Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

A fruta brasileira que pode movimentar R$ 220 bilhões: macaúba entra na mira de fundo dos Emirados Árabes para produzir 1 bilhão de litros de SAF e diesel verde por ano no Brasil

A fruta brasileira que pode movimentar R$ 220 bilhões: macaúba entra na mira de fundo dos Emirados Árabes para produzir 1 bilhão de litros de SAF e diesel verde por ano no Brasil

13 min de leitura

A fruta brasileira que pode movimentar R$ 220 bilhões: macaúba entra na mira de fundo dos Emirados Árabes para produzir 1 bilhão de litros de SAF e diesel verde por ano no Brasil

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 21/09/2026 às 13:27

Atualizado em 21/09/2026 às 13:28

Agronegócio

Canal

Assista o vídeo
Foto: Reoprodução/Acelen

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Macaúba brasileira atrai bilhões dos Emirados Árabes para produzir SAF e diesel verde, criar até 85 mil empregos e movimentar R$ 220 bilhões.

Uma palmeira brasileira que durante décadas cresceu espalhada por pastagens, cerrados e propriedades rurais entrou no centro de um projeto bilionário ligado aos Emirados Árabes Unidos. Seu fruto, a macaúba, pode virar matéria-prima para abastecer aviões e veículos pesados com combustíveis renováveis produzidos no Brasil.

A aposta é da Acelen Renováveis, empresa de energia pertencente ao Mubadala Capital, grupo de investimentos com sede em Abu Dhabi. Segundo a companhia, estudos conduzidos pela FGV apontam potencial de US$ 40 bilhões de impacto na economia brasileira, valor apresentado em 2025 como aproximadamente R$ 220 bilhões, além da criação de até 85 mil empregos ao longo da implantação da nova cadeia produtiva.

Uma fruta brasileira chamou a atenção de um dos maiores investidores dos Emirados

A macaúba não precisou ser trazida de outro continente. A palmeira é nativa do Brasil e pode ser encontrada naturalmente em diferentes regiões do país, principalmente em áreas do Cerrado.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Ela também recebe nomes como bocaiuva, macaíba e coco-de-espinho. Durante muito tempo, seu uso ficou concentrado em pequenas cadeias regionais, produção artesanal, alimentação, óleo e aproveitamento de partes da planta.

Assista o vídeo

Agora, o fruto passou a ser observado por outro motivo. A macaúba possui grande quantidade de óleo e pode fornecer matéria-prima para a produção de combustíveis renováveis, principalmente SAF e HVO.

O SAF é o combustível sustentável de aviação. O HVO é um diesel renovável produzido a partir de óleos e gorduras tratados com hidrogênio.

Projeto pode movimentar US$ 40 bilhões na economia brasileira

O número que colocou a macaúba no centro das atenções não representa apenas o dinheiro necessário para construir uma fábrica.

Segundo a Acelen Renováveis, estudo da FGV calcula que toda a cadeia integrada poderá gerar um impacto de até US$ 40 bilhões na economia brasileira durante sua implantação.

Quando o projeto ganhou destaque em 2025, esse valor foi apresentado como aproximadamente R$ 220 bilhões, considerando a conversão utilizada naquele período. Portanto, não se trata de uma fábrica isolada que custará R$ 220 bilhões.

Assista o vídeo

A estimativa considera uma cadeia muito maior. Ela começa na produção das sementes, passa pelos viveiros, plantio, máquinas agrícolas, mão de obra, colheita e transporte e chega ao processamento do óleo e à fabricação dos combustíveis.

É justamente essa longa cadeia que ajuda a explicar como uma fruta pouco conhecida fora do campo pode gerar um movimento econômico dessa escala.

Até 85 mil empregos podem surgir ao redor da macaúba

O mesmo estudo citado pela Acelen estima a geração de até 85 mil empregos diretos e indiretos durante a próxima década.

As vagas não ficariam restritas à futura biorrefinaria. Uma grande parte do trabalho estará no campo, onde será necessário produzir mudas, preparar áreas, plantar, acompanhar as palmeiras e retirar os frutos.

Outras oportunidades aparecem no transporte, manutenção de máquinas, desenvolvimento tecnológico, processamento agrícola e operação industrial.

A ideia da empresa é criar uma cadeia que funcione desde a semente até o combustível pronto para ser colocado em um avião ou caminhão.

Acelen pertence ao Mubadala Capital, de Abu Dhabi

A dimensão internacional do projeto aparece em quem está por trás da iniciativa.

A Acelen Renováveis é uma empresa do Mubadala Capital, companhia global de investimentos ligada a Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

O grupo já possui presença importante no Brasil e pretende ampliar seus investimentos no país. A própria Mubadala já apresentou a macaúba como uma das bases de seu plano para produzir combustíveis renováveis em larga escala.

