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A quase 2.900 km sob nossos pés, cientistas encontram minerais capazes de esconder enormes quantidades de água justamente onde o manto da Terra encontra o núcleo
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 16/09/2026 às 19:18
Atualizado em 16/09/2026 às 19:19
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Novo estudo publicado na Nature Geoscience revela dois minerais nunca descritos que conseguem aprisionar hidrogênio sob pressões extremas e levanta a possibilidade de um reservatório profundo de água perto do núcleo, mas não existe um oceano líquido escondido sob nossos pés
A Terra pode guardar uma quantidade enorme de água em um lugar onde ninguém conseguiria chegar diretamente: próximo à fronteira entre o manto e o núcleo, a quase 2.900 quilômetros abaixo da superfície. Segundo reportagem publicada nesta quarta-feira, 16 de setembro, pelo Olhar Digital, um novo estudo identificou minerais capazes de armazenar água nas condições extremas das regiões mais profundas do planeta. A descoberta, publicada em 8 de setembro na Nature Geoscience, surgiu depois que cientistas recriaram em laboratório pressões e temperaturas semelhantes às encontradas no manto inferior.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre a descoberta e a imagem que a expressão “oceano subterrâneo” provoca.
Os pesquisadores não encontraram uma gigantesca cavidade cheia de água líquida perto do núcleo da Terra.
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Na realidade, eles descobriram dois novos oxi-hidróxidos de ferro, identificados como Fe₅O₁₂Hₓ e Fe₇O₁₂Hₓ, capazes de incorporar hidrogênio em suas estruturas cristalinas mesmo sob condições nas quais existe pouquíssima água disponível.
Portanto, se esses minerais realmente estiverem presentes em grandes quantidades no interior do planeta, a água estaria presa dentro das próprias rochas, e não formando mares semelhantes aos que existem na superfície.
Ainda assim, a descoberta pode ajudar a responder uma pergunta que acompanha a geologia há décadas: para onde foi parte da água que entrou no interior da Terra durante bilhões de anos de evolução do planeta?
Para procurar água onde nenhuma máquina consegue chegar, pesquisadores colocaram amostras entre duas pontas de diamante e recriaram em laboratório um ambiente capaz de esmagar praticamente qualquer material
Chegar fisicamente às profundezas investigadas pelo estudo está muito além da tecnologia atual.
Por isso, a equipe precisou trazer as condições do interior da Terra para dentro do laboratório.
Os pesquisadores utilizaram células de bigorna de diamante aquecidas por laser. O equipamento comprime amostras minúsculas entre duas pontas de diamante enquanto lasers elevam drasticamente sua temperatura.
Assim, os cientistas conseguem reproduzir condições que lembram aquelas encontradas a milhares de quilômetros de profundidade.
Durante os experimentos, aconteceu algo que chamou atenção.
A equipe conseguiu sintetizar duas fases hexagonais de oxi-hidróxido de ferro que ainda não haviam sido descritas, Fe₅O₁₂Hₓ e Fe₇O₁₂Hₓ.
Mais importante ainda, esses minerais permaneceram capazes de incorporar hidrogênio em condições relevantes para as regiões mais profundas do manto.
Isso muda parte da discussão sobre o chamado ciclo profundo da água.
A água que conhecemos na superfície participa de chuva, rios, oceanos e evaporação. Porém, existe também um ciclo muito mais lento, no qual materiais da crosta podem carregar componentes ricos em hidrogênio para o interior por meio da dinâmica geológica.
Ao longo de milhões ou bilhões de anos, parte desse material pode alcançar profundidades enormes.
E entender onde esse hidrogênio consegue permanecer armazenado virou uma das grandes perguntas da pesquisa.
O mais surpreendente aconteceu quando os cientistas reduziram drasticamente a água disponível e perceberam que os novos minerais continuavam surgindo mesmo em condições quase secas
Para que a descoberta tivesse importância geológica, os minerais não poderiam depender de um ambiente extremamente rico em água.
Afinal, o manto inferior é dominado por minerais que os cientistas consideram relativamente secos.
Por isso, a equipe realizou experimentos sob condições subsaturadas em água.
Ainda assim, as novas fases conseguiram se formar.
Esse resultado chamou atenção porque sugere que pequenas quantidades de hidrogênio podem ser suficientes para estabilizar esses minerais em determinadas condições.
Consequentemente, eles poderiam funcionar como reservatórios mesmo em regiões onde a concentração total de água parece muito pequena.
E aqui aparece uma das grandes armadilhas dessa história.
Uma concentração minúscula pode parecer irrelevante quando observamos alguns gramas de rocha.
Porém, o manto terrestre possui uma quantidade colossal de material.
Assim, pequenas concentrações distribuídas por volumes gigantescos podem representar uma quantidade enorme de água em escala planetária.
Essa lógica também mostra como avanços em materiais e experimentos extremos permitem investigar ambientes que jamais poderiam ser acessados diretamente. Em diferentes áreas, compreender como substâncias se comportam sob condições incomuns também ajuda cientistas a explicar processos que permaneciam invisíveis.
Esses minerais possuem outra característica decisiva porque são densos o suficiente para afundar e podem acabar justamente na fronteira misteriosa onde o manto sólido encontra o núcleo externo líquido
Encontrar um mineral capaz de armazenar hidrogênio seria interessante.
Porém, os pesquisadores descobriram outra propriedade importante.
As novas fases possuem densidade elevada.
Isso significa que elas podem apresentar tendência ao assentamento gravitacional nas regiões profundas do planeta.
Em outras palavras, em vez de permanecerem necessariamente espalhadas pelo manto, esses materiais poderiam migrar para baixo e se concentrar perto da fronteira núcleo-manto.
Essa região fica aproximadamente 2.900 quilômetros abaixo da superfície.
Acima dela está o manto rochoso.
Abaixo começa o núcleo externo líquido.
E justamente nessa fronteira os cientistas observam algumas estruturas extremamente estranhas.
São as chamadas zonas de velocidade ultrabaixa, conhecidas pela sigla ULVZ.
Quando ondas sísmicas atravessam essas regiões, elas desaceleram muito mais do que os modelos convencionais esperariam.
Há anos, geólogos tentam descobrir exatamente quais materiais produzem esse comportamento.
Agora, os novos oxi-hidróxidos entram na lista de candidatos.
Ondas de terremotos já revelavam regiões estranhas perto do núcleo e os novos minerais podem finalmente oferecer uma explicação para parte dessas estruturas escondidas a milhares de quilômetros de profundidade
Não existe uma câmera capaz de fotografar a fronteira entre núcleo e manto.
Por isso, grande parte daquilo que sabemos sobre o interior terrestre vem de ondas sísmicas.
Quando um terremoto acontece, essas ondas atravessam diferentes regiões do planeta.
Sua velocidade e trajetória mudam dependendo do material encontrado.
Consequentemente, cientistas conseguem utilizar terremotos quase como uma gigantesca tomografia da Terra.
Foi assim que apareceram as ULVZs.
Nessas pequenas regiões próximas à fronteira núcleo-manto, determinadas ondas sísmicas viajam muito mais lentamente.
Porém, identificar uma anomalia não significa automaticamente conhecer sua composição.
Os autores do novo estudo propõem que os oxi-hidróxidos de ferro densos podem fornecer uma explicação mineralógica plausível para pelo menos parte dessas zonas.
Isso não significa que os pesquisadores tenham comprovado que todas as ULVZs são feitas desses minerais.
A hipótese ainda precisa enfrentar outras evidências.
Entretanto, ela conecta duas peças que antes permaneciam separadas.
De um lado, existem regiões sísmicas estranhas perto do núcleo.
Do outro, agora existem minerais experimentalmente produzidos que podem permanecer estáveis em condições profundas, armazenar hidrogênio e apresentar alta densidade.
O “oceano” escondido muda completamente de aparência quando chegamos à ciência porque não haveria peixes, cavernas ou água corrente, mas hidrogênio aprisionado dentro de cristais submetidos a pressões inimagináveis
Essa distinção precisa ficar clara.
Falar em oceano subterrâneo é uma maneira extremamente atraente de apresentar a escala potencial do reservatório.
Porém, imaginar uma camada azul de água líquida sob o manto seria incorreto.
O próprio estudo trata esses materiais como possíveis reservatórios de água em condições profundas, dentro de estruturas minerais.
Portanto, estamos falando de água em uma forma mineralógica.
Ainda assim, isso não reduz a importância da descoberta.
Pelo contrário.
Se grandes volumes do manto conseguirem armazenar pequenas quantidades de hidrogênio, o interior terrestre pode participar do ciclo da água em uma escala muito maior do que aquilo que observamos na superfície.
Além disso, esse processo acontece durante períodos geológicos gigantescos.
Material pode descer.
Pode armazenar hidrogênio.
Pode permanecer nas profundezas.
Depois, movimentos internos podem transportá-lo novamente para regiões superiores.
Assim, o planeta pode funcionar como um sistema no qual superfície e interior trocam componentes durante bilhões de anos.
A descoberta também pode explicar como a Terra conseguiu carregar água para regiões tão profundas quando muitos dos minerais mais comuns do manto inferior praticamente não conseguem armazená-la
Esse era um problema importante.
O manto inferior se estende aproximadamente de 660 a 2.900 quilômetros de profundidade.
Alguns de seus minerais mais abundantes, como bridgmanita e ferropericlásio, são considerados relativamente secos nas condições atuais.
Consequentemente, existia uma pergunta difícil.
Qual mineral conseguiria transportar quantidades relevantes de hidrogênio até as regiões mais profundas?
Os novos oxi-hidróxidos oferecem uma possibilidade.
Segundo o artigo da Nature Geoscience, eles podem armazenar tanto água primordial, associada às primeiras fases da evolução terrestre, quanto água posteriormente reciclada para o interior.
Além disso, sua densidade poderia ajudá-los a alcançar regiões próximas ao núcleo.
Isso cria uma espécie de mecanismo de transporte.
A água não precisaria atravessar milhares de quilômetros como líquido.
Em vez disso, o hidrogênio viajaria incorporado aos minerais.
A dinâmica lembra um sistema de armazenamento extremamente lento, operando em escalas impossíveis de perceber durante uma vida humana.
Ao mesmo tempo, entender como materiais armazenam e liberam componentes tornou-se fundamental em diferentes tecnologias modernas, inclusive no desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia, nos quais estabilidade e capacidade de retenção também determinam o desempenho de grandes estruturas.
Parte dessa água pode ter acompanhado a Terra desde sua formação enquanto outra parcela pode ter descido da superfície durante bilhões de anos de reciclagem das placas
A origem da água terrestre continua sendo uma questão complexa.
Parte pode ter integrado os materiais que formaram o planeta.
Além disso, diferentes processos posteriores contribuíram para redistribuí-la.
O novo trabalho adiciona outra peça a essa história.
Os pesquisadores afirmam que esses minerais poderiam armazenar componentes primordiais e reciclados.
A segunda possibilidade está ligada à dinâmica tectônica.
Em regiões de subducção, uma placa mergulha sob outra e transporta materiais da superfície para o interior.
Minerais hidratados podem carregar hidrogênio junto.
Porém, conforme pressão e temperatura aumentam, muitos deles se tornam instáveis e liberam seus componentes.
A grande pergunta é até onde parte desse hidrogênio consegue chegar.
Se os novos oxi-hidróxidos conseguirem capturá-lo em profundidades maiores, eles podem representar uma das etapas finais dessa viagem em direção ao núcleo.
Consequentemente, oceanos e interior terrestre talvez estejam conectados por um ciclo muito mais profundo do que a paisagem da superfície permite imaginar.
A água aprisionada perto do núcleo pode não permanecer ali para sempre porque movimentos lentíssimos do manto poderiam transportá-la novamente para cima e devolvê-la ao ciclo geológico
O interior da Terra não permanece parado.
