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Uma placa de mármore esquecida como decoração de jardim em Nova Orleans escondia um segredo de quase 2 mil anos: ela era a lápide romana de Sextus Congenius Verus, desaparecida de um museu italiano desde a Segunda Guerra Mundial e finalmente devolvida à Itália em 2026
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 13/08/2026 às 15:33
Atualizado em 13/08/2026 às 15:34
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Uma placa de mármore usada como decoração de jardim em Nova Orleans permaneceu esquecida após a venda de uma casa até ser encontrada em 2025. Especialistas descobriram que era a lápide romana de Sextus Congenius Verus, desaparecida de um museu italiano desde a Segunda Guerra Mundial e devolvida à Itália em 2026.
Na primavera de 2025, a antropóloga Daniella Santoro, da Tulane University, e o marido, Aaron Lorenz, limpavam a vegetação do quintal de sua casa em Nova Orleans quando encontraram uma placa de mármore coberta pelo mato. As inscrições em latim fizeram o casal procurar especialistas e deram início a uma investigação documentada pela Associated Press: aquela pedra era um monumento funerário romano de aproximadamente 1.900 anos. O nome gravado era Sextus Congenius Verus, marinheiro da frota romana que morreu aos 42 anos depois de cumprir 22 anos de serviço militar.
O objeto havia sido documentado na Itália, integrado à coleção de um museu em Civitavecchia e considerado perdido depois da destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial.
A pedra passou décadas em Nova Orleans sem que a família que a mantinha dentro de casa e, posteriormente, no jardim soubesse de sua verdadeira origem.
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Uma placa escondida sob o mato chamou atenção pelas inscrições em latim
Daniella Santoro e Aaron Lorenz encontraram a peça enquanto trabalhavam no jardim da residência no bairro de Carrollton. Inicialmente, parecia apenas uma grande pedra antiga, mas a presença de letras claramente entalhadas em latim tornou difícil tratá-la como um objeto comum de paisagismo.
Santoro tentou investigar o texto e depois procurou colegas da universidade. O caso chegou à professora Susann S. Lusnia, arqueóloga especializada no mundo romano, que percebeu imediatamente que a forma das letras, a linguagem e a estrutura do texto eram compatíveis com uma inscrição funerária romana autêntica.
Usando palavras da própria inscrição em bases epigráficas, Lusnia encontrou a correspondência. A pedra aparecia em registros acadêmicos antigos como o monumento funerário de Sextus Congenius Verus, mas seu paradeiro físico havia permanecido desconhecido durante décadas.
Sextus Congenius Verus morreu aos 42 anos depois de servir 22 anos
A inscrição preservou informações surpreendentemente detalhadas sobre o homem para quem aquela pedra havia sido produzida. Sextus Congenius Verus era integrante da frota pretoriana de Miseno, uma das principais forças navais do Império Romano, baseada nas proximidades de Nápoles.
O monumento registra que ele pertencia aos Bessi, povo de origem trácia, viveu 42 anos e passou 22 anos no serviço militar. Também identifica a embarcação na qual servia, uma trirreme chamada Asclepius, nome associado ao deus greco-romano da medicina.
A lápide foi dedicada por Atilius Carus e Vettius Longinus, identificados na inscrição como seus herdeiros. Segundo a interpretação apresentada pela arqueóloga Susann Lusnia à Associated Press, eles provavelmente eram companheiros de serviço do marinheiro.
Pedra havia sido encontrada originalmente na Itália em 1866
O monumento não era desconhecido dos arqueólogos antes de aparecer nos Estados Unidos. A pesquisa da Tulane University estabeleceu que ele havia sido descoberto em 1866, perto da antiga cidade portuária romana de Centumcellae, atual Civitavecchia, localizada na costa italiana.
A região revelou um antigo cemitério associado a militares. A Associated Press relata que cerca de 20 sepulturas de pessoal militar foram identificadas ali durante as descobertas do século XIX, entre elas aquela relacionada a Sextus Congenius Verus.
O texto da pedra já havia sido registrado academicamente no início do século XX. A Tulane informa ainda que o monumento passou a integrar a coleção cívica da cidade e acabou preservado no museu arqueológico de Civitavecchia antes de desaparecer durante o período da Segunda Guerra Mundial.
Museu foi praticamente destruído durante bombardeios da Segunda Guerra Mundial
Civitavecchia era um porto estratégico e sofreu pesados ataques aéreos durante a Segunda Guerra Mundial. Entre 1943 e 1944, bombardeios aliados atingiram a cidade e praticamente destruíram o museu onde a lápide havia sido preservada.
Grande parte da coleção desapareceu naquele contexto. A instituição só seria reaberta décadas depois, em 1970.
Documentos posteriores ainda mencionavam a inscrição, mas uma investigação mostrou que alguns desses registros haviam sido compilados a partir de documentação anterior, sem comprovação de que a pedra continuasse fisicamente no museu.
A atualização publicada pela Tulane University em julho de 2026 informa que a lápide era considerada desaparecida desde 1943. Durante décadas, especialistas acreditaram que o objeto pudesse ter sido definitivamente perdido na destruição causada pela guerra.
