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União Soviética construiu um veículo sobre esteiras de 35 toneladas e mais de 500 cv para atravessar a Antártida, colocou dentro dele seis camas, cozinha, banheiro e sala de rádio em mais de 30 m² e criou uma espécie de apartamento móvel capaz de rebocar até 60 toneladas pelo continente mais frio do planeta
Escrito por Carla Teles
Publicado em 07/08/2026 às 11:24
Atualizado em 07/08/2026 às 11:25
Automotivo, Construção
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A Kharkovchanka, veículo sobre esteiras desenvolvido para as expedições soviéticas na Antártida, pesava 35 toneladas, tinha motor diesel com mais de 500 cv, podia rebocar até 60 toneladas e reunia seis camas, pequeno espaço de cozinha, banheiro, sala de rádio e cabine em um corpo de mais de 30 m².
O veículo sobre esteiras Kharkovchanka surgiu de um problema extremo enfrentado pela União Soviética no interior da Antártida: transportar pessoas, combustível, equipamentos científicos e dezenas de toneladas de suprimentos por milhares de quilômetros sobre neve e gelo. Pesando 35 toneladas e equipado com motor diesel de mais de 500 cv, o gigante combinava força de tração com uma área habitável superior a 30 m², transformando-se em uma espécie de alojamento móvel para os expedicionários.
As características são descritas pelo Serviço Federal de Hidrometeorologia e Monitoramento Ambiental da Rússia, o Roshydromet, em material publicado em 23 de abril de 2020 sobre os equipamentos das expedições antárticas soviéticas. Registros históricos da travessia ao Polo Sul acrescentam que unidades da Kharkovchanka participaram da expedição que partiu da estação Vostok em 8 de dezembro de 1959 e alcançou o Polo Sul em 26 de dezembro daquele ano.
Primeiros tratores revelaram os limites da logística soviética
Antes da Kharkovchanka, os exploradores soviéticos usavam tratores pesados AT-T para penetrar no interior do continente. Esses equipamentos também derivavam de tecnologia militar e eram capazes de rebocar trenós carregados, mas apresentavam limitações importantes quando encontravam neve solta e pouco compactada. O próprio Roshydromet registra que as esteiras eram estreitas para determinadas condições e que os veículos frequentemente ficavam presos durante as primeiras travessias.
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Um dos primeiros comboios da 3ª Expedição Antártica Soviética utilizou cinco tratores AT-T para transportar aproximadamente 125 toneladas de diferentes cargas até a estação Vostok. A experiência mostrou que alcançar as bases continentais exigia uma máquina mais especializada, capaz não apenas de rebocar grandes volumes, mas também de proteger a tripulação durante jornadas prolongadas em um dos ambientes mais hostis do planeta.
Kharkovchanka pesava 35 toneladas e passava dos 500 cv
A resposta veio da fábrica de máquinas de transporte Malyshev, em Kharkov, então parte da República Socialista Soviética da Ucrânia. Ali foi desenvolvida a Kharkovchanka, veículo sobre esteiras criado especificamente para as grandes travessias antárticas. O equipamento utilizava soluções derivadas do tanque T-54 e ampliava a proposta dos tratores pesados empregados anteriormente pelas expedições soviéticas.
Segundo o Roshydromet, a máquina pesava cerca de 35 toneladas e recebia um motor diesel com potência superior a 500 cv. O registro histórico da travessia soviética ao Polo Sul detalha um V12 diesel de aproximadamente 520 hp, além de dimensões superiores a nove metros de comprimento e cerca de 4,3 metros de largura. Mesmo com o porte elevado, poderia alcançar velocidades próximas de 32 km/h em condições favoráveis.
Área interna ultrapassava 30 metros quadrados
A característica que diferenciava a Kharkovchanka de um trator convencional aparecia atrás da cabine. Em vez de transportar a tripulação apenas em assentos apertados e depender totalmente de estruturas rebocadas, o veículo incorporava uma área interna climatizada que o Roshydromet compara a um apartamento de dois cômodos.
Mais de 30 m² estavam disponíveis dentro da estrutura, com seis lugares para dormir, uma pequena cozinha, banheiro, sala de comunicações por rádio e a área destinada ao motorista. Essa configuração permitia que parte essencial da vida cotidiana permanecesse protegida dentro do próprio veículo, reduzindo a exposição dos expedicionários ao vento e às temperaturas extremamente baixas durante as travessias.
Seis camas transformavam o trator em alojamento móvel
Os seis espaços para dormir permitiam que integrantes da equipe descansassem sem abandonar a estrutura principal durante os deslocamentos. Em expedições que podiam consumir semanas, a possibilidade de dormir, cozinhar, comunicar-se e trabalhar dentro do mesmo equipamento representava uma mudança significativa em relação aos tratores utilizados anteriormente.
