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Aos 82 anos, agricultor começa cedo, trabalha até quase 23h para manter pomar de pera rocha de pé, enfrenta falta de mão de obra, custos em alta e preço da fruta que não acompanha as despesas e faz alerta sobre o futuro no campo: “Quem não tem lucro tem que parar”
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 07/09/2026 às 20:27
Atualizado em 07/09/2026 às 20:28
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Em Cadaval, no Oeste de Portugal, Luís Firmino de Deus mantém um pomar com centenas de pereiras, acompanha a colheita em família e diz que encontrar trabalhadores virou uma das maiores dificuldades enquanto combustível, produção e outros custos avançam sem a mesma reação no valor recebido pela fruta
Aos 82 anos, Luís Firmino de Deus ainda acompanha de perto a rotina de seu pomar de pera rocha em Cadaval, na região Oeste de Portugal. A experiência acumulada desde a infância não impediu que ele chegasse a uma conclusão preocupante sobre o momento vivido por pequenos produtores: trabalhar muito já não significa necessariamente conseguir margem suficiente para continuar produzindo.
O agricultor relata que uma das maiores dificuldades atualmente é encontrar mão de obra para a colheita das peras. A pequena empresa familiar consegue manter a atividade com parentes e trabalhadores, muitos deles imigrantes, mas a disponibilidade de pessoas para o serviço tornou-se um problema recorrente.
Ao mesmo tempo, os custos aumentaram. Luís afirma que o preço recebido pela fruta não evoluiu na mesma proporção das despesas necessárias para produzir. Ele cita o gasóleo agrícola como um dos exemplos de gastos que pressionam a atividade.
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O resultado aparece na rotina. Em um dos dias relatados durante a entrevista, o trabalho para organizar a produção e levá-la até a cooperativa terminou perto das 23 horas. Para alguém que passou praticamente a vida inteira ligado ao campo, a preocupação agora não é somente terminar a próxima colheita. É saber se haverá condições econômicas para continuar fazendo a seguinte.
Agricultura começou ainda na infância e pomar guarda uma transformação de décadas no Oeste português
A relação de Luís com o campo começou muito antes do atual pomar. Ele conta que já ajudava na agricultura por volta dos 8, 9 ou 10 anos de idade.
A própria paisagem agrícola da região mudou durante sua vida.
Segundo o produtor, cerca de quatro décadas atrás aquela área era fortemente dedicada à uva para produção de vinho. Quando a uva perdeu valor, agricultores começaram a migrar para as pereiras. A pera se adaptou bem às condições do Oeste e passou a ocupar espaço importante na produção local.
Hoje, Luís estima ter entre 600 e 700 pés de pera somente na área mostrada durante a entrevista. O pomar tem aproximadamente 25 anos, embora existam também árvores mais novas utilizadas para substituir plantas que morrem.
A idade das árvores, porém, conta apenas uma parte da história. O trabalho continua durante praticamente o ano inteiro.
Depois da colheita vem a poda. É preciso controlar a vegetação para permitir entrada de sol e circulação de ar. Há irrigação, adubação, substituição de plantas e acompanhamento de doenças.
É justamente aí que a conta do produtor se torna mais complexa: a pera encontrada pronta no supermercado concentra meses de trabalho que o consumidor raramente consegue enxergar.
Falta mão de obra, mas colher pera também exige técnica para não perder o fruto
Encontrar pessoas disponíveis é apenas a primeira dificuldade.
A colheita exige cuidado. Luís explica que a pera não deve simplesmente ser arrancada do galho. O fruto precisa ser retirado de maneira que preserve o talo, porque uma lesão pode abrir caminho para deterioração posterior.
Depois, a fruta é colocada em baldes e transferida cuidadosamente para recipientes maiores. Jogar as peras de uma altura maior ou permitir impactos pode provocar ferimentos que reduzem a qualidade comercial. Para alcançar as partes mais altas das árvores, os trabalhadores utilizam escadas.
Até fatores fora do controle do agricultor podem eliminar parte da produção.
Durante a conversa, Luís mostra frutos marcados pelo granizo e outros atingidos pelo excesso de sol. Mesmo quando a ferida cicatriza, a marca pode fazer com que aquela pera deixe de atender ao padrão esperado para comercialização.
O produtor também aponta problemas fitossanitários. Entre eles está o fogo bacteriano, citado por Luís como uma das doenças que afetam as pereiras, além de problemas capazes de provocar manchas e posteriormente o apodrecimento do fruto.
Não existe, portanto, apenas o custo de plantar e colher. Existe também uma parcela da produção que pode ser desvalorizada ou perdida antes de chegar ao consumidor.
