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Aos 75 anos, Célia Luísa dos Reis Mesquita subiu ao palco em Saquarema ouvindo a plateia gritar Dona Célia, recebeu o diploma de Serviço Social e lembrou do tempo em que varria as ruas de Bacaxá de dia e só passava em casa para tomar banho antes da aula da noite
Escrito por Jefferson Augusto
Publicado em 04/09/2026 às 15:49
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Ela mandou buscar o vestido em Minas Gerais e passou a véspera cuidando do cabelo.
A mestre de cerimônia chamou o nome e a plateia respondeu antes que ela chegasse ao palco. “Dona Célia, Dona Célia, Dona Célia”, repetiam os formandos, conforme o relato publicado pela Prefeitura de Saquarema. Célia Luísa dos Reis Mesquita ia receber, aos 75 anos, o diploma de Serviço Social.
A colação aconteceu na quarta-feira, 26 de agosto de 2026, no Centro de Eventos de Saquarema, no Rio de Janeiro, e marcou a primeira turma do programa Conexão Universitária, o COUNI, segundo a mesma fonte. Ela é uma dos cerca de 400 formandos daquele primeiro edital.
O vestido que veio de Minas
Nos dias que antecederam a festa, ela estava ansiosa. Mandou trazer um vestido de Minas Gerais e passou a véspera da colação preparando o cabelo, conforme o relato da prefeitura.
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É o tipo de detalhe que diz mais do que qualquer estatística de acesso ao ensino superior. Quem manda buscar roupa em outro estado para uma cerimônia está tratando aquele diploma como um acontecimento de vida inteira, como no caso já noticiado da idosa que aprendeu a ler aos 85, concluiu o ensino médio e entrou na faculdade aos 91.
A vassoura de dia e a sala de aula à noite
A frase que ela usa para resumir aquela fase não precisa de comentário. “Nessa época, eu trabalhava varrendo as ruas de Bacaxá e, à noite, ia estudar. Eu só passava em casa para tomar um banho antes e trocar de roupa”, contou Célia, conforme registrou a Prefeitura de Saquarema.
Bacaxá é o principal distrito de Saquarema, e varrer rua ali significa jornada inteira em pé, sob sol e chuva. A escola entrava no fim desse dia, não no lugar dele.
As profissões que vieram antes
Antes da vassoura e antes do diploma, houve uma sequência de ofícios. Nascida no Jacarezinho, na cidade do Rio de Janeiro, ela foi costureira, assistente administrativa e voluntária em um colégio para pagar os estudos do filho, segundo a prefeitura.
Cada um desses trabalhos aparece na mesma linha do tempo em que os estudos dela foram sendo adiados. O voluntariado no colégio é o mais revelador: trocou trabalho por mensalidade, e a mensalidade era do filho, não dela.
A casa própria no fim dos anos 80
Foi em Saquarema que ela conquistou a casa própria, para onde se mudou no fim dos anos 80, conforme o relato oficial. O município deixou de ser apenas o lugar do trabalho e virou endereço.
Quatro décadas depois de chegar, ela subiu ao palco da mesma cidade para receber um diploma pago por um programa da prefeitura dessa cidade. O circuito fechou dentro do próprio município.
O que a prefeita disse do palco
Antes da entrega dos diplomas, a prefeita Lucimar Vidal citou o nome dela no discurso. “A Dona Célia, ali, tá realizando um sonho. Muita gente achava que ela não iria terminar, que ela iria parar pelo caminho. A idade, ela não tem limite, não é, Dona Célia?”, disse a prefeita, conforme a publicação da prefeitura.
A frase reconhece em público o que costuma ficar implícito nesses casos. A dúvida sobre a conclusão do curso não era dela: era de quem estava em volta.
O que é o COUNI
O Conexão Universitária é o programa da Prefeitura de Saquarema que dá a moradores do município acesso ao ensino superior, segundo a própria administração. Aos beneficiários, oferece transporte gratuito até a universidade, ajuda de custo e bolsas de estudo.
O transporte é a parte menos glamourosa e frequentemente a mais decisiva. Em cidade de interior, a distância até o campus costuma ser o obstáculo que derruba o aluno antes da primeira prova.