Em uma etapa anterior do projeto, o grupo chegou a falar em cerca de 80 milhões de palmeiras e aproximadamente 200 mil hectares de terras degradadas.

O projeto passou por ajustes posteriores. Em 2026, a Acelen informou que a primeira operação integrada prevê aproximadamente 144 mil hectares de cultivo, considerando ganhos de produtividade incorporados ao planejamento.

A plantação será feita principalmente em áreas degradadas

Um dos pontos centrais da estratégia é evitar que a macaúba concorra diretamente com grandes áreas usadas atualmente para produzir alimentos.

A Acelen afirma que pretende cultivar a planta em pastagens degradadas, áreas que perderam parte de sua capacidade produtiva ao longo dos anos.

A empresa informa que 100% do cultivo planejado seguirá essa lógica. A macaúba possui adaptação natural a diferentes condições brasileiras e pode permanecer produtiva durante décadas.

O projeto também prevê participação de pequenos agricultores. Na estrutura divulgada em maio de 2026, aproximadamente 20% dos 144 mil hectares planejados deverão ser trabalhados por meio de parcerias com agricultura familiar e pequenos produtores.

Isso significa que o modelo não dependerá apenas de enormes fazendas próprias.

Primeiras 90 mil mudas já foram colocadas no campo

O projeto deixou de existir somente em apresentações e estudos.

Em maio de 2025, a Acelen começou o plantio comercial de macaúba em uma fazenda-modelo localizada no município de Cachoeira, na Bahia.

Na primeira etapa, foram plantados aproximadamente 198 hectares, com cerca de 90 mil mudas. A área começou a funcionar como campo de testes para técnicas de cultivo, mecanização e manejo da planta em grande escala.

A experiência é importante porque a macaúba é nativa e conhecida há muito tempo, mas transformá-la em uma cultura agrícola de grande escala exige outro nível de padronização.

É necessário saber como produzir milhões de mudas, como plantar mecanicamente, qual espaçamento utilizar, como colher e como transportar enormes volumes de frutos todos os anos.

Um centro em Minas Gerais foi criado apenas para estudar a macaúba

Outra parte da operação está em Montes Claros, no norte de Minas Gerais.

Ali funciona o Acelen Agripark, um centro dedicado ao desenvolvimento tecnológico da macaúba. A unidade trabalha desde germinação e produção de mudas até pesquisa genética e novas técnicas de cultivo.

Em agosto de 2026, a empresa informou que sua biofábrica já possuía capacidade para escarificar 1,7 milhão de sementes por mês. Escarificar significa preparar a camada externa da semente para facilitar sua germinação.

Esse tipo de tecnologia é fundamental para transformar uma palmeira encontrada naturalmente no país em uma cultura capaz de abastecer uma indústria que pretende produzir 1 bilhão de litros de combustível por ano.

O centro também trabalha com universidades e instituições de pesquisa brasileiras.

Macaúba pode produzir muito mais óleo por hectare que a soja

A grande atração econômica da macaúba está dentro do fruto.

Segundo dados divulgados pela Acelen Renováveis, a cultura apresenta potencial de produtividade de óleo sete a dez vezes maior por hectare do que a soja, dependendo das condições e do sistema considerado.

Assista o vídeo

Isso não significa que a macaúba substituirá a soja brasileira. São cadeias agrícolas diferentes e a soja possui uma estrutura produtiva gigantesca já consolidada.

O ponto é que uma plantação de macaúba pode produzir grande quantidade de óleo ocupando uma área relativamente menor.

Para uma indústria que precisa transformar óleos vegetais em milhões de litros de combustível, essa produtividade aumenta o interesse econômico pela espécie.

Praticamente todo o fruto pode ser aproveitado

Outro diferencial está na possibilidade de usar várias partes da macaúba.

Do fruto podem sair diferentes tipos de óleo. A polpa fornece matéria-prima com características próprias, enquanto a amêndoa também possui óleo com aplicações industriais.

O processamento ainda gera fibras, tortas e materiais ricos em proteínas, que podem encontrar usos em outras cadeias.

A Acelen afirma que pretende aproveitar 100% do fruto, reduzindo a quantidade de resíduos deixados pelo processamento.

Esse aproveitamento ajuda a aumentar o valor obtido de cada tonelada retirada da plantação.

Fruto será transformado em combustível para aviões

O óleo da macaúba será tratado dentro de uma biorrefinaria usando uma tecnologia conhecida pela sigla HEFA.

