9 min de leitura
A água salgada está avançando por baixo das cidades e o alerta cresce: intrusão pode contaminar poços, inutilizar aquíferos, corroer tubulações e comprometer o abastecimento de milhões de pessoas em regiões costeiras
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 15/09/2026 às 12:06
Atualizado em 15/09/2026 às 12:55
Ciência e Tecnologia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Intrusão salina avança sob cidades costeiras, ameaça aquíferos, poços, tubulações e o abastecimento de milhões de pessoas.
Segundo NASA Jet Propulsion Laboratory, a água salgada deve atingir reservas subterrâneas de água doce em cerca de três a cada quatro áreas costeiras do mundo até 2100. O estudo liderado por pesquisadores da NASA e do Departamento de Defesa dos Estados Unidos avaliou mais de 60 mil bacias costeiras e apontou que a intrusão salina pode tornar aquíferos impróprios para consumo, prejudicar ecossistemas e corroer infraestrutura subterrânea.
O problema acontece longe dos olhos da população. Enquanto o mar sobe na superfície, a água salgada também pressiona o subsolo, avança por camadas de areia, rocha e sedimentos e se aproxima de poços usados para abastecimento. Em regiões costeiras, essa mudança ameaça tubulações, fundações, sistemas de esgoto, agricultura e cidades inteiras que dependem da água subterrânea para viver.
A água salgada não invade apenas pela praia
A imagem mais comum do avanço do mar é a onda entrando na rua. Mas, em muitas cidades costeiras, o movimento mais perigoso acontece debaixo do chão. A água salgada se infiltra lentamente no subsolo e ocupa espaços antes dominados por água doce.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Esse processo é chamado de intrusão salina. O termo significa a entrada de água salgada em aquíferos de água doce. Aquífero é uma camada subterrânea de areia, cascalho ou rocha que armazena água e pode abastecer poços.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, explica que a água doce subterrânea normalmente corre em direção ao mar. Esse fluxo ajuda a manter a água salgada afastada. Quando o equilíbrio muda, o sal avança para dentro do continente.
O equilíbrio natural entre água doce e água salgada
Em uma costa sem grande retirada de água, existe uma disputa silenciosa. A chuva abastece os aquíferos, a água doce ganha pressão e empurra a água salgada para perto do oceano. Do outro lado, o mar faz força no sentido contrário.
Assista o vídeo
Entre esses dois lados existe uma zona de mistura. Nela, água doce e água salgada se encontram. Essa faixa não é uma parede rígida. Ela se move conforme a chuva, o nível do mar, o bombeamento de poços e a geologia local.
Quando a cidade cresce e começa a retirar água demais do aquífero, a pressão da água doce cai. O mar encontra caminho aberto. A água salgada começa a ocupar os vazios subterrâneos e pode chegar aos poços.
Poços costeiros podem ser os primeiros atingidos
O poço é uma das estruturas mais vulneráveis. Quando a frente salgada se aproxima, a água retirada começa a apresentar mais cloreto e outros sais. Em níveis altos, ela deixa de servir para beber, cozinhar ou irrigar plantações.
O USGS afirma que a intrusão salina reduz o armazenamento de água doce nos aquíferos e, em casos extremos, pode levar ao abandono de poços. Isso acontece porque a água passa a exigir tratamento mais caro ou se torna inviável para uso comum.
A contaminação não precisa atingir toda a reserva subterrânea de uma vez. Às vezes, começa por alguns poços próximos da costa. Depois, avança conforme a retirada de água continua, a chuva diminui ou o nível do mar sobe.
O bombeamento excessivo puxa o sal para dentro
Muitas cidades costeiras dependem de água subterrânea porque rios e represas não bastam. Hotéis, condomínios, indústrias, irrigação e bairros inteiros aumentam a demanda. Quanto mais água é bombeada, maior pode ser a queda da pressão no aquífero.