Doze mil pessoas desde 2022
Desde o início do projeto, em 2022, cerca de 12 mil pessoas já tiveram acesso ao programa, conforme os números divulgados pela prefeitura. A turma de Dona Célia é a primeira a colar grau dentro dessa conta.
São quatro anos entre a criação do programa e a primeira formatura, o que bate com a duração média de uma graduação. O primeiro edital é, na prática, o teste de eficácia da política.
Por que a idade dela chama tanta atenção
Conclusão de ensino superior depois dos 70 é rara no Brasil, e por isso vira notícia sempre que acontece. O padrão desses casos costuma ser o mesmo: um estudo interrompido cedo pela necessidade de trabalhar, e retomado quando a obrigação de sustentar alguém finalmente acaba.
O que muda de história para história é o ofício que ocupou o lugar da sala de aula. No caso dela, foi a vassoura, e depois a máquina de costura e a mesa de escritório.
O diploma que chega depois da aposentadoria
Serviço Social não é um curso decorativo para quem se forma nessa idade, conforme a regulamentação da profissão. É uma carreira com registro em conselho e atuação em assistência social, saúde e políticas públicas.
Trajetória parecida apareceu no caso, já noticiado, do homem que começou a trabalhar ainda menino, entrou na faculdade aos 79 e colou grau aos 84 na primeira turma do curso.
O que sustenta um aluno mais velho até o fim
Estudante nessa faixa enfrenta obstáculos que o edital não prevê: saúde, deslocamento, cansaço acumulado e a sensação de estar fora de lugar numa sala de vinte e poucos anos.
É o que aparece no caso, já noticiado, da avó que entrou na faculdade aos 67 e atravessou infarto, queda e reabilitação sem abandonar uma disciplina sequer.
A festa que virou dela
Ela nem imaginava que seria uma das estrelas da noite, conforme o relato da prefeitura. Ao caminhar pelo Centro de Eventos, muitas pessoas faziam questão de cumprimentá-la.
Numa colação com cerca de 400 formandos, segundo o registro da prefeitura, o nome que a plateia decorou foi o da aluna mais velha. Foi ela que a prefeita citou e foi por ela que o coro começou.
O que ela disse do programa
Sobre o COUNI, a avaliação dela é direta: “O COUNI foi fundamental. Por meio do programa, aprendi coisas que eu não imaginava aprender”, afirmou Célia, segundo a Prefeitura de Saquarema.
É o retorno que uma política pública dificilmente consegue medir em planilha. O indicador aqui é uma pessoa que varria rua e hoje tem registro profissional para atender quem varre.
Por que o transporte pesa mais que a bolsa
Programa de acesso ao ensino superior costuma ser lembrado pela bolsa, mas quem trabalha com evasão sabe que a conta que derruba o aluno é outra. Passagem diária para um campus em outra cidade consome uma fatia grande de um salário baixo e se repete cinco vezes por semana.
Por isso o transporte gratuito aparece na descrição do COUNI ao lado da bolsa e da ajuda de custo, conforme a prefeitura. É o item que transforma a vaga em presença na sala.
A diferença entre entrar e concluir
Entrar na faculdade é a parte visível do problema. Concluir é a parte que quase ninguém acompanha, e é onde a maioria dos programas de acesso perde os alunos que conquistou.
A primeira turma do COUNI é justamente o momento em que essa segunda conta aparece. Cerca de 400 pessoas atravessaram o palco, e a mais velha delas tinha 75 anos, conforme a prefeitura.
O que não foi divulgado
A publicação não informa em que ano ela entrou no curso, quanto tempo levou para concluir nem em qual universidade estudou pelo programa. Também não há informação sobre onde ela pretende trabalhar como assistente social.
São dados que fechariam a ficha, mas não mudam o que já está registrado. Aos 75 anos, Dona Célia atravessou o palco do Centro de Eventos com o diploma na mão e o vestido que veio de Minas.
Fontes
Prefeitura de Saquarema, Mulher de 75 anos se forma em Serviço Social com bolsa do Conexão Universitária
O São Gonçalo, Moradora de Saquarema se forma em Serviço Social pelo Conexão Universitária aos 75 anos
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