Embora o manto seja predominantemente sólido, ele consegue deformar e circular lentamente durante períodos geológicos.
Esse movimento forma parte essencial da dinâmica planetária.
Portanto, um reservatório profundo não precisa funcionar como um cofre permanentemente fechado.
Os pesquisadores sugerem que os novos minerais podem participar tanto do transporte de voláteis em direção ao núcleo quanto de liberações episódicas associadas a plumas do manto.
Essas plumas representam movimentos ascendentes de material quente provenientes das profundezas.
Se materiais ricos em hidrogênio entrarem nesse fluxo, parte do conteúdo armazenado poderia retornar a regiões superiores.
Assim, água que passou milhões ou bilhões de anos presa em minerais profundos poderia voltar a participar de outros processos geológicos.
Esse tipo de circulação mostra como a Terra funciona muito menos como uma coleção de camadas completamente isoladas e muito mais como um sistema dinâmico.
Inclusive, nossa compreensão desses processos depende cada vez mais de tecnologias capazes de reproduzir condições extremas e medir materiais em escalas microscópicas.
Existe uma diferença enorme entre criar esses minerais dentro de um laboratório e provar que bilhões de toneladas deles realmente estão escondidas perto do núcleo da Terra
Aqui entra a principal cautela da pesquisa.
Os cientistas produziram os novos minerais experimentalmente e demonstraram que eles podem existir sob condições relevantes para o manto inferior.
Isso não significa que tenham retirado uma amostra da fronteira núcleo-manto.
Também não significa que já saibamos quanto desses minerais existe dentro da Terra.
E, principalmente, o estudo não mediu diretamente um oceano subterrâneo.
A equipe demonstrou um mecanismo mineralógico capaz de armazenar água em grandes profundidades.
Portanto, a descoberta abre uma possibilidade, não uma fotografia definitiva do interior terrestre.
Os próximos trabalhos precisarão combinar experimentos de alta pressão, modelos geofísicos e observações sísmicas para descobrir se as propriedades desses minerais correspondem àquilo que realmente aparece nas regiões profundas.
Esse cuidado importa porque a escala potencial pode ser gigantesca.
Uma pequena diferença na quantidade desses minerais espalhados pelo manto produziria uma enorme diferença na estimativa total de água armazenada.
Depois de séculos olhando para os oceanos como o grande reservatório de água do planeta, cientistas começam a descobrir que uma parte importante dessa história pode estar escondida dentro das próprias rochas
A superfície da Terra entrega uma impressão poderosa.
Oceanos cobrem aproximadamente 71% do planeta.
Por isso, parece intuitivo imaginar que praticamente toda a água importante esteja diante dos nossos olhos.
Entretanto, a geologia profunda conta uma história diferente.
Água e hidrogênio conseguem entrar em estruturas minerais.
Esses materiais podem descer.
Podem permanecer armazenados.
E podem eventualmente voltar a subir.
Agora, os dois novos oxi-hidróxidos ampliam as possibilidades desse ciclo.
Eles conseguem surgir sob condições extremas.
Podem armazenar hidrogênio mesmo quando a disponibilidade de água é pequena.
Além disso, apresentam densidade suficiente para tornar plausível sua concentração nas regiões mais profundas do manto.
Ainda existe muito para descobrir.
Porém, a pesquisa muda a maneira de imaginar aquilo que pode estar sob nossos pés.
Não existe evidência de um mar gigantesco onde alguém poderia mergulhar a 2.900 quilômetros de profundidade.
Existe algo cientificamente mais interessante.
A possibilidade de que quantidades enormes de água estejam escondidas dentro da estrutura de minerais que permanecem comprimidos entre o manto e o núcleo há períodos geológicos inimagináveis.
E você, quando ouve que a Terra pode esconder um “oceano” em seu interior, imaginava uma massa de água líquida ou sabia que quantidades gigantescas poderiam ficar aprisionadas dentro das próprias rochas?
Fonte
Olhar Digital
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

