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A maior planta de dessalinização da América Latina começa a ser erguida na Praia do Futuro em setembro, e 226 famílias de quatro comunidades vão trocar de terreno sem sair do bairro, em 196 casas de R$ 176 mil cada

A maior planta de dessalinização da América Latina começa a ser erguida na Praia do Futuro em setembro, e 226 famílias de quatro comunidades vão trocar de terreno sem sair do bairro, em 196 casas de R$ 176 mil cada

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A maior planta de dessalinização da América Latina começa a ser erguida na Praia do Futuro em setembro, e 226 famílias de quatro comunidades vão trocar de terreno sem sair do bairro, em 196 casas de R$ 176 mil cada

Escrito por Douglas Avila

Publicado em 02/09/2026 às 14:53

Atualizado em 01/09/2026 às 23:13

Construção

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A obra que vai tirar sal da água do mar para abastecer Fortaleza começa em setembro, e a poucos metros do canteiro moram 226 famílias que sabem há meses que vão precisar sair, com uma diferença importante em relação ao que costuma acontecer nesses casos: elas não vão embora do bairro.

O projeto é a Dessal, descrita como a maior planta de dessalinização da América Latina. Ela será erguida na Praia do Futuro, em Fortaleza.

Segundo reportagem especial de O Povo publicada em 31 de agosto, as obras da usina estão previstas para setembro de 2026. É esse calendário que empurra a discussão sobre moradia para o primeiro plano.

Quem mora ali e o que muda

São 226 famílias, distribuídas em quatro comunidades: Norte-Sul, Vista para o Mar, Deus é Fiel e da Benção. Desse total, 29 famílias já foram removidas e indenizadas.

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A saída negociada para as demais não é a remoção clássica, aquela em que a família sai da orla e reaparece num conjunto a vinte quilômetros dali. A prefeitura trabalha com uma permuta: troca um terreno próprio por um lote plano situado a cerca de 500 metros das residências atuais.

Quinhentos metros é a medida que decide tudo nessa história. Significa manter escola, ponto de ônibus, cliente, freguês e vizinho. Para quem vive de trabalho ligado à praia, mudar de bairro costuma custar a renda junto com o endereço.

O projeto habitacional prevê 196 moradias, com custo estimado de R$ 176 mil por unidade. Conforme a reportagem, esse número cobre hoje cerca de 90% da demanda mapeada.

O morador que sabe que tem terreno, mas não sabe onde fica

Há um detalhe na reportagem que diz mais sobre o Brasil do que qualquer número. Ricardo Braz, de 45 anos, morador da comunidade Vista para o Mar, contou como a negociação chegou até ali.

“No começo apresentaram vários terrenos. Um deu certo e está garantido, mas não sabemos onde fica por precaução, para evitar ‘invasões’”, disse ele.

Ou seja, o endereço do futuro conjunto está sendo mantido em sigilo dos próprios beneficiários, por receio de que a área seja ocupada antes de a obra começar. É uma precaução que só faz sentido num país onde terreno vazio com destino público conhecido vira disputa em questão de dias.

O calendário que ninguém controla sozinho

A sequência das etapas mostra onde estão os riscos. A assinatura do contrato com a Caixa está prevista para o período entre o fim de novembro e o início de dezembro. A construção do residencial tem prazo de 24 meses, com negociação em curso para reduzi-lo a 18.

Faça a conta e o desconforto aparece. A usina começa em setembro; as casas ficam prontas, na melhor hipótese, cerca de um ano e meio depois da assinatura do financiamento. Existe, portanto, uma janela em que a obra industrial já estará rodando e a solução habitacional ainda não.

Vale dizer que a permuta em si é o ponto mais interessante do arranjo. Em vez de indenizar e mandar a família se virar no mercado, o poder público entrega terreno por terreno e constrói em cima. Isso resolve o problema que a indenização quase nunca resolve, que é o preço do metro quadrado no bairro onde a pessoa já mora ser maior do que o valor que ela recebe para sair dele.

Dá pra entender por que os 29 que já saíram com indenização não são exatamente o modelo que o restante quer seguir. Quem fica até o fim da negociação tende a sair melhor, e quem aceita cedo costuma sair mais rápido. É uma escolha desconfortável de fazer com a obra marcada para começar.

É exatamente nesse intervalo que projetos assim costumam azedar. Não pela intenção do desenho, que aqui até parece cuidadoso, mas porque cronograma de obra pública e cronograma de vida de família não correm no mesmo ritmo.

Por que uma usina dessas está sendo construída

Vale entender o outro lado da equação. Dessalinização é caro e consome energia, e por muito tempo foi tratada no Brasil como solução de país sem rio. O Ceará mudou essa conta pela via mais dura: sequência de anos de reservatório baixo e dependência de transposição.

Uma planta de grande porte na costa oferece algo que açude nenhum oferece, que é volume previsível independente de chuva. O mar não seca. O preço disso é energia e manutenção, e a discussão técnica gira em torno de quanto custa cada metro cúbico produzido assim comparado ao sistema convencional.

Olhando assim, é o mesmo tipo de decisão de infraestrutura pesada que aparece em outras frentes do país, como o túnel que está sendo escavado para vencer uma serra que trava a ligação de um porto com o interior. Muda o recurso em disputa, permanece a lógica: gasta-se muito hoje para não depender de sorte depois.

A diferença é que uma serra não tem morador. Aqui tem, e são 226 famílias com nome, endereço e rotina, das quais 29 já saíram. A reportagem completa sobre o andamento do projeto habitacional foi publicada por O Povo.

Fico com a imagem que o Ricardo descreveu. Um homem de 45 anos que já sabe que vai se mudar, já sabe que o terreno está garantido, e ainda assim não pode saber para onde vai, porque contar em voz alta pode fazer o lote desaparecer. É uma forma bem brasileira de ter uma boa notícia.

Obra grande que remove morador deveria ser obrigada a realocar todo mundo dentro do mesmo bairro?

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Fonte

O Povo


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

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