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Aos 68 anos, Rachel Ward troca décadas de cinema pela vida no campo, assume fazenda de 350 hectares, recupera o solo com gado rotacionado e reduz químicos após incêndios na Austrália
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 10/09/2026 às 14:06
Atualizado em 10/09/2026 às 14:07
Agronegócio
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Aos 68 anos, Rachel Ward trocou a rotina do cinema pela gestão de uma fazenda de 350 hectares na Austrália, onde o pastejo rotacionado, a redução de químicos e a recuperação do solo mudaram sua relação com o campo.
Durante décadas, Rachel Ward foi reconhecida diante das câmeras. Hoje, aos 68 anos, a atriz e diretora britânico-australiana passa boa parte dos dias observando pastagens, cercas, chuva e o comportamento do gado em uma propriedade rural de Nova Gales do Sul.
A mudança ganhou força depois de uma sequência de eventos extremos. Anos de seca deixaram a propriedade sob pressão e obrigaram a família a comprar alimento para os animais. Em seguida, os incêndios do chamado Black Summer, entre 2019 e 2020, atravessaram a região e destruíram cercas. Para Ward, o impacto funcionou como um ponto de virada: continuar repetindo o mesmo manejo já não parecia uma opção segura.
Na fazenda que administra com o marido, o ator Bryan Brown, Ward passou a concentrar esforços na regeneração do solo, na proteção da biodiversidade e no controle do sobrepastejo. A propriedade fica no vale de Nambucca, em Nova Gales do Sul. A ABC descreveu uma área de cerca de 350 hectares e um rebanho com aproximadamente 80 matrizes no período retratado pela reportagem.
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Da seca ao incêndio, uma decisão prática
O relato da produtora ajuda a dimensionar o problema. Segundo material do projeto The Regenerators, três anos de seca exigiram a compra de ração e a venda de metade do rebanho. Quando o fogo chegou, toda a estrutura de cercamento teria sido perdida. Não se tratava apenas de reconstruir o que havia sido queimado, mas de pensar como a fazenda poderia enfrentar a próxima temporada difícil com mais capacidade de resposta.
Ward começou a estudar técnicas de agricultura regenerativa e a rever a forma como os animais ocupavam o terreno. O objetivo central era evitar que o gado permanecesse tempo demais na mesma área. Em vez de acesso contínuo a grandes extensões, os animais passaram a circular por piquetes em intervalos planejados, permitindo descanso à vegetação antes de uma nova entrada.
Como funciona o gado rotacionado
No pastejo rotacionado, o rebanho é concentrado por um período curto em uma área e depois deslocado. A estratégia procura equilibrar consumo da forragem, deposição de esterco e tempo de recuperação das plantas. No site oficial Rachel’s Farm, a equipe informa que o gado muda de área a cada poucos dias, conforme as condições da pastagem e do clima.
O manejo não é uma fórmula automática. Quantidade de animais, chuva, tipo de solo e velocidade de crescimento das plantas alteram as decisões. Na propriedade de Ward, a observação frequente do campo se tornou parte da rotina. O site do projeto registra cerca de 120 bovinos em 750 acres em sua descrição atual, números que podem representar outro momento do rebanho e uma delimitação diferente da área citada pela ABC.
Além da rotação, a fazenda passou a empregar biofertilizantes e a diminuir insumos químicos. A página oficial afirma que fertilizantes sintéticos não são usados e que produtos químicos ficam como último recurso. A abordagem busca apoiar a atividade biológica do solo sem transformar a experiência particular da propriedade em promessa universal para qualquer produtor.
Solo vivo é o indicador observado no campo
Ward diz ter percebido mudanças em trechos que antes estavam compactados. Entre os sinais citados estão a presença de minhocas e insetos e uma aparente melhora na capacidade do terreno de receber a chuva. Esses relatos são indicadores práticos observados pela própria equipe; não equivalem, isoladamente, a uma medição científica independente de longo prazo.
A recuperação do solo costuma ser gradual. Cobertura vegetal, raízes, matéria orgânica e atividade de microrganismos influenciam a infiltração e a retenção de água. Para uma fazenda atingida por seca e fogo, manter o solo coberto e reduzir áreas degradadas pode ajudar a criar uma operação menos vulnerável, embora os resultados dependam de clima, manejo e acompanhamento contínuo.
Esse cuidado também muda a relação com o rebanho. O gado deixa de ser visto apenas como consumidor da pastagem e passa a integrar o planejamento do terreno. Bem manejado, pode distribuir nutrientes e estimular novos ciclos de crescimento. Em excesso ou sem descanso adequado para as áreas utilizadas, porém, pode produzir o efeito contrário e ampliar a degradação.
Uma estrela do cinema aprendendo outra profissão
A trajetória chama atenção porque Ward construiu uma carreira internacional como atriz e diretora antes de assumir tarefas rurais. A transição, no entanto, não foi apresentada por ela como aposentadoria idílica. A rotina inclui decisões sobre água, animais, cercamento, solo e custos — atividades que exigem conhecimento novo e presença constante.
Essa aprendizagem aparece no documentário Rachel’s Farm, lançado em 2023. O filme acompanha a transformação da propriedade e coloca a protagonista diante das próprias dúvidas. A produção também aborda a participação das mulheres na agricultura e a importância do conhecimento indígena sobre paisagem, fogo e cuidado com a terra.
Ao tornar o processo público, Ward aproxima um tema técnico de uma audiência que talvez nunca tivesse procurado informações sobre manejo de pastagens. A celebridade abre a porta, mas o que sustenta a história são escolhas verificáveis: dividir áreas, movimentar animais, reduzir produtos químicos e acompanhar sinais do solo.
O que a experiência ensina sem vender uma receita pronta
A fazenda australiana não resolve sozinha o debate sobre produção de carne, emissões ou uso da terra. Também não prova que uma técnica terá o mesmo resultado em propriedades com outros solos, chuvas e escalas. Seu valor está em mostrar uma resposta concreta a perdas reais e um processo de adaptação que pode ser observado ao longo do tempo.
Ward passou cerca de seis anos trabalhando na regeneração e assumiu a gestão mais direta da operação nos últimos anos, segundo a ABC. O tempo importa: recuperar estrutura do solo e reorganizar um sistema pecuário não acontece em uma estação. Há testes, correções e custos antes que uma mudança seja percebida no campo.
O projeto ainda ganhou uma dimensão comercial com uma iniciativa de conexão entre a produção rural e os consumidores. Mas a mensagem mais forte permanece na própria paisagem: uma propriedade castigada por seca e incêndios passou a ser tratada como um sistema que precisa de descanso, diversidade e decisões ajustadas ao que o solo mostra.
Uma mudança de vida medida em chuva, raízes e cercas
Aos 68 anos, Rachel Ward continua ligada ao cinema, mas sua rotina agora também é definida pelo campo. O contraste entre glamour e lama torna a história atraente; a parte relevante, porém, está na disciplina diária necessária para transformar intenção ambiental em manejo.
Ao reduzir químicos, alternar o acesso do gado às pastagens e observar a volta de organismos no solo, ela construiu uma experiência de recuperação baseada em pequenos sinais acumulados. Depois do fogo, reerguer cercas foi apenas o começo. O desafio maior passou a ser preparar a fazenda para resistir melhor ao próximo período de pressão climática.
E você, acredita que práticas de manejo regenerativo podem ganhar espaço na pecuária brasileira? Conte sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