Quando essa retirada passa do limite, o poço deixa de apenas puxar água doce. Ele também pode atrair água salgada que estava mais abaixo ou mais perto do mar. Esse movimento pode ocorrer de lado, a partir da costa, ou de baixo para cima.
O USGS registra que o bombeamento de água subterrânea pode reduzir o fluxo de água doce em direção à costa e fazer a água salgada migrar para áreas antes ocupadas por água doce. Em zonas costeiras, esse é um dos mecanismos mais comuns de degradação da qualidade da água.
O nível do mar aumenta a pressão subterrânea
O avanço da intrusão salina também está ligado à elevação do nível do mar. Quando o oceano sobe, a pressão da água salgada contra os aquíferos aumenta. A frente de sal pode se deslocar para dentro da terra mesmo sem uma enchente visível.
A NASA informa que a elevação do nível do mar tende a empurrar a zona de transição para o interior em 82% das bacias costeiras estudadas, quando esse fator é analisado isoladamente. Em muitas delas, o deslocamento projetado pode chegar a até 200 metros até 2100.
Esse avanço pode parecer pequeno em uma escala de mapa. Mas, dentro de uma cidade costeira, 200 metros podem alcançar poços, redes enterradas, fundações, estações elevatórias e bairros inteiros construídos em áreas baixas.
Menos recarga deixa o aquífero mais fraco
A intrusão salina não depende apenas do mar. Também depende da água doce que entra no subsolo. Quando chove menos, quando o calor aumenta ou quando o solo fica impermeável por causa de asfalto e concreto, o aquífero recebe menos recarga.
A NASA aponta que a redução da recarga subterrânea, analisada sozinha, tende a causar intrusão salina em 45% das bacias costeiras avaliadas. Em alguns lugares, esse efeito pode empurrar a zona de transição até cerca de 1.200 metros para dentro da terra.
Isso muda o tipo de resposta necessária. Em locais onde o problema maior é a falta de recarga, proteger áreas de infiltração, reduzir retirada de água e recuperar zonas úmidas pode ser tão importante quanto construir barreiras costeiras.
A ameaça também chega às tubulações e fundações
A água salgada não ameaça apenas o abastecimento. Ela também pode atacar a infraestrutura enterrada. Tubos metálicos, tanques, armaduras de concreto, cabos e fundações ficam mais expostos quando o subsolo passa a ter água com maior concentração de sal.
Um artigo publicado na revista Nature Cities alerta que ameaças invisíveis ligadas à água subterrânea em cidades costeiras podem afetar redes de transporte, água potável, esgoto, drenagem e energia. O estudo destaca que a entrada de sal no ambiente construído pode corroer armaduras de concreto e enfraquecer fundações.
Esse dano costuma aparecer devagar. Primeiro, há corrosão. Depois, vazamentos, infiltrações, recalques e reparos mais caros. Em áreas baixas, onde o lençol freático já está próximo da superfície, a combinação de água salgada e infraestrutura envelhecida aumenta a pressão sobre os serviços urbanos.
A água potável pode ficar mais cara
Quando a salinidade sobe, o tratamento da água fica mais difícil. Sistemas simples de cloração ou filtragem não retiram sal dissolvido. Para isso, são necessários processos mais caros, como dessalinização ou mistura com fontes de água doce.
Assista o vídeo
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, afirma que a intrusão salina pode aumentar os custos de tratamento em instalações que captam água de aquíferos costeiros ou de rios sujeitos à influência das marés. Também pode tornar poços subterrâneos inutilizáveis.
Esse aumento de custo pesa mais em cidades pobres, ilhas, comunidades rurais costeiras e regiões que dependem de poços particulares. Quando a água do poço fica salgada, a família precisa buscar outra fonte, pagar por água transportada ou instalar tratamento caro.
Cidades baixas enfrentam risco duplo
As cidades costeiras mais baixas enfrentam duas ameaças ao mesmo tempo. A primeira vem pela superfície, com marés altas, ressacas e enchentes. A segunda vem por baixo, com a água salgada avançando em aquíferos, drenagens e redes enterradas.
