Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

A Eneva entregou sua última termelétrica a carvão e ficou com 100% do terminal de GNL do Pecém numa permuta de até R$ 867 milhões com a Diamante Energia, negócio que ainda depende do aval do Cade

A Eneva entregou sua última termelétrica a carvão e ficou com 100% do terminal de GNL do Pecém numa permuta de até R$ 867 milhões com a Diamante Energia, negócio que ainda depende do aval do Cade

5 min de leitura

A Eneva entregou sua última termelétrica a carvão e ficou com 100% do terminal de GNL do Pecém numa permuta de até R$ 867 milhões com a Diamante Energia, negócio que ainda depende do aval do Cade

Escrito por Paulo Nogueira

Publicado em 05/09/2026 às 15:23

Atualizado em 05/09/2026 às 15:25

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

A Eneva assinou com a Diamante Energia um contrato de permuta que a tira de vez da geração a carvão e a deixa com 100% da empresa que vai transportar gás no Complexo do Pecém, num negócio que pode somar R$ 867 milhões e ainda depende do aval do Cade.

O acordo foi divulgado em 2 de setembro. Não é uma venda simples, e sim uma troca de participações societárias entre as duas companhias.

De um lado, a Eneva transfere 100% das ações da Itaqui Geração de Energia, dona da termelétrica Porto do Itaqui, de 360 MW, movida a carvão. Do outro, a Diamante repassa os 50% que ainda detinha na Porto do Pecém Transportadora de Minérios, a PPTM.

Como o dinheiro entra na conta

Numa permuta, os ativos raramente valem exatamente o mesmo. A diferença é acertada em dinheiro, e é aí que aparecem os números do negócio.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Recomendado para você

Logística e Transporte

Rio Negro pode cair a apenas 12,31 metros em Manaus e colocar a vazante de 2026 entre as mais severas já observadas

A vazante do Rio Negro pode levar o nível em Manaus a uma faixa entre 12,31 e 16,50 metros no pico da seca de 2026, conforme cenários divulgados pelo Serviço…

Paulo Nogueira

0

Conforme o Petronotícias, a Diamante paga R$ 400 milhões à vista na data de fechamento, com correção monetária até lá.

Há ainda uma parcela contingente de até R$ 467 milhões. Ela só é devida se acontecer uma condição específica: a antecipação do início do contrato de reserva de capacidade que a térmica Itaqui conquistou no leilão de 2026.

Esse contrato tem data marcada. O fornecimento está previsto para começar em 1º de agosto de 2031 e durar dez anos, enquanto os contratos atuais da usina vigoram até 21 de dezembro de 2027.

Ou seja, entre 2028 e 2031 existe uma lacuna. Se ela for encurtada, o comprador ganha receita antes do previsto, e a Eneva recebe a parcela adicional. É um mecanismo que divide o risco regulatório entre as partes em vez de jogá-lo todo no preço à vista.

Por que a Eneva quis a PPTM inteira

O nome da empresa engana. Porto do Pecém Transportadora de Minérios nasceu ligada a movimentação de carga sólida, mas o papel dela no plano da compradora é outro.

A PPTM deve integrar a construção de um terminal de importação, armazenagem e regaseificação de gás natural liquefeito no Complexo Industrial do Pecém, dimensionado para movimentar até 14 milhões de metros cúbicos de gás por dia.

Ter 50% de um projeto assim significa dividir decisão. Ter 100% significa definir sozinho o cronograma, a engenharia e a política comercial do terminal.

Por isso a operação faz sentido estratégico mesmo custando caro. A companhia estava dividindo o controle de uma peça central da própria tese de crescimento com um sócio que, nesse mesmo movimento, saiu de cena.

Há um detalhe adicional que reforça a leitura: a Diamante cancelou a opção que tinha de comprar 30% das sociedades de propósito específico do Hub Ceará. Os dois lados, portanto, desataram nós societários de uma vez.

O fim do carvão numa geradora térmica

O que chama atenção no negócio não é apenas o valor. É a Eneva encerrar sua presença na geração a carvão vendendo justamente a última usina desse tipo em seu portfólio.

Carvão é a fonte térmica com maior intensidade de emissão por megawatt gerado. Carregar um ativo desses no balanço pesa no acesso a crédito, na avaliação de investidor institucional e nas metas de descarbonização que a própria empresa divulga.

Vale registrar, contudo, que a usina não deixa de existir. Ela troca de dono, mantém os contratos e segue no sistema elétrico brasileiro. O que muda é quem responde por ela.

Trocar carvão por infraestrutura de gás também tem leitura de negócio, não só ambiental. Gás natural entrega flexibilidade para o sistema, complementa a geração eólica e solar quando o vento e o sol faltam, e o Pecém é hoje um dos polos onde essa cadeia se organiza no Nordeste.

O que falta é o Cade. Como a transação envolve concentração num complexo industrial específico, o órgão vai avaliar se a operação reduz a concorrência na movimentação e no fornecimento de gás naquela região.

Até lá, nada muda na prática. O contrato está assinado, os valores estão definidos e o cronograma do terminal segue dependendo de uma assinatura que ainda não veio.

Vale situar o Complexo do Pecém nesse tabuleiro. O terminal cearense reúne porto, zona de processamento de exportação e infraestrutura energética no mesmo perímetro, o que o transformou num dos polos preferidos para projetos de gás e de hidrogênio no Nordeste.

Ter capacidade de regaseificação ali significa poder importar gás natural liquefeito por navio e injetá-lo na malha, atendendo indústria e térmica da região sem depender de gasoduto vindo do Sudeste.

Esse é o ponto que dá sentido econômico à permuta. O Nordeste concentra a maior parte da geração eólica e solar do país, fonte que varia conforme vento e sol, e precisa de térmica flexível para cobrir as horas de baixa geração.

Gás cumpre esse papel melhor do que carvão, porque liga e desliga com rapidez.

Do lado da vendedora, sair do carvão também simplifica a vida regulatória. Usina a carvão depende de contrato específico de reserva de capacidade para se manter viável, e esse tipo de contrato tem prazo definido e futuro incerto no desenho do setor elétrico brasileiro.

Por isso a operação se lê melhor como troca de posição estratégica do que como simples venda de ativo. Uma empresa se concentra em infraestrutura de gás; a outra assume geração térmica com contrato de longo prazo já garantido.

Além disso, convém acompanhar o prazo do Cade. Conforme o histórico do órgão, operações que concentram infraestrutura essencial num mesmo complexo costumam receber análise mais detida do que fusões simples.

Portanto, existe a possibilidade de aprovação com restrição, hipótese em que o comprador assume compromissos de acesso de terceiros à infraestrutura.

Dessa forma, o desenho final da operação ainda pode mudar. Durante esse período, contudo, a térmica segue gerando, o terminal segue em projeto e o cronograma do gás no Nordeste permanece dependendo de uma decisão que não é das empresas envolvidas.

Trocar uma térmica a carvão por um terminal de gás é avanço real na transição ou só troca de combustível fóssil?

Tags

Fonte

Petronotícias


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Paulo Nogueira.

Sair da versão mobile