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Adolescente abandona a escola durante uma fome no Malawi, encontra um livro em inglês na biblioteca e usa bicicleta, canos e peças descartadas para construir o moinho que levou eletricidade e água à própria comunidade
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 20/09/2026 às 18:44
Atualizado em 20/09/2026 às 18:45
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Aos 14 anos, William Kamkwamba deixou a escola porque sua família não conseguia pagar os estudos, mas continuou aprendendo sozinho e transformou peças retiradas do lixo em uma solução para gerar eletricidade e ampliar o acesso à água limpa.
Aos 14 anos, William Kamkwamba viu a fome atingir sua família e precisou abandonar a escola porque seus pais não tinham dinheiro para pagar as mensalidades. Morador de uma comunidade rural do Malawi, no sudeste da África, o adolescente poderia ter deixado os estudos definitivamente.
Em vez disso, William começou a frequentar uma pequena biblioteca e tentou acompanhar sozinho o conteúdo estudado pelos antigos colegas. Foi entre aquelas estantes que encontrou um livro em inglês sobre energia, viu a imagem de um moinho de vento e decidiu construir sua própria máquina.
Sem equipamentos adequados, ele recolheu peças de bicicleta, canos de PVC, madeira, componentes de carros e outros materiais descartados. O primeiro moinho levou eletricidade à casa da família e abriu caminho para projetos que ajudaram a fornecer água limpa e apoiar as plantações da comunidade.
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Fome deixou a família com apenas uma refeição por dia
William cresceu em uma propriedade rural de Masitala, no Malawi, onde sua família cultivava milho e tabaco. A agricultura dependia diretamente das chuvas, e qualquer alteração no clima poderia comprometer toda a produção.
No início dos anos 2000, uma grave crise alimentar atingiu o país. Os estoques de comida diminuíram rapidamente, e a família Kamkwamba passou a fazer somente uma refeição por dia.
De acordo com uma reportagem da Wired, William chegou a calcular que cada pessoa recebia apenas alguns bocados de comida. Quando as distribuições governamentais também diminuíram, a situação ficou ainda mais difícil.
A seca e a fome atingiram vizinhos, amigos e agricultores que dependiam das plantações para sobreviver. Mesmo depois que a crise começou a perder força, os efeitos econômicos permaneceram dentro da casa de William.
Falta de dinheiro obrigou o adolescente a deixar a escola
Quando as aulas recomeçaram, a família não conseguiu pagar a mensalidade escolar. William precisou abandonar os estudos aos 14 anos, apesar do interesse por ciência e tecnologia.
Antes disso, ele costumava desmontar rádios quebrados com o primo Geoffrey para tentar entender o funcionamento dos aparelhos. Como não possuíam um ferro de solda, os dois aqueciam pedaços de arame no fogo usado pela família.
A curiosidade, portanto, já fazia parte da rotina do adolescente. O afastamento da escola não eliminou sua vontade de aprender, apenas tornou o caminho muito mais difícil.
Para acompanhar o conteúdo estudado pelos amigos, William começou a visitar uma biblioteca rural. Inicialmente, procurava livros relacionados ao currículo escolar. Depois, passou a se interessar especialmente pelas obras de física e energia.
Livro em inglês apresentou uma possível saída para a escuridão e a fome
Entre os exemplares encontrados na biblioteca estavam Explaining Physics e Using Energy. Na capa de um deles, William viu uma fileira de grandes moinhos de vento e começou a tentar compreender como aquelas máquinas funcionavam.
O material estava escrito em inglês, idioma no qual ele ainda tinha dificuldades. William precisou consultar palavras, interpretar ilustrações e relacionar os desenhos às poucas informações técnicas que conseguia compreender.
Apesar da barreira linguística, uma ideia ficou clara: a força do vento poderia ser transformada em eletricidade e também usada para ajudar no bombeamento de água.
Para uma família que vivia sem acesso à rede elétrica e dependia das chuvas para plantar, o moinho representava mais do que uma experiência científica. Ele poderia iluminar a casa, substituir o querosene e permitir que William continuasse lendo depois do anoitecer.
A água bombeada também poderia reduzir a dependência do clima, manter uma horta e permitir mais de uma colheita por ano. Nas palavras posteriormente recordadas por William, o moinho significava não apenas energia, mas liberdade.
Primeiro protótipo foi construído com objetos descartados
William decidiu testar a ideia em pequena escala. Para construir o protótipo, utilizou o motor retirado de um aparelho de fita cassete, partes de um sapato velho e outros materiais disponíveis.
Sem alicate, improvisou a ferramenta com raios de bicicleta. Um dos raios foi achatado para funcionar como chave de fenda. Depois de alguns dias de trabalho, o pequeno modelo começou a girar e demonstrou que o projeto poderia funcionar.
A etapa seguinte era muito mais ambiciosa: construir um moinho grande o suficiente para produzir eletricidade de verdade.