Custos sobem, preço da fruta não acompanha e produtor vê lucro cada vez menor
Assista o vídeo
É na parte financeira que Luís concentra sua maior preocupação.
Segundo ele, “o produtor tá a ter muito pouco lucro” porque os gastos acumulados ao longo do ciclo de produção ficaram mais caros, enquanto o preço da fruta não acompanhou a mesma evolução.
O problema ajuda a explicar por que a falta de mão de obra pesa tanto para propriedades menores. Contratar trabalhadores é necessário justamente em uma atividade na qual a margem, segundo o agricultor, já está pressionada por combustível e demais custos.
Luís descreve sua estrutura como uma empresa “muito pequenita”, sustentada fortemente pela participação familiar. Durante a colheita apresentada na entrevista, havia aproximadamente 30 pessoas trabalhando, embora ele próprio ressalve não saber o número exato naquele momento.
A jornada também pode se estender muito além do horário convencional. Ele relata que, no dia anterior à entrevista, terminou as tarefas relacionadas ao pomar e à cooperativa perto das 23h.
É um contraste importante: a agricultura continua exigindo trabalho físico, conhecimento técnico e longas jornadas, mas isso não garante que a receita acompanhe o esforço colocado na propriedade.
“Quem não tem lucro tem que parar”: aos 82 anos, agricultor teme pelo amanhã da pera rocha
Luís não demonstra falta de ligação com o campo. É justamente o contrário.
Depois de trabalhar desde criança na agricultura, ele também passou pela tropa, esteve na Guerra do Ultramar, na Guiné, e posteriormente trabalhou nos CTT como carteiro. Mesmo durante essa trajetória, continuou ligado à atividade agrícola.
Agora, aos 82 anos, filhos e netos fazem parte de sua história no campo. Uma das netas participa do trabalho no pomar e outra se preparava para entrar na universidade no momento da entrevista.
A presença da geração mais jovem cria esperança, mas não elimina a dúvida econômica.
Quando questionado sobre Portugal e sobre o orgulho de trabalhar na terra, Luís respondeu que seu maior receio está no futuro. Na avaliação dele, a atividade vem diminuindo porque as condições econômicas não melhoraram.
A frase que resume seu diagnóstico é curta:
“Quem não tem lucro tem que parar.”
O agricultor considera que o eventual desaparecimento da produção de pera rocha seria um problema grave para o Oeste português e não descreve o horizonte atual como otimista.
Neta de Luís ajuda na colheita enquanto termina mestrado em bioengenharia
A história do pomar também mostra que a relação da nova geração com a agricultura pode assumir uma forma diferente.
Andreia, neta de Luís, participa da apanha e descreve como um privilégio fazer parte do legado familiar. Segundo ela, amigos também são levados para a atividade, formando um grupo mais jovem durante a colheita.
As motivações variam: alguns trabalham para juntar dinheiro para comprar um celular; outros querem economizar para a universidade.
Andreia, porém, não pretende limitar sua trajetória profissional à propriedade. Ela conta que está terminando um mestrado em bioengenharia e pretende seguir também pela área laboratorial, embora diga que não quer abandonar completamente sua ligação com a agricultura.
É talvez a imagem mais clara do desafio colocado por Luís: preservar a agricultura familiar não depende somente de convencer jovens a gostar do campo. Depende de criar condições para que permanecer ligado à produção também faça sentido econômico.
Da árvore ao supermercado existe uma cadeia que muita gente não vê
Para Luís, parte da distância entre consumidor e produtor está no desconhecimento sobre a origem dos alimentos.
Ele recorda uma conversa com uma médica que teria demonstrado interesse em mostrar aos netos que aquilo encontrado nas grandes superfícies comerciais não é produzido dentro do supermercado, mas cultivado no campo.
No pomar de Cadaval, essa diferença fica concreta.
Antes de uma pera chegar à prateleira, houve poda, irrigação, adubação, controle de doenças, trabalho de colheita, seleção, transporte e entrega à cooperativa. Houve ainda risco de granizo, queimadura pelo sol e danos durante a própria apanha.
Luís atravessou décadas acompanhando essa cadeia. Aos 82 anos, continua trabalhando nela.
Seu temor agora é que a equação deixe de fechar: se o custo continua avançando, a mão de obra fica mais difícil e o preço recebido pelo produtor não acompanha, chega um momento em que tradição e disposição para trabalhar já não bastam para manter um pomar produzindo.
Com informações do canal Lian Lucas Oficial.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