O veículo sobre esteiras funcionava, portanto, simultaneamente como meio de transporte, alojamento e centro operacional. Não se tratava apenas de colocar uma cabine maior sobre um conjunto de esteiras: os engenheiros criaram uma máquina na qual a tripulação poderia permanecer durante longos períodos enquanto atravessava centenas de quilômetros de gelo praticamente sem infraestrutura.
Máquina conseguia rebocar até 60 toneladas
A força da Kharkovchanka também era utilizada para movimentar cargas que não cabiam dentro da estrutura. De acordo com o Roshydromet, o equipamento podia rebocar sobre trenós de aço até 60 toneladas, valor superior à própria massa de 35 toneladas do veículo.
Nos comboios antárticos, os trenós carregavam combustível, alimentos, instrumentos científicos e outros materiais necessários para abastecer as estações isoladas. A combinação entre capacidade habitável e grande força de reboque permitia transformar cada Kharkovchanka em parte de um verdadeiro trem terrestre sobre o gelo, conectando bases separadas por distâncias que podiam ultrapassar mil quilômetros.
Expedição partiu de Vostok rumo ao Polo Sul
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Uma das missões mais conhecidas ocorreu em 1959. A travessia científica soviética havia começado em Komsomolskaya em 6 de novembro daquele ano, seguindo inicialmente para Vostok. O comboio enfrentou trechos de neve extremamente solta, dificuldades mecânicas e velocidades que, em determinados momentos, ficaram abaixo de dez quilômetros percorridos por dia.
Depois de chegar a Vostok em 29 de novembro, os equipamentos selecionados para a etapa seguinte passaram por manutenção. Uma equipe de 16 pessoas, liderada por Alexander G. Dralkin, deixou a estação em 8 de dezembro de 1959 utilizando três grandes tratores e quatro trenós. Entre os veículos estavam duas Kharkovchankas e um AT-T.
Soviéticos chegaram ao Polo Sul em 26 de dezembro
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Durante o trajeto entre Vostok e o Polo Sul, a expedição realizava medições sísmicas em intervalos definidos, fazendo com que a viagem tivesse finalidade científica além da logística. Depois de 18 dias de deslocamento, o grupo soviético chegou ao Polo Sul em 26 de dezembro de 1959.
Os veículos permaneceram na região durante alguns dias. Os soviéticos realizaram trabalhos científicos e tiveram contato com a equipe norte-americana instalada no Polo. As enormes Kharkovchankas haviam demonstrado que uma máquina de dezenas de toneladas podia transportar pessoas e equipamentos até o ponto mais meridional do planeta enquanto servia como abrigo durante o percurso.
Projeto também enfrentava problemas longe de qualquer oficina
O tamanho e a potência não eliminavam as dificuldades mecânicas. Durante a viagem em direção a Vostok, uma das Kharkovchankas sofreu falha de transmissão. Como a equipe carregava uma unidade de reposição, os integrantes conseguiram substituir o componente utilizando uma abertura no teto e estruturas de içamento disponíveis no próprio comboio.
Outra deficiência estava relacionada à posição do motor, instalado sob parte dos compartimentos traseiros. Registros históricos apontam que gases do diesel podiam chegar à área habitável. A Kharkovchanka era extraordinariamente avançada para sua finalidade, mas continuava sendo uma máquina experimental submetida a condições nas quais qualquer defeito precisava ser resolvido a centenas de quilômetros de assistência convencional.
Segunda geração tentou corrigir limitações do gigante
Com a experiência acumulada nas travessias, versões posteriores foram aperfeiçoadas e deram origem à chamada Kharkovchanka-2. O objetivo era manter as vantagens do conceito enquanto corrigia limitações identificadas durante anos de operação no continente antártico.
Décadas depois, as expedições russas incorporariam outros veículos, entre eles os transportadores articulados DT-30P, com capacidade de carga de aproximadamente 30 toneladas e motores ainda mais potentes. A evolução tecnológica mudou os equipamentos, mas o princípio permaneceu semelhante: combinar elevada capacidade de transporte com mobilidade suficiente para avançar onde simplesmente não existem estradas.
Um apartamento sobre esteiras para atravessar o continente gelado
A Kharkovchanka tornou-se um exemplo de engenharia criada para uma necessidade que dificilmente existiria fora da Antártida. Com 35 toneladas, mais de 500 cv, seis camas, cozinha, banheiro, rádio e capacidade para rebocar até 60 toneladas, o veículo sobre esteiras precisava funcionar ao mesmo tempo como trator, caminhão, dormitório e base de sobrevivência.
A travessia ao Polo Sul mostrou até onde esse conceito poderia chegar quando não havia estradas, oficinas ou cidades no caminho. Para você, o que impressiona mais na Kharkovchanka: as 35 toneladas sobre esteiras, a capacidade de puxar 60 toneladas ou o fato de existir um verdadeiro espaço de moradia dentro da máquina? Deixe sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

