeto Daedalus foi desenvolvido entre 1973 e 1978 por integrantes da British Interplanetary Society. A proposta não era criar uma nave para transportar astronautas, mas uma gigantesca sonda científica autônoma capaz de atravessar a distância entre estrelas sem depender de tecnologias que violassem as leis conhecidas da física.

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Um dos requisitos fundamentais era que a viagem pudesse ser concluída em aproximadamente uma vida humana. Isso obrigava os pesquisadores a abandonar os desempenhos proporcionados pelos foguetes químicos e trabalhar com velocidades de uma ordem completamente diferente. O destino escolhido foi Barnard’s Star, uma estrela localizada a aproximadamente seis anos-luz da Terra.

A escala da distância ajuda a explicar a radicalidade da proposta. Seis anos-luz representam aproximadamente 56 trilhões de quilômetros. Para atravessar tamanho abismo em cerca de meio século, não bastaria apenas aperfeiçoar os motores usados para levar satélites e astronautas ao espaço.

Nave interestelar teria impressionantes 190 metros de comprimento

O projeto final descrevia uma estrutura com cerca de 190 metros de comprimento, organizada em dois grandes estágios de propulsão. A massa inicial chegaria a aproximadamente 54 mil toneladas, das quais cerca de 50 mil toneladas corresponderiam ao propelente necessário para acelerar o veículo.

A maior parte dessa massa desapareceria gradualmente durante os primeiros anos de voo. O primeiro estágio carregaria aproximadamente 46 mil toneladas de propelente, enquanto o segundo teria outras 4 mil toneladas. Depois de cumprir sua função, o primeiro estágio seria descartado.

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O Daedalus, portanto, não seria simplesmente um foguete maior. Sua arquitetura inteira foi pensada em torno de uma missão na qual praticamente toda a massa inicial existiria para produzir velocidade suficiente antes de começar uma longa travessia praticamente sem propulsão.

50 mil toneladas de combustível seriam queimadas em explosões de fusão

O grande salto tecnológico estava no motor. Em vez de queimar querosene, hidrogênio ou metano, Daedalus utilizaria propulsão por fusão nuclear de confinamento inercial, alimentada por pequenas cápsulas contendo combustível de fusão.

O conceito usava uma mistura envolvendo deutério e hélio-3. Feixes de elétrons de alta energia comprimiriam e aqueceriam as cápsulas até iniciar reações de fusão. O plasma extremamente energético produzido pelas microexplosões seria direcionado por campos magnéticos para a traseira da nave, criando empuxo.

O desafio não terminava em conseguir uma reação. O sistema precisava fazer isso continuamente durante anos, suportando forças, radiação, calor e ciclos de funcionamento em uma escala que nenhum motor espacial operacional jamais enfrentou.

Motor detonaria cerca de 250 cápsulas de combustível por segundo

Uma das especificações mais extraordinárias do Daedalus era a frequência planejada para o motor. O sistema precisaria provocar aproximadamente 250 pulsos de fusão por segundo, lançando sucessivas cápsulas na câmara de reação e direcionando o plasma resultante por uma espécie de bocal magnético.

Isso significa que a nave avançaria sustentada por uma sequência quase contínua de pequenas liberações de energia nuclear. O princípio lembra um motor pulsado, mas em uma frequência tão elevada que o resultado prático seria um fluxo constante de empuxo durante a fase de aceleração.

A própria NASA revisitou posteriormente o conceito ao discutir sistemas de propulsão nuclear e descreveu o Daedalus como uma proposta que utilizaria dezenas de milhares de toneladas de cápsulas de combustível acionadas centenas de vezes por segundo.

Primeiro estágio funcionaria continuamente por mais de dois anos

A nave não alcançaria 12% da velocidade da luz instantaneamente. O primeiro estágio permaneceria funcionando por aproximadamente 2,05 anos, acelerando gradualmente uma máquina que inicialmente teria dezenas de milhares de toneladas.

Ao final dessa etapa, a velocidade prevista ficaria em torno de 7,1% da velocidade da luz. O primeiro estágio, já praticamente esvaziado de seu enorme estoque de propelente, seria então abandonado para diminuir a massa restante.

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A segunda parte do Daedalus assumiria a missão e continuaria produzindo empuxo por aproximadamente 1,76 ano. Somadas, as duas fases significariam quase quatro anos de aceleração antes de a nave finalmente iniciar o trecho mais longo da viagem.

Velocidade final chegaria a aproximadamente 36 mil km por segundo

Quando o segundo estágio encerrasse sua operação, o Daedalus viajaria a aproximadamente 12% da velocidade da luz, algo próximo de 36 mil quilômetros por segundo. A NASA descreveu exatamente essa meta ao revisar conceitos históricos de propulsão para missões interestelares.

Nessa velocidade, a nave percorreria em apenas um segundo uma distância próxima àquela existente entre cidades separadas por dezenas de milhares de quilômetros na superfície terrestre. Ainda assim, o espaço entre as estrelas é tão vasto que seria necessário continuar viajando durante décadas.

Depois de quase quatro anos acelerando, começaria um período de aproximadamente 46 anos de cruzeiro interestelar, sem necessidade de manter continuamente os motores principais funcionando. O Daedalus simplesmente conservaria a enorme velocidade acumulada e seguiria rumo ao alvo.

