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Aos 25 anos, formanda em Medicina leva uma enxada para a colação de grau para homenagear os pais agricultores que sustentaram a família plantando mandioca e vendendo goma no interior de Minas Gerais e transforma a formatura em um reconhecimento público ao trabalho na roça que ajudou a levá-la até o diploma

Aos 25 anos, formanda em Medicina leva uma enxada para a colação de grau para homenagear os pais agricultores que sustentaram a família plantando mandioca e vendendo goma no interior de Minas Gerais e transforma a formatura em um reconhecimento público ao trabalho na roça que ajudou a levá-la até o diploma

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Aos 25 anos, formanda em Medicina leva uma enxada para a colação de grau para homenagear os pais agricultores que sustentaram a família plantando mandioca e vendendo goma no interior de Minas Gerais e transforma a formatura em um reconhecimento público ao trabalho na roça que ajudou a levá-la até o diploma

Escrito por Carla Teles

Publicado em 10/09/2026 às 17:31

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Na formatura, enxada simboliza trajetória por escola pública, Instituto Federal e cotas até Medicina na Unimontes. Imagem: Divulgação

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Nilcinádia Alves dos Anjos, da zona rural de Rio Pardo de Minas, estudou em escola pública, passou pelo Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, fez um ano de Veterinária e preparou-se por 18 meses até entrar em Medicina na Unimontes; na formatura, levou enxada para representar os pais agricultores.

A enxada que Nilcinádia Alves dos Anjos carregou durante a colação de grau em Medicina representava o trabalho dos pais agricultores que sustentaram a família cultivando mandioca e vendendo goma na zona rural de Rio Pardo de Minas, no Norte de Minas Gerais. Aos 25 anos, ela encerrava uma trajetória educacional iniciada em escola pública e concluída na Universidade Estadual de Montes Claros, a Unimontes.

Filha de Nilson dos Anjos Filho e Nergina Alves Gomes dos Anjos, Nilcinádia passou pela escola na zona rural, estudou no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, iniciou Medicina Veterinária, mudou de objetivo profissional e enfrentou um ano e meio de preparação antes de conquistar uma vaga em Medicina por meio do sistema de cotas. A cena da formatura reuniu, em um único objeto, o trabalho rural dos pais e diferentes etapas de acesso à educação pública.

Enxada levada à formatura representava trabalho dos pais agricultores

Imagem: Divulgação

Nilson e Nergina viviam na zona rural de Rio Pardo de Minas e trabalhavam na agricultura. O pai cultivava mandioca e a família obtinha renda também com a venda da goma, atividade que ajudou a sustentar Nilcinádia e o irmão, Nilciclébio, durante os anos de formação.

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Quando chegou a hora de participar das fotos e da colação de grau, Nilcinádia escolheu uma enxada para representar essa origem. Ela explicou que queria tornar público o reconhecimento pelo trabalho dos pais e pelo apoio recebido durante sua trajetória. O objeto agrícola entrou na cerimônia não como adereço, mas como referência direta à atividade que ajudou a manter a família enquanto os filhos estudavam.

Nilson havia estudado até a terceira série, segundo o relato da família. Ainda assim, incentivou os filhos a permanecerem na escola. Na cerimônia, ele e Nergina viram Nilcinádia tornar-se a primeira médica da família.

Escola ficava a quilômetros de casa e deslocamento fazia parte da rotina

Durante a infância e parte da adolescência, Nilcinádia estudou na zona rural. A escola ficava a alguns quilômetros da residência, e o deslocamento fazia parte da rotina: ela contou que seguia a pé, de bicicleta ou era levada pelo pai quando isso era possível.

Antes de chegar ao ensino superior, o percurso educacional começava literalmente pelo acesso físico à escola. A distância entre casa e sala de aula era um elemento cotidiano da formação de uma estudante que vivia fora do centro urbano.

O episódio também coloca em evidência uma característica importante da educação em áreas rurais: estar matriculado não elimina as dificuldades relacionadas a deslocamento e distância territorial. No caso de Nilcinádia, porém, a própria história mostra uma sequência de acesso que continuaria em outras instituições públicas.