O nome significa, em português, hidroprocessamento de ésteres e ácidos graxos. Na prática, a tecnologia transforma óleos e gorduras em hidrocarbonetos capazes de substituir combustíveis produzidos a partir de petróleo.

A futura unidade da Acelen poderá produzir principalmente SAF para aviação e HVO para motores diesel.

A empresa afirma que esses combustíveis serão do tipo “drop-in”. Isso significa que podem ser incorporados às cadeias existentes seguindo as especificações aplicáveis, sem exigir uma substituição completa da infraestrutura atual.

Biorrefinaria terá capacidade de 1 bilhão de litros por ano

O coração industrial do projeto deverá ser construído na Bahia, em área ligada à Refinaria de Mataripe, no município de São Francisco do Conde.

A capacidade anunciada é de aproximadamente 1 bilhão de litros de combustíveis renováveis por ano.

A usina poderá ajustar a proporção entre SAF e HVO de acordo com demanda, preços e contratos comerciais.

O projeto também prevê outros produtos, como nafta renovável e bio-GLP.

Em maio de 2026, a companhia anunciou a estruturação de US$ 1,5 bilhão em financiamento destinado à construção da biorrefinaria.

Investimento inicial supera US$ 3 bilhões

O valor necessário para colocar toda a primeira estrutura em funcionamento é ainda maior.

A Acelen informa atualmente investimento superior a US$ 3 bilhões para a primeira unidade integrada, considerando a cadeia agrícola e industrial.

Documentos do Ministério de Minas e Energia também colocaram o projeto entre os grandes investimentos brasileiros em combustíveis sustentáveis, com valor aproximado de R$ 14,9 bilhões em uma estimativa publicada em 2026.

O cronograma também mudou ao longo do desenvolvimento. Planos antigos falavam em produção a partir de 2026, 2027 ou 2028.

As atualizações mais recentes da companhia apontam agora para 2029 como início esperado da operação da biorrefinaria.

A primeira produção não dependerá somente da macaúba

A macaúba é a grande aposta de longo prazo, mas as primeiras operações industriais não dependerão apenas dela.

Isso acontece porque uma palmeira precisa de anos para atingir plena produtividade.

Para garantir matéria-prima desde o início da fábrica, a Acelen também assinou contratos para receber óleo de soja certificado e óleo de cozinha usado.

Em julho de 2026, a companhia fechou um acordo de cinco anos com a Bunge para receber aproximadamente 300 mil toneladas de óleo de soja certificado por ano. O contrato soma 1,5 milhão de toneladas ao longo de cinco anos.

Óleo de cozinha usado também abastecerá a fábrica

Outro contrato foi firmado com a Trafigura.

O acordo prevê fornecimento de aproximadamente 470 mil toneladas anuais de óleo de cozinha usado, conhecido pela sigla UCO.

Segundo a Acelen, esse volume seria suficiente para produzir aproximadamente 459 milhões de litros de SAF por ano.

A Trafigura também deverá comprar parte do SAF, HVO e da nafta renovável fabricados na Bahia, com foco principalmente nos mercados da América do Norte e Europa.

Isso mostra que a fábrica está sendo preparada para utilizar diferentes matérias-primas enquanto a produção de macaúba cresce.

Macaúba pode reduzir emissões em até 80%, segundo a empresa

A aposta dos Emirados não ocorre apenas porque o fruto contém óleo.

A aviação enfrenta enorme pressão para diminuir suas emissões de carbono, mas aviões de grande porte ainda não possuem uma substituição elétrica simples para voos longos.

Por isso, o SAF é tratado como uma das principais ferramentas disponíveis para reduzir emissões sem abandonar imediatamente as aeronaves atuais.

A Acelen calcula que combustíveis produzidos a partir da macaúba poderão apresentar redução de até 80% nas emissões de CO₂ em comparação aos equivalentes fósseis, considerando a metodologia utilizada pela companhia.

Para a produção inicial feita com soja certificada, a redução estimada pela empresa é menor, em torno de 50%.

Plantações também podem retirar carbono da atmosfera

A estratégia considera ainda o carbono capturado pelas próprias palmeiras durante seu crescimento.

Em um plano anterior envolvendo aproximadamente 200 mil hectares, a Mubadala estimou potencial de captura de 60 milhões de toneladas de CO₂ ao longo de 20 anos.

Esse cálculo depende da área efetivamente implantada, do crescimento das plantas e da metodologia usada para medir o carbono.

Como o planejamento agrícola foi atualizado posteriormente para 144 mil hectares na primeira estrutura, os números de captura precisam ser lidos dentro do cenário em que foram originalmente calculados.

Ainda assim, a capacidade de cultivar uma espécie perene em áreas degradadas é uma das razões apresentadas pela empresa para apostar na macaúba.