Daedalus não teria combustível suficiente para parar na Estrela de Barnard

Existe um detalhe decisivo no projeto: a nave não desaceleraria ao chegar. Reservar propelente para frear uma estrutura de centenas de toneladas depois de acelerá-la a 12% da velocidade da luz aumentaria dramaticamente a quantidade de combustível necessária e tornaria o conceito muito mais difícil.

Daedalus seria, portanto, uma missão de sobrevoo. Depois de passar cerca de 50 anos viajando, atravessaria o sistema da Estrela de Barnard em altíssima velocidade, realizando observações durante uma janela extremamente curta comparada à duração total da viagem.

Para compensar essa limitação, o projeto previa instrumentos capazes de estudar antecipadamente o sistema e sondas menores autônomas que seriam liberadas antes da aproximação final. A nave principal funcionaria como plataforma para coletar e retransmitir os resultados científicos.

Dezoito pequenas sondas explorariam o sistema durante a passagem

O conceito previa 18 subsondas autônomas, destinadas a investigar objetos selecionados durante a aproximação à Estrela de Barnard. Elas utilizariam instrumentos como câmeras e espectrômetros e enviariam suas observações de volta ao veículo principal.

A própria nave teria telescópios destinados a observar o sistema antes da chegada. Conforme novas informações fossem obtidas, seria possível selecionar os alvos mais interessantes e preparar o encontro das pequenas sondas com esses objetos.

Outro recurso engenhoso estava no enorme motor do segundo estágio. A estrutura de aproximadamente 40 metros associada ao conjunto poderia ser utilizada como parte do sistema de comunicação, permitindo transmitir os dados científicos por quase seis anos-luz de espaço até a Terra.

Até um grão de poeira seria perigoso a 12% da velocidade da luz

Viajar a 36 mil km/s criaria um problema que praticamente não existe na mesma escala para sondas convencionais: partículas minúsculas poderiam atingir a nave com energia enorme. Por isso, o compartimento científico precisaria de um escudo frontal dedicado contra erosão e impactos do meio interestelar.

O projeto original especificou berílio como material para a proteção frontal. Estudos contemporâneos continuam usando Daedalus como referência para analisar materiais capazes de resistir a uma viagem interestelar realizada a aproximadamente 12% da velocidade da luz.

Daedalus também teria sistemas robotizados capazes de realizar reparos durante a missão. Essa autonomia era essencial, pois depois de alguns anos de viagem qualquer comando enviado da Terra levaria anos para chegar até a nave.

Combustível de fusão poderia exigir mineração fora da Terra

O combustível apresentava outro desafio colossal. O hélio-3 necessário ao conceito não estava disponível na Terra em quantidade suficiente para uma missão daquela escala, o que levou os projetistas a considerar obtenção de recursos fora do planeta.

Uma das propostas envolvia retirar hélio-3 da atmosfera de Júpiter, utilizando sistemas robotizados para coletar o material. Esse detalhe mostra que construir a nave seria apenas uma parte de um empreendimento muito maior, que exigiria uma infraestrutura industrial espalhada pelo Sistema Solar.

A dificuldade ajuda a explicar por que Daedalus permaneceu como estudo de engenharia. A física essencial da fusão é conhecida, mas transformar o princípio em um propulsor interestelar com milhares de toneladas de combustível continua sendo um desafio tecnológico muito além das capacidades atuais.

Estrela escolhida nos anos 1970 hoje tem quatro pequenos planetas confirmados

A escolha da Estrela de Barnard ganhou um detalhe novo quase meio século depois da conclusão do Daedalus. Em 2025, a NASA anunciou a confirmação de quatro pequenos planetas rochosos, todos com massas inferiores à da Terra, orbitando a estrela.

Barnard é a estrela individual mais próxima do Sol, depois do sistema triplo de Alpha Centauri, e está localizada a aproximadamente seis anos-luz. Os quatro mundos conhecidos orbitam muito perto de sua estrela e são considerados quentes demais para condições semelhantes às da Terra.

Quando o Daedalus foi concebido, havia alegações de planetas em torno de Barnard que posteriormente não foram confirmadas. Décadas depois, instrumentos muito mais precisos finalmente encontraram mundos reais no sistema que os engenheiros britânicos haviam escolhido como destino de sua nave imaginária.

Projeto Daedalus continua sendo referência quase 50 anos depois

O Projeto Daedalus terminou formalmente em 1978 com uma extensa coleção de estudos técnicos publicados pela British Interplanetary Society. O objetivo nunca foi anunciar uma missão prestes a ser lançada, mas responder com engenharia a uma pergunta gigantesca: seria possível projetar uma máquina capaz de alcançar outra estrela usando física conhecida?

Décadas depois, o conceito inspirou o Projeto Icarus, iniciativa criada para revisitar e atualizar os princípios do Daedalus diante dos avanços em materiais, computação, astronomia e propulsão. O trabalho acadêmico que apresentou o Icarus descreveu Daedalus como um estudo histórico de uma nave de dois estágios movida por fusão de confinamento inercial acionada por feixes de elétrons.

É isso que mantém o projeto tão impressionante. Nos anos 1970, uma equipe se propôs a desenhar uma máquina de 190 metros, 54 mil toneladas e 50 mil toneladas de combustível, capaz de acelerar durante quase quatro anos, atingir aproximadamente 36 mil km/s e depois passar décadas cruzando o vazio até outra estrela. Daedalus nunca saiu do papel, mas mostrou em números o tamanho do salto tecnológico necessário para transformar viagens interestelares de ficção científica em problema de engenharia.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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