Aos 13 anos, Nilcinádia pediu para estudar no Instituto Federal

Imagem: Divulgação

Aos 13 anos, a trajetória mudou. Nilcinádia pediu aos pais autorização para estudar no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, em Salinas, onde o irmão também havia estudado.

Ela deixou a rotina escolar anterior e passou a frequentar uma instituição integrante da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. Essa passagem acrescentou ao percurso da estudante uma nova etapa de formação pública antes do ingresso universitário.

Os Institutos Federais foram estruturados pela Lei nº 11.892, de 2008, e atuam na educação profissional e tecnológica em diferentes níveis, incluindo cursos técnicos de nível médio e graduações. O Ministério da Educação destaca ainda a presença multicampi da rede e sua função de ampliar a oferta pública de educação profissional e tecnológica em diferentes regiões do país.

Nilcinádia concluiu essa etapa aos 16 anos. Nesse momento, contudo, ainda não considerava que estivesse preparada para disputar uma vaga em Medicina.

Aos 16 anos, entrou em Veterinária, mas decidiu mudar de caminho

Ao terminar essa fase da formação, Nilcinádia optou inicialmente por Medicina Veterinária, no próprio instituto. Foi aprovada e permaneceu aproximadamente um ano no curso.

Ela relatou que gostava da área, mas percebeu durante a graduação que pretendia seguir Medicina. A primeira escolha universitária funcionou, assim, como uma etapa de definição profissional, e não como o destino final do percurso acadêmico.

A mudança exigia abandonar uma graduação já iniciada sem ter garantia de aprovação em outro curso. Nilcinádia conversou com os pais e decidiu trancar Veterinária para procurar um pré-vestibular.

Os pais apoiaram a mudança, embora a decisão também tenha provocado questionamentos fora da família. O eixo da trajetória, a partir dali, deixou de ser uma graduação já conquistada e passou a ser a preparação para um novo processo seletivo.

Um ano e meio de preparação antecedeu tentativa de Medicina

Nilcinádia mudou-se para Montes Claros e dedicou cerca de um ano e meio à preparação para o vestibular. Segundo o próprio relato, estudava de 10 a 12 horas por dia e mantinha dedicação praticamente exclusiva naquele período.

Essa carga de estudos descreve a experiência individual da candidata e não deve ser interpretada como recomendação de rotina para outros vestibulandos. No caso dela, foi a estratégia adotada para disputar uma vaga em um curso de alta procura em universidade pública.

A escolha pela instituição pública também tinha uma razão econômica concreta. A família vivia da produção rural e, segundo Nilcinádia, uma graduação particular em Medicina não estava dentro das possibilidades financeiras dos pais.

Depois do período de preparação, ela prestou o processo seletivo da Universidade Estadual de Montes Claros.

Aos 19 anos, conquistou uma das vagas de Medicina destinadas às cotas

Nilcinádia tinha 19 anos quando foi aprovada em Medicina na Unimontes. A reportagem que registrou sua trajetória informa que, naquele processo, havia oito vagas por cotas no recorte citado para o curso e que ela obteve a segunda colocação na seleção pela qual ingressou.

A política de reserva de vagas da Unimontes não era a Lei de Cotas federal aplicada às universidades federais. A instituição é estadual e, em 2015, operava sob legislação própria de Minas Gerais. Documentos institucionais daquele período registram reserva de 45% das vagas, distribuída entre afrodescendentes, egressos de escolas públicas comprovadamente carentes e pessoas com deficiência ou indígenas.

Essa distinção é importante porque evita aplicar retroativamente ao caso regras diferentes das que efetivamente vigoravam na universidade estadual. No percurso de Nilcinádia, a política de reserva de vagas foi um mecanismo concreto de acesso ao ensino superior público, somado à formação anterior em escola pública e no Instituto Federal.

A aprovação ocorreu depois da mudança de curso e do período de preparação em Montes Claros. Aos 19 anos, ela iniciou a etapa que terminaria seis anos depois com a graduação em Medicina.