O projeto pode crescer muito além da primeira fábrica

A ambição da Acelen não termina na unidade baiana.

A empresa afirma que sua estratégia de longo prazo prevê chegar a cinco unidades de produção, com investimentos totais que podem superar US$ 13,5 bilhões nas próximas décadas.

Em uma apresentação do Mubadala, a expansão para cinco grandes biorrefinarias foi associada a um potencial ainda maior de geração de trabalho no Brasil.

A primeira fábrica, porém, será decisiva. É nela que a empresa precisará provar que consegue produzir mudas, cultivar macaúba em grande escala, colher mecanicamente, extrair o óleo e transformá-lo em combustível de maneira economicamente competitiva.

Brasil possui milhões de hectares de pastagens degradadas

Existe espaço para a expansão sem necessidade de derrubar novas áreas justamente porque o país possui uma enorme quantidade de terras que já foram abertas e perderam produtividade.

A estratégia anunciada pela empresa é direcionar a cultura para esse tipo de área.

Isso pode criar uma nova atividade econômica em terrenos que hoje apresentam baixa capacidade de produção, desde que o manejo seja realizado corretamente e que as metas ambientais anunciadas sejam cumpridas.

O modelo ainda precisa provar sua viabilidade em escala industrial. Plantar algumas centenas de hectares é muito diferente de administrar mais de 100 mil hectares distribuídos por diferentes regiões.

O desafio será transformar uma planta nativa em uma commodity industrial

A macaúba possui uma vantagem evidente: ela já existe no Brasil.

O problema é que uma cadeia bilionária exige padronização. A indústria precisa saber quantos frutos cada hectare entregará, quando ocorrerá a colheita e quanto óleo poderá ser retirado todos os anos.

Também são necessárias máquinas para colher, viveiros capazes de gerar milhões de plantas e variedades com comportamento mais previsível.

É justamente por isso que a Acelen investe em genética, germinação, produção de mudas e mecanização antes de expandir rapidamente a área plantada.

A palmeira precisa deixar de ser apenas uma espécie nativa de grande potencial e se transformar em uma cultura agrícola reproduzível em grande escala.

Uma fruta pouco conhecida pode abastecer aviões internacionais

Se o plano funcionar como previsto, a viagem da macaúba será longa.

O fruto começará em áreas agrícolas da Bahia, Minas Gerais e outras regiões escolhidas pela companhia. Depois será colhido e processado para separar seus óleos.

O material seguirá para a biorrefinaria na Bahia, onde será transformado em moléculas compatíveis com combustíveis usados em aviação e transporte pesado.

Parte dessa produção poderá ficar no Brasil. Outra parte tem como alvo mercados como Estados Unidos, Canadá e Europa.

Assim, uma palmeira brasileira poderá terminar sua cadeia produtiva dentro do tanque de uma aeronave voando a milhares de quilômetros do lugar onde o fruto nasceu.

Os R$ 220 bilhões não são faturamento direto com a venda da fruta

O número precisa ser entendido corretamente.

Os R$ 220 bilhões divulgados em 2025 representam a conversão usada para uma estimativa de US$ 40 bilhões de impacto econômico calculada para a cadeia ao longo dos próximos anos.

Não significa que agricultores receberão R$ 220 bilhões vendendo macaúba ou que uma única empresa terá esse faturamento.

A projeção inclui efeitos econômicos provocados por toda a nova atividade: agricultura, indústria, infraestrutura, empregos, serviços e fornecedores.

Como a referência oficial continua sendo US$ 40 bilhões, o valor equivalente em reais muda conforme a cotação do dólar.

Dos Emirados para o interior do Brasil

A história chama atenção justamente pela distância entre as duas pontas.

De um lado está Abu Dhabi, capital de um dos países mais associados à riqueza produzida pelo petróleo. Do outro, áreas degradadas do interior brasileiro onde milhões de palmeiras poderão ser plantadas.

No meio aparece uma mudança importante na própria indústria da energia.

Um grupo dos Emirados Árabes está colocando bilhões de dólares em uma cadeia que pretende usar uma fruta brasileira para fabricar combustível renovável.

A primeira biorrefinaria terá capacidade de aproximadamente 1 bilhão de litros por ano. O cultivo inicial planejado chega a 144 mil hectares, e até 85 mil empregos podem ser gerados durante o desenvolvimento da cadeia.

Se os planos avançarem, aquela palmeira conhecida como macaúba, bocaiuva, macaíba ou coco-de-espinho deixará de ser apenas uma fruta regional.

Ela poderá se transformar em uma das matérias-primas brasileiras usadas na disputa global para reduzir o petróleo dentro dos tanques de aviões e caminhões.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

Sair da versão mobile