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A pedido do governo Trump, 15 países anunciam medidas contra 24 grupos ligados ao narcotráfico e incluem PCC e Comando Vermelho entre os alvos
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 22/09/2026 às 22:30
Atualizado em 22/09/2026 às 23:00
Geopolítica
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O acordo do Escudo das Américas foi assinado no mesmo dia em que Trump discursou na ONU. O Brasil não integra a coalizão e rejeita a classificação das facções como terroristas.
Os 15 países do Escudo das Américas assinaram em 22 de setembro de 2026 um documento que designa facções do narcotráfico como “ameaças compartilhadas” e as transforma em alvo de sanções coordenadas. O PCC e o Comando Vermelho estão entre as 24 organizações listadas, segundo o g1.
A iniciativa partiu do governo de Donald Trump e foi divulgada pelo Departamento de Estado americano. O texto apresenta a medida como a primeira ação conjunta da coalizão, num dia em que o combate aos cartéis também dominou o discurso do presidente americano na Assembleia Geral da ONU.
Quinze países assinaram o documento
Assinam o texto todos os membros plenos da coalizão: Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
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O Brasil não faz parte do grupo. Vizinhos diretos, como Argentina, Bolívia e Peru, estão entre os signatários, o que coloca o país cercado por governos que agora tratam as facções brasileiras como organizações narcoterroristas.
O que os governos se comprometeram a fazer
video: G1
O documento afirma que os países declaram a intenção de aplicar, conforme a legislação de cada um e suas obrigações internacionais, três tipos de medida: congelamento de ativos, restrições de imigração e de visto para membros, associados e apoiadores das organizações, e responsabilização criminal de quem, sabendo do que faz, forneça apoio material aos grupos, incluindo apoio logístico.
O texto ressalva que a ação vale “independentemente da denominação que recebam em cada um de nossos países”. Ou seja, cada Estado aplica o que sua lei permite, mesmo que não use o rótulo de terrorismo.
Coalizão vai acionar um tratado de 1947
Para viabilizar a medida no plano regional, o documento diz que os países acionarão um mecanismo de reciprocidade no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA). Trata-se do Órgão de Consulta previsto nos artigos 6 e 13 do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, conhecido como Tratado do Rio.
Esse tratado, assinado em 1947, prevê consulta entre os países americanos diante de agressões ou de situações que ameacem a paz do continente. É um instrumento pensado para a Guerra Fria, agora invocado contra organizações criminosas.
Lista reúne cartéis mexicanos, gangues e guerrilhas
As 24 organizações listadas incluem os cartéis mexicanos Sinaloa, Jalisco Nova Geração (CJNG), do Golfo, do Nordeste, de Juárez, Nueva Familia Michoacana, Carteles Unidos e Los Viagras.
Também aparecem o venezuelano Tren de Aragua e o Cartel de los Soles, as gangues centro-americanas MS-13 e Barrio 18, o colombiano Clã do Golfo, os equatorianos Los Lobos, Los Choneros, Los Tiguerones e Chone Killers, os haitianos Viv Ansanm e Gran Grif, além das dissidências das Farc, do ELN e do Sendero Luminoso.
PCC e CV entram na mesma lista de guerrilhas e cartéis
A presença das duas facções brasileiras coloca PCC e Comando Vermelho no mesmo pacote de grupos com atuação armada em vários países, como cartéis mexicanos e guerrilhas colombianas.
É essa equivalência que o governo brasileiro contesta desde que Washington passou a tratar as facções como organizações terroristas, discussão que já tem mais de um ano.
Estados Unidos já haviam feito a designação em maio
Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado designou Comando Vermelho e PCC como “terroristas globais especialmente designados”, e a classificação como organizações terroristas estrangeiras passou a valer em 5 de junho de 2026.
O anúncio foi assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, que descreveu os dois grupos como duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil.
Governo brasileiro rejeita o rótulo de terrorismo
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva discorda da denominação. Na avaliação do Planalto, a decisão americana pode representar retrocesso no combate ao crime organizado, além de riscos à vida de pessoas e prejuízos econômicos ao país.
O governo afirmou que não aceitaria o uso de medidas arbitrárias vindas do exterior como pretexto para atacar a soberania e a economia brasileiras. O ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski apontou consequências econômicas e jurídicas, incluindo desgaste da imagem do país entre investidores estrangeiros e aumento de custos para empresas que operam no mercado brasileiro.
Lei brasileira exige motivação ideológica para haver terrorismo
A divergência tem base legal. Na legislação brasileira, terrorismo é definido pela prática de atos violentos “por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio ou a paz pública”.
Em maio do ano passado, questionado por uma comitiva americana numa reunião no Ministério da Justiça, o então secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sabburro, explicou a diferença. “Estas organizações criminosas [brasileiras] não têm qualquer viés ideológico, não têm qualquer viés político, religioso, não querem mudar o sistema. Muito pelo contrário, elas pretendem a prática de infrações penais, lavagem de dinheiro”, afirmou.
Trump comparou os cartéis ao Estado Islâmico
Horas antes da divulgação do acordo, Trump discursou na Assembleia Geral da ONU e tratou do mesmo tema. “Lançamos o poder das Forças Armadas dos EUA para eliminar gangues e cartéis de drogas sangrentos”, disse.
Ele foi além na comparação e no tipo de resposta que defende: “Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental. São inimigos em guerra contra a civilização, usando assassinato, estupro, tortura e extorsão como instrumentos de terror, e por isso eles devem ser mortos, exilados ou detidos”.
Presidente americano fala em acabar com “interferência externa”
No mesmo discurso, Trump prometeu extinguir o que chamou de interferência externa no Hemisfério Ocidental e afirmou que pode usar o poderio militar americano para isso.
A fala se encaixa na chamada “Doutrina Donroe”, trocadilho que mistura Donald com Monroe. A referência é à Doutrina Monroe, do século 19, que buscava manter as Américas como área de influência dos Estados Unidos, sem aprofundamento de relações com outras potências. Integrantes do governo americano costumam se referir ao continente como “nosso quintal”.
Lula falou pouco antes e respondeu à ideia de quintal
Lula discursou no mesmo plenário momentos antes de Trump. Ele defendeu o multilateralismo, a soberania dos países e o princípio da não interferência em assuntos internos.
A resposta mais direta veio em uma frase: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse o presidente brasileiro.
Coalizão teve uma única cúpula, em março
O Escudo das Américas foi criado pelo governo Trump com países americanos alinhados a ele e realizou até aqui uma única reunião de cúpula, em março de 2026. Lula não foi convidado.
Analistas veem a iniciativa como uma tentativa de afastar a América Latina da esfera de influência da China. O documento assinado em 22 de setembro é a primeira ação prática do grupo, e a aplicação das sanções agora depende do que cada país fizer dentro da própria legislação.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

