Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Wittenoom: cidade australiana apagada do mapa deixou mais de 3,2 milhões de toneladas de rejeitos com amianto e agora é alvo de ação bilionária

Wittenoom: cidade australiana apagada do mapa deixou mais de 3,2 milhões de toneladas de rejeitos com amianto e agora é alvo de ação bilionária

6 min de leitura

Wittenoom: cidade australiana apagada do mapa deixou mais de 3,2 milhões de toneladas de rejeitos com amianto e agora é alvo de ação bilionária

Escrito por Fabio Lucas Carvalho

Publicado em 14/08/2026 às 18:51

Atualizado em 14/08/2026 às 18:52

Ciência e Tecnologia

Canal

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Antiga cidade mineradora no oeste da Austrália permanece dentro de uma área contaminada de 46.840 hectares, com mais de 3,2 milhões de toneladas de rejeitos ligados ao amianto azul, enquanto proprietários tradicionais Banjima recorrem à Justiça em uma disputa cuja remediação pode superar AU$ 1,5 bilhão.

Antiga área de mineração de amianto azul cobre 46.840 hectares oficialmente contaminados; em 2026, proprietários tradicionais Banjima recorreram à Justiça para exigir descontaminação e indenizações.

A antiga cidade de Wittenoom, no oeste da Austrália, continua cercada por uma contaminação deixada pela mineração de amianto azul encerrada há seis décadas. A região reúne mais de 3,2 milhões de toneladas de rejeitos associados às antigas minas e, em 2026, tornou-se alvo de uma ação judicial que pode envolver custos superiores a AU$ 1,5 bilhão.

Hoje, a antiga cidade faz parte da Wittenoom Asbestos Management Area, ou WAMA, uma área oficialmente contaminada de 46.840 hectares. O próprio governo da Austrália Ocidental orienta que ninguém visite o local devido ao risco representado pelas fibras de amianto que permanecem no solo e podem ser transportadas pelo vento, pela água ou levantadas por atividades humanas.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Segundo o Governo da Austrália Ocidental, a contaminação deriva das atividades históricas das minas Wittenoom, Colonial e Yampire. A exploração na região ocorreu desde a década de 1930 até 1966 e deixou rejeitos contendo quantidades variáveis de crocidolita, conhecida como amianto azul.

Wittenoom permanece dentro de uma área de 46.840 hectares contaminados

O problema não ficou restrito às antigas entradas das minas. Ao longo dos anos, pilhas de rejeitos sofreram erosão e o material se espalhou para áreas vizinhas. Parte desses resíduos também foi retirada dos depósitos e utilizada historicamente em estradas, construções e como material de aterro na antiga cidade.

Em 2008, toda a área de 46.840 hectares foi classificada como contaminada pelo órgão ambiental estadual. Ela engloba a antiga cidade de Wittenoom, o aeroporto, o cemitério, regiões das minas, Wittenoom Gorge, Yampire Gorge e Joffre Floodplain. As autoridades ambientais e de saúde consideram o território inadequado para qualquer forma de ocupação humana ou uso do solo.

O governo também informa que fibras minúsculas permanecem no chão e no ar e nem sempre podem ser identificadas visualmente. O material pode voltar a ficar suspenso quando é perturbado por veículos, pessoas, vento ou água.

A exposição ao amianto está associada a doenças graves, incluindo mesotelioma, asbestose e câncer de pulmão. Por isso, bloqueios permanentes foram instalados nas entradas da antiga cidade e de Wittenoom Gorge, acompanhados de alertas para que visitantes não entrem na área.

Mais de 3,2 milhões de toneladas de rejeitos aparecem no processo

A dimensão física do passivo ambiental aparece detalhada na ação apresentada em 2026 pela Banjima Native Title Aboriginal Corporation RNTBC (BNTAC) contra o Estado da Austrália Ocidental.

O documento protocolado na Federal Court of Australia afirma que a antiga Wittenoom Mine e sua unidade de processamento produziram aproximadamente 600 mil toneladas de rejeitos, contendo até 5% de amianto azul residual. A mina funcionou entre 1946 e 1958.