Escola pública, Instituto Federal e cotas formaram sequência de acesso à graduação

Quando as etapas são observadas em conjunto, a trajetória não se resume ao momento simbólico da enxada. Nilcinádia passou por escola pública na zona rural, Instituto Federal, uma primeira graduação, preparação para novo vestibular, sistema estadual de cotas e universidade pública.

Cada elemento corresponde a uma instituição ou mecanismo diferente de acesso educacional. A escola garantiu a formação básica; o Instituto Federal ampliou a trajetória acadêmica; a universidade estadual ofereceu a graduação; e a reserva de vagas integrou o processo seletivo pelo qual chegou ao curso de Medicina.

A Rede Federal, da qual fazem parte os Institutos Federais, foi criada com uma proposta de interiorização e diversificação da educação profissional e tecnológica. O MEC define essas instituições como multicampi e voltadas à oferta de educação profissional em diferentes níveis, incluindo ensino médio técnico e graduação.

No caso concreto de Nilcinádia, essas estruturas aparecem conectadas em sequência, e não como conceitos abstratos de política educacional. Elas acompanharam a passagem da zona rural de Rio Pardo de Minas até o curso de Medicina em Montes Claros.

Enxada voltou à cena quando filha de agricultores concluiu Medicina

Seis anos depois da aprovação, a trajetória voltou ao ponto de partida durante a formatura. Nilcinádia decidiu entrar na cerimônia segurando a enxada que simbolizava o trabalho agrícola dos pais.

Ela também havia usado o objeto nas fotografias do álbum de formatura. Durante a colação, Nilson e Nergina acompanharam a filha ao som de “No Dia em que Eu Saí de Casa”, canção associada à saída dos filhos da casa dos pais.

Para Nilcinádia, colocar a enxada diante de todos era uma forma de mostrar que a graduação também estava ligada ao trabalho realizado diariamente na roça. O pai cultivava mandioca e vendia goma; a filha transformou a ferramenta dessa atividade em símbolo dentro de uma cerimônia universitária.

Nilson relatou o orgulho ao ver a filha concluir o curso. A emoção, porém, fecha apenas uma parte da história: o diploma também representava a conclusão de um itinerário construído por diferentes níveis da educação pública.

Depois da graduação, médica se preparava para atuar em unidade básica de saúde

Na época em que a trajetória foi publicada, em setembro de 2021, Nilcinádia se preparava para deixar Minas Gerais e se mudar para Santa Catarina. O plano era começar a trabalhar em uma unidade básica de saúde e também cumprir plantões.

Ela ainda não havia escolhido uma especialidade médica. A fonte registra apenas que demonstrava afinidade com psiquiatria e cirurgia, sem decisão definitiva naquele momento.

A entrada profissional completa o ciclo educacional narrado pela história: escola pública, formação técnica e acadêmica, universidade estadual, diploma e trabalho no sistema de saúde.

Essa etapa também impede que a reportagem termine apenas na cerimônia de formatura. O percurso educacional passou a produzir uma consequência profissional concreta quando a recém-formada se preparou para exercer Medicina no atendimento à população.

Trajetória ligou zona rural, educação pública e formação profissional em Medicina

Aos 25 anos, Nilcinádia chegou à formatura carregando uma enxada, mas a imagem sintetizava um percurso bem maior. Antes daquele momento vieram os quilômetros até a escola, a mudança para estudar no Instituto Federal, o ano em Medicina Veterinária, a decisão de trocar de curso, 18 meses de preparação e a aprovação por cotas na Unimontes.

O trabalho dos pais agricultores explica o símbolo; a sequência de instituições públicas e mecanismos de acesso explica como a formação foi construída. Dessa forma, a história conecta produção rural, educação básica, educação profissional, ações afirmativas, universidade estadual e ingresso no mercado de trabalho médico.

A cena da enxada continua sendo o elemento mais visual da trajetória, mas não precisa funcionar como única razão jornalística para contar o caso. O percurso mostra, em escala individual, como diferentes etapas da educação pública podem se encadear até uma formação profissional de alta concorrência.

Na sua opinião, escola pública, Institutos Federais e políticas de acesso ao ensino superior conseguem abrir caminhos suficientes para estudantes que vivem longe dos grandes centros? Conte nos comentários.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

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