Avô de antiga moradora havia servido na Itália durante a guerra
A descoberta arqueológica resolveu a identidade da pedra, mas inicialmente deixou uma pergunta ainda maior: como uma lápide romana retirada de um museu italiano havia atravessado o Atlântico e acabado em um quintal residencial na Louisiana?
A resposta começou a aparecer quando Erin Scott O’Brien, antiga proprietária da casa, viu a repercussão do caso. Ela reconheceu imediatamente a placa.
O objeto havia pertencido aos avós, Charles Paddock Jr. e Adele Paddock. Charles era americano e havia servido na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, onde conheceu Adele.
Assista o vídeo
Paddock manteve a pedra exposta em sua residência em Nova Orleans antes de morrer, em 1986. O ponto que permanece sem resposta é como exatamente ele a adquiriu. Não existe documentação que permita afirmar se recebeu, comprou ou simplesmente trouxe a peça em circunstâncias relacionadas ao pós-guerra.
Ninguém na família sabia que a decoração tinha quase 2 mil anos
Depois da morte do avô, a placa acabou herdada por Erin Scott O’Brien. Para ela, o objeto não era uma antiguidade romana identificada, mas uma peça curiosa de mármore que havia permanecido durante muitos anos ligada à história familiar.
Em 2003, O’Brien comprou a casa em Carrollton e levou a pedra para o imóvel. Em vez de colocá-la em uma coleção ou protegê-la como patrimônio arqueológico, utilizou o pesado objeto simplesmente como decoração no jardim.
A própria antiga proprietária afirmou posteriormente que não fazia ideia de que possuía uma relíquia com aproximadamente dois milênios de idade. Para a família, era apenas um antigo objeto de arte que havia passado de uma geração para outra.
Casa foi vendida em 2018 e a lápide ficou esquecida no quintal
A sequência mais improvável aconteceu quando Erin vendeu a residência. Em 2018, o imóvel foi transferido para Daniella Santoro e Aaron Lorenz, mas a antiga proprietária não levou consigo a placa de mármore que permanecia no jardim.
O monumento romano ficou para trás e, com o tempo, acabou escondido pela vegetação. Os novos moradores passaram anos na propriedade sem perceber que havia sob o mato um artefato arqueológico pertencente a uma coleção italiana desaparecida desde a guerra.
Foi apenas durante a limpeza do terreno em 2025 que a pedra ressurgiu. A combinação de um objeto esquecido durante uma mudança e da vegetação que cresceu ao redor dele transformou uma lápide romana documentada por arqueólogos em algo que poderia facilmente ser confundido com uma simples laje antiga no quintal.
Medidas registradas décadas antes ajudaram a comprovar que era a mesma pedra
Não foi apenas a tradução do latim que permitiu ligar a descoberta americana ao monumento desaparecido na Itália. Antigos registros preservavam também informações físicas sobre o objeto, criando outra forma de comparação.
Segundo a Associated Press, a documentação indicava uma placa com aproximadamente 0,09 m² de área e 2,5 centímetros de espessura. As dimensões correspondiam à pedra encontrada no jardim de Nova Orleans.
Além disso, o texto gravado trazia a mesma sequência de informações preservada nos registros epigráficos: nome do marinheiro, origem, idade, período de serviço, unidade naval e pessoas responsáveis pela dedicação funerária. A correspondência permitiu identificar a peça com alto grau de segurança.
FBI recebeu a lápide para organizar sua devolução à Itália
Depois da confirmação, Santoro e Lorenz aceitaram voluntariamente devolver o monumento. A pedra foi então entregue à equipe especializada em crimes contra o patrimônio artístico do FBI, iniciando formalmente o processo de repatriação.
O procedimento envolveu também o Consulado-Geral da Itália em Nova York, o comando dos Carabinieri responsável pela proteção do patrimônio cultural e autoridades judiciais italianas. O objetivo era recolocar o artefato na coleção da qual havia desaparecido mais de oito décadas antes.
Em abril de 2026, a operação foi concluída e a lápide retornou oficialmente à Itália. A pedra que havia passado parte do século XX em uma residência americana e anos exposta em um jardim voltou para Civitavecchia.
Em 2026, peça voltou ao museu de onde desapareceu há mais de 80 anos
Após a restituição, o monumento foi limpo e reintegrado ao acervo do Museo Archeologico Nazionale di Civitavecchia. A Tulane University confirmou em 30 de julho de 2026 que a peça já estava novamente na instituição italiana.
O museu passa atualmente por uma ampla renovação e tem reabertura programada para 18 de setembro de 2026.
A lápide de Sextus Congenius Verus está prevista como uma das peças apresentadas na nova exposição permanente, que contará aproximadamente três milênios da história de Civitavecchia.
A trajetória conhecida do objeto agora cobre quase dois mil anos: produzido para preservar a memória de um marinheiro romano, encontrado por arqueólogos em 1866, incorporado a um museu, perdido durante a Segunda Guerra Mundial, mantido como decoração doméstica nos Estados Unidos, esquecido em um quintal e finalmente devolvido à cidade italiana onde havia sido descoberto.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