O volume é ainda maior na Colonial Mine. A operação, que funcionou de 1953 a 1966, produziu aproximadamente 2,6 milhões de toneladas de rejeitos contendo cerca de 5% de amianto azul residual, segundo os dados apresentados pelos autores da ação.

Já a Yampire Mine, explorada entre 1943 e 1946, deixou aproximadamente 15 mil toneladas de rejeitos, também descritos no processo como contendo cerca de 5% de amianto azul residual.

Somados, os três volumes chegam a aproximadamente 3,215 milhões de toneladas de rejeitos. O número não significa que existam 3,2 milhões de toneladas de amianto puro: trata-se de material residual da mineração que contém fibras de amianto azul em diferentes concentrações.

Cidade foi retirada oficialmente e estruturas acabaram demolidas

O declínio de Wittenoom começou muito antes da atual disputa judicial. Em 1978, o governo estadual iniciou a redução gradual da cidade por causa das preocupações com os riscos à saúde provocados pelas fibras de amianto transportadas pelo ar.

Em junho de 2007, o antigo núcleo urbano teve seu status oficial abolido. A área, porém, continuou contaminada e submetida a restrições de acesso.

As construções que ainda restavam também desapareceram. A ABC News relata que a cidade foi completamente demolida em 2023, enquanto os grandes depósitos de rejeitos das antigas operações de mineração permaneceram na região.

A remoção dos prédios, portanto, não representou a descontaminação de toda a área atingida. As antigas minas, pilhas de rejeitos e locais onde material contaminado foi utilizado continuam no centro das medidas de segurança e da disputa aberta em 2026.

Banjima levaram o caso à Justiça em fevereiro de 2026

Em 24 de fevereiro de 2026, a Banjima Native Title Aboriginal Corporation protocolou uma ação coletiva na Federal Court of Australia contra o Estado da Austrália Ocidental.

O documento recebeu o número VID198/2026 e identifica a BNTAC como autora e o Estado da Austrália Ocidental como réu. A entidade atua em nome de integrantes do povo Banjima que possuem direitos reconhecidos sobre terras e águas atingidas pelo problema.

Na ação, os autores alegam que a presença e a dispersão contínua do amianto interferem no exercício desses direitos. O documento cita como fontes do material as antigas minas, depósitos de rejeitos, o hipódromo de Wittenoom e o antigo aeroporto, além de áreas para onde o material teria se espalhado.

Entre os pedidos apresentados está uma ordem para que o Estado elimine ou controle o problema. O processo detalha medidas como remover ou conter material com amianto nas minas e nos depósitos de rejeitos e tornar seguros outros locais afetados, entre eles o antigo hipódromo e o aeroporto.

A ação também busca indenizações por perdas e danos. O valor final, porém, não está fixado no documento judicial.

Estimativa supera AU$ 1,5 bilhão, mas valor ainda não está definido

Segundo reportagem da ABC News, a BNTAC estima que o montante relacionado à remediação possa superar AU$ 1,5 bilhão, dependendo das evidências apresentadas por especialistas. Portanto, o número é uma estimativa, e não uma indenização já determinada pela Justiça.

A entidade busca, entre outras medidas, o fechamento adequado de três antigas minas, ações sobre três áreas de depósitos de rejeitos e a remediação de desfiladeiros, rios e cursos d’água que possam ter sido atingidos.

Johnnell Parker, integrante do povo Banjima, afirmou à ABC que a questão ultrapassa o valor financeiro e envolve a comunidade e o meio ambiente. O primeiro-ministro da Austrália Ocidental, Roger Cook, declarou respeitar o direito dos Banjima de recorrer à Justiça e disse preferir uma solução negociada, embora o governo estadual deva defender sua posição jurídica no processo.

Mais de seis décadas após o encerramento das últimas operações de mineração de amianto azul na região, Wittenoom permanece oficialmente isolada. A antiga cidade desapareceu, mas os rejeitos continuam espalhados por uma extensa área, transformando o legado da mineração em uma disputa ambiental e judicial que voltou ao centro das atenções em 2026.

Tags


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

Sair da versão mobile