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Arqueólogos encontram peça de cobre com santo guerreiro de um lado e figura semelhante à Medusa cercada por serpentes do outro, em escavação medieval, revelando como a fé cristã e crenças pagãs coexistiam há 1.000 anos

Arqueólogos encontