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Agricultores colocam carpas dentro dos arrozais e transformam os peixes em “caçadores” de pragas: um único animal pode comer até 1.000 caramujos jovens por dia e sistema reduz pesticidas em 68%

Agricultores colocam carpas dentro dos arrozais e transformam os peixes em “caçadores” de pragas: um único animal pode comer até 1.000 caramujos jovens por dia e sistema reduz pesticidas em 68%

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Agricultores colocam carpas dentro dos arrozais e transformam os peixes em “caçadores” de pragas: um único animal pode comer até 1.000 caramujos jovens por dia e sistema reduz pesticidas em 68%

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 10/09/2026 às 22:54

Atualizado em 10/09/2026 às 22:55

Agronegócio

Canal

Sistema arroz-peixe usa carpas contra pragas, pode reduzir pesticidas em 68%

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Sistema arroz-peixe usa carpas contra pragas, pode reduzir pesticidas em 68% e permite produzir arroz e pescado simultaneamente na mesma área.

Em vez de combater todas as pragas do arrozal exclusivamente com produtos químicos, agricultores asiáticos utilizam uma solução que parece contraditória à primeira vista: colocam peixes vivos dentro da própria plantação. Carpas passam a nadar entre as plantas, alimentam-se de insetos, ervas daninhas e moluscos e deixam nutrientes no campo, enquanto o arroz oferece sombra e um ambiente aquático favorável aos peixes. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO, uma única carpa comum pode consumir até 1.000 caramujos-maçã-dourados jovens por dia, uma espécie capaz de provocar prejuízos consideráveis em arrozais.

O sistema é conhecido como cocultivo arroz-peixe e está longe de ser apenas uma curiosidade rural. Pesquisa conduzida na China durante vários anos mostrou que propriedades utilizando arroz e peixe conjuntamente mantiveram produtividade de arroz semelhante à monocultura, mas aplicaram 68% menos pesticidas e 24% menos fertilizantes químicos.

Em maio de 2026, uma meta-análise de 113 estudos realizados ao redor do mundo reforçou o potencial do método: em média, o cultivo conjunto aumentou a produtividade do arroz em 12,5%, reduziu pragas herbívoras em 24,1%, doenças em 38,8% e ervas daninhas em 45,7%.

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Uma carpa pode devorar até 1.000 caramujos jovens em apenas um dia

O caramujo-maçã-dourado é um dos exemplos mais impressionantes de como o peixe passa a desempenhar uma função que normalmente exigiria intervenção do agricultor.

Introduzido fora de sua área natural em várias regiões produtoras, o molusco alimenta-se de plantas jovens e pode causar danos significativos à cultura do arroz. Em campos alagados, encontra condições ideais para se deslocar, reproduzir e alcançar as mudas.

É justamente nesse ambiente que a carpa entra como predadora. A FAO informa que uma única carpa comum pode comer até mil caramujos-maçã jovens por dia, convertendo uma praga agrícola em alimento dentro do próprio ecossistema de produção.

Peixes nadam entre as plantas e começam a trabalhar contra diferentes pragas

Os caramujos não são o único alvo. Enquanto circulam pelos arrozais, os peixes encontram larvas, insetos e outros pequenos organismos que utilizam o ambiente inundado.

O próprio movimento dos animais também produz efeitos. Estudos sobre o sistema tradicional chinês observaram que peixes podem tocar nas plantas durante a natação e fazer insetos cair das hastes diretamente na água, onde ficam mais vulneráveis à predação.

Reportagem científica publicada pela Nature sobre os experimentos conduzidos na China relatou que essa movimentação conseguiu derrubar das plantas até cerca de um quarto de determinados insetos conhecidos como cigarrinhas do arroz.

Assim, o peixe não atua somente como um animal esperando a praga aparecer diante de sua boca. Sua movimentação física modifica o ambiente e interfere na relação entre arroz, insetos, vegetação espontânea e predadores naturais.

Pesquisa encontrou redução de 68% no uso de pesticidas

Um dos trabalhos científicos mais importantes sobre essa integração foi publicado em 2011 na Proceedings of the National Academy of Sciences, a PNAS.

Os pesquisadores estudaram um sistema tradicional de arroz e carpa utilizado havia mais de 1.200 anos no sul da China. O levantamento comparou propriedades com cocultivo a áreas de monocultura e também realizou experimentos de campo.

O resultado mostrou que a produtividade e a estabilidade da produção de arroz permaneceram semelhantes entre os sistemas, mas os agricultores que mantinham os peixes utilizaram 68% menos pesticidas.

A redução não aconteceu simplesmente porque os produtores decidiram pulverizar menos. Os peixes efetivamente ajudavam a controlar organismos prejudiciais e criavam um incentivo adicional para evitar produtos químicos de amplo espectro, já que determinadas aplicações também poderiam matar ou prejudicar os animais criados no próprio arrozal.

Uso de fertilizantes químicos também caiu 24%

A integração produziu outro efeito importante. No mesmo estudo, o consumo de fertilizantes químicos foi 24% inferior no sistema arroz-peixe em comparação com a monocultura de arroz.

Parte dessa diferença ocorre porque nutrientes circulam entre as duas produções. Restos de alimento fornecido aos peixes e seus excrementos liberam compostos que podem ser aproveitados pelas plantas.

Sistema arroz-peixe usa carpas contra pragas, pode reduzir pesticidas em 68%

O arroz, por outro lado, absorve parte do nitrogênio presente no ambiente e ajuda a evitar concentrações excessivas na água utilizada pelos peixes.

Essa relação transforma aquilo que seriam duas atividades separadas em um sistema integrado. O resíduo de uma das produções passa a funcionar parcialmente como recurso para a outra.

Peixes também arrancam ervas daninhas e movimentam o solo

O controle biológico vai além dos insetos. Algumas espécies de peixe alimentam-se diretamente de vegetação, sementes e brotos indesejados que crescem entre as plantas de arroz.

Outras arrancam pequenas plantas enquanto procuram alimento no fundo do arrozal.

A FAO destaca que esse comportamento reduz a competição entre o arroz e as ervas daninhas por nutrientes e espaço. Ao nadar e procurar alimento, os animais também movimentam superficialmente o solo, ajudando na circulação de nutrientes.

Uma revisão científica publicada pelo Journal of Plant Ecology mostrou que estudos de cocultivo com diferentes animais aquáticos registraram reduções importantes na presença de ervas daninhas.

Em determinados trabalhos com arroz e peixe, arroz e caranguejo ou arroz e tartaruga, a biomassa das plantas invasoras caiu entre 60% e 90%.

Estudo mundial de 2026 encontrou 45,7% menos ervas daninhas

Mais de uma década depois dos experimentos chineses que mostraram redução de 68% nos pesticidas, uma análise muito maior voltou ao tema.

Publicada na revista científica Current Biology em maio de 2026, a pesquisa reuniu dados de 113 estudos realizados mundialmente para entender o que acontece quando arroz e peixes são produzidos no mesmo sistema.

Em comparação com monoculturas de arroz, o cocultivo apresentou em média 45,7% menos ervas daninhas.

Os pesquisadores também encontraram redução de 24,1% nos invertebrados herbívoros considerados pragas e de 38,8% nas doenças.

Ao mesmo tempo, a quantidade de inimigos naturais, como predadores e parasitoides de pragas, aumentou 99,3%. Isso significa que o arrozal integrado não contém apenas peixes atacando organismos prejudiciais. O sistema pode favorecer uma cadeia inteira de controle biológico.

Produção de arroz aumentou em média 12,5% na análise de 113 estudos

Talvez o maior receio de um produtor seja perder área ou produtividade ao permitir que peixes utilizem parte do arrozal.

A meta-análise de 2026 aponta na direção oposta: em média, a produção de arroz nos sistemas integrados foi 12,5% maior que nas monoculturas consideradas nos estudos.

Isso não significa que qualquer propriedade automaticamente produzirá 12,5% mais arroz depois de colocar peixes na água. O resultado é uma média global e varia com clima, espécie de peixe, variedade de arroz, densidade dos animais, fertilização e desenho físico do campo.

Experimento moderno no Senegal aumentou a produção de arroz em mais de 25%

Embora a tradição esteja fortemente associada à Ásia, trabalhos recentes mostram que o conceito pode ser adaptado a outros continentes.

Um estudo publicado em maio de 2026 na revista Nature Sustainability testou a integração em arrozais do norte do Senegal utilizando tilápia-do-Nilo e peixe-língua-africano.

Os peixes prosperaram, reduziram populações de insetos e caramujos, melhoraram nutrientes do solo e elevaram a produtividade de arroz em mais de 25%, segundo os pesquisadores.

A análise econômica estimou benefício líquido entre US$ 1.805 e US$ 3.415 por hectare ao ano, com relação benefício-custo calculada em 7,42.

Nesse caso havia ainda outra particularidade: determinados caramujos presentes nos ambientes aquáticos atuam como hospedeiros intermediários dos parasitas responsáveis pela esquistossomose. A predação realizada pelos peixes, portanto, foi estudada também como potencial ferramenta de saúde pública.

O peixe não pode simplesmente ser jogado em qualquer arrozal

A simplicidade visual do sistema pode esconder importantes exigências de engenharia e manejo.

A FAO ressalta que arrozais destinados ao cultivo conjunto normalmente precisam de estruturas que mantenham os peixes seguros quando o nível da água varia.

Podem ser construídos canais ou áreas mais profundas para servir de refúgio, permitindo que os animais sobrevivam quando a lâmina de água sobre o restante do terreno diminui.

Telas ou barreiras também podem ser necessárias nas entradas e saídas de água para impedir que os peixes escapem.

Outro ponto fundamental é o uso de defensivos. Produtos químicos tóxicos para organismos aquáticos precisam ser eliminados, reduzidos ou manejados com enorme cautela.

Por isso, introduzir peixes não é uma solução isolada. É uma mudança no sistema completo de produção.

Carpas transformam a praga do arrozal em alimento e o próprio resíduo em fertilizante

É justamente essa circularidade que torna o sistema tão diferente da monocultura convencional.

Um caramujo que poderia destruir uma muda transforma-se em alimento para a carpa. O peixe que consome esse organismo libera nutrientes novamente no campo.

O arroz aproveita parte deles para crescer e, ao mesmo tempo, cria sombra capaz de moderar a temperatura da água onde o animal vive.

A cadeia continua quando o agricultor colhe o arroz e depois retira os peixes, obtendo proteína animal de uma área que originalmente produziria apenas grãos.

Os números acumulados em décadas de pesquisa ajudam a explicar por que o modelo continua despertando interesse. No sistema tradicional chinês estudado pela PNAS, foram 68% menos pesticidas e 24% menos fertilizantes químicos, sem redução significativa da produtividade do arroz.

Na análise global publicada em 2026, o resultado médio foi ainda mais amplo: 12,5% mais arroz, 24,1% menos pragas herbívoras, 38,8% menos doenças e 45,7% menos ervas daninhas, além de praticamente dobrar a abundância de determinados inimigos naturais.

E no ponto mais visual de toda essa relação aparece uma pequena cena repetida debaixo d’água: enquanto o arroz cresce acima da superfície, uma carpa pode passar o dia procurando alimento no campo e consumir até 1.000 caramujos jovens que, sem ela, poderiam estar atacando a própria plantação.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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