O IPCC, painel climático da ONU, aponta que a elevação do nível do mar, a subsidência do terreno e o crescimento urbano mal regulado aumentam os riscos nas cidades e assentamentos costeiros. Subsidência é o afundamento lento do solo, que pode ocorrer por causas naturais ou pela retirada de água subterrânea.
Quando o solo afunda e o mar sobe, a diferença entre a cidade e o oceano diminui. O lençol freático pode subir, o escoamento da chuva piora e a água salgada encontra novas rotas para dentro do sistema urbano.
Milhões vivem em áreas costeiras vulneráveis
A escala humana do problema é grande. Um estudo publicado na Scientific Reports lembra que mais de 600 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras com menos de 10 metros acima do nível do mar. Essas populações estão mais expostas a mudanças no mar, no solo e na qualidade da água.
O mesmo estudo avaliou riscos de saúde ligados ao aumento de sal na água em cenários climáticos até 2050. A pesquisa identificou países de baixa e média renda que podem ficar especialmente vulneráveis quando há intrusão salina, dependência de água subterrânea e maior consumo de sódio.
Essa relação é importante porque água salgada não afeta apenas gosto e uso doméstico. O consumo prolongado de água com mais sais pode elevar a ingestão de sódio. Em populações sem acesso amplo a tratamento, o risco se soma a problemas de pressão alta, doenças cardiovasculares e doença renal.
Agricultura costeira também sente o avanço do sal
Em áreas costeiras agrícolas, o problema chega ao solo. A água usada na irrigação pode carregar sal para plantações. Com o tempo, o excesso de sal reduz a fertilidade, prejudica raízes e diminui a produtividade.
A intrusão salina também pode atingir canais, rios próximos da foz e sistemas de drenagem rural. Durante secas, quando há menos água doce correndo para o mar, a água salgada consegue subir mais por estuários e penetrar em áreas usadas para captação.
A NASA destaca que aquíferos contaminados podem se tornar impróprios para irrigação. Isso afeta diretamente regiões costeiras que dependem de poços para produzir alimentos, especialmente onde a chuva é irregular e a demanda agrícola por água aumenta.
Barreiras, recarga e redução de bombeamento entram na resposta
Não existe uma única solução para todas as cidades. Em alguns lugares, o caminho é reduzir a retirada de água subterrânea. Em outros, é criar recarga artificial, com bacias de infiltração ou injeção de água tratada no aquífero.
A EPA informa que poços de recarga podem ajudar a impedir a intrusão salina em aquíferos de água doce e também controlar subsidência. Esse tipo de obra tenta devolver pressão ao sistema subterrâneo, criando uma barreira de água doce contra o avanço do sal.
Outras medidas incluem proteção de áreas úmidas, reúso de água, busca de novas fontes de abastecimento, controle de vazamentos e planejamento urbano que limite a ocupação em áreas costeiras muito baixas. A resposta precisa combinar engenharia, gestão da água e controle do crescimento urbano.
O alerta subterrâneo avança antes da crise visível
A intrusão salina cresce de forma lenta, mas seus efeitos podem durar muitos anos. Quando um aquífero é contaminado, a recuperação costuma ser difícil, cara e demorada. Em alguns casos, poços precisam ser fechados e cidades passam a depender de fontes mais distantes.
O dado da NASA coloca o problema em escala global: 77% das bacias costeiras avaliadas podem sofrer intrusão salina até o fim do século, considerando os efeitos combinados da elevação do mar e das mudanças na recarga subterrânea.
Nas cidades costeiras, a água salgada já não é apenas uma ameaça na linha da praia. Ela avança pelo subsolo, alcança reservas invisíveis, pressiona redes enterradas e obriga governos a tratar aquíferos como parte central da infraestrutura urbana.
Se a água doce que sustenta uma cidade começa a mudar antes que a população perceba, quanto tempo ainda existe para proteger os poços que abastecem milhões de pessoas?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