Durante aproximadamente três meses, William percorreu depósitos e áreas de descarte em busca de componentes. Recolheu peças enferrujadas de carros e bicicletas, canos de PVC, madeira e partes de máquinas abandonadas.
Segundo outra reportagem da Wired, as pás foram produzidas com canos de PVC cortados e aquecidos sobre brasas. Tampinhas de garrafas chegaram a ser usadas no lugar de arruelas.
Moradores desconfiavam do “garoto maluco do ferro-velho”
Enquanto William carregava objetos encontrados no lixo, alguns moradores não compreendiam o que ele pretendia construir. O adolescente passou a ser chamado de louco e enfrentou comentários de pessoas que consideravam impossível produzir eletricidade daquela maneira.
Além da falta de ferramentas, ele também precisava conseguir componentes específicos. William realizou pequenos trabalhos para juntar dinheiro e pagar pela soldagem de algumas peças.
O dínamo de 12 volts, essencial para o funcionamento do moinho, foi comprado de um ciclista que passava pela região. Gilbert, melhor amigo de William, ajudou a pagar o componente e participou da construção ao lado de Geoffrey.
O sistema foi montado com pás ligadas ao eixo traseiro de uma bicicleta. Quando o vento movimentava as pás, a corrente fazia a roda girar e acionava o dínamo responsável por produzir a corrente elétrica.
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Caio Aviz
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Lâmpada acesa surpreendeu a comunidade
William e seus ajudantes construíram uma torre de madeira e usaram o varal de sua mãe como substituto para uma corda e uma roldana. Quando a estrutura começou a aparecer acima das casas, moradores se aproximaram para descobrir o que estava sendo levantado.
Como não existia uma palavra específica para moinho de vento em chichewa, William chamou a máquina de “magetsi a mphepo”, expressão traduzida como “vento elétrico”.
Quando as pás começaram a girar, uma pequena lâmpada conectada ao sistema piscou e finalmente acendeu diante da multidão. A experiência transformou em eletricidade as peças que muitos moradores enxergavam apenas como sucata.
O primeiro moinho tinha cerca de 4,5 metros de altura e produzia energia suficiente para alimentar uma bateria de 12 volts. Posteriormente, William substituiu a estrutura por uma torre mais resistente, com aproximadamente 12 metros.
Eletricidade chegou à casa e permitiu carregar celulares
Inicialmente, William queria apenas acender uma lâmpada no quarto para continuar lendo depois do pôr do sol. Com o aperfeiçoamento do moinho, porém, a família passou a utilizar várias lâmpadas, rádio e televisão.
O sistema também permitiu carregar telefones celulares de moradores da comunidade. William criou tomadas e interruptores improvisados com fios de cobre, partes de rádio, borracha de chinelo e pedaços achatados de PVC.
A eletricidade reduziu a necessidade de queimar querosene dentro da residência. Além da economia, a mudança diminuiu a exposição da família à fumaça produzida pelo combustível.
William continuava consultando livros de física enquanto realizava ajustes no moinho. Cada melhoria era feita com os materiais disponíveis e com o conhecimento adquirido de maneira autodidata.
Reconhecimento permitiu perfurar poço e instalar bombas de água
A história começou a se espalhar quando autoridades educacionais e jornalistas visitaram a comunidade. Uma reportagem publicada no Malawi chamou a atenção de blogueiros e, posteriormente, dos organizadores da conferência TEDGlobal.
Em 2007, William foi convidado para apresentar sua criação em um evento na Tanzânia. A repercussão trouxe apoio financeiro para sua educação e permitiu que novos projetos fossem implantados em Masitala.
Com as doações, foi possível perfurar um poço profundo, instalar bombas de água, implantar irrigação por gotejamento e colocar painéis solares em algumas residências.
O acesso à água ajudou a família a ampliar a produção agrícola. O tabaco deixou de ser a principal cultura, enquanto milho, feijão, soja, batata e amendoim passaram a integrar as plantações.
A irrigação possibilitou cultivar alimentos por períodos maiores e reduziu a dependência exclusiva das chuvas, justamente uma das dificuldades que William havia identificado ao observar o moinho no livro.
Projeto mudou a agricultura e a maneira como os moradores enxergavam a ciência
A transformação não ficou limitada à casa dos Kamkwamba. A comunidade passou a ter acesso a água mais limpa, e moradores deixaram de gastar parte do dia percorrendo longas distâncias para buscá-la.
O moinho também despertou o interesse de outras crianças por ciência. O adolescente que antes era ridicularizado por recolher materiais no ferro-velho tornou-se uma referência de criatividade e perseverança.
William conseguiu voltar a estudar e passou a defender o uso da tecnologia para que comunidades africanas desenvolvessem soluções próprias para problemas relacionados à energia, à água e à produção de alimentos.
A história mostra como um livro, uma biblioteca e materiais considerados inúteis foram suficientes para iniciar uma transformação que alcançou uma família inteira e depois se espalhou pela comunidade.
E você, acredita que escolas e bibliotecas podem ajudar outros jovens a criar soluções capazes de transformar suas próprias comunidades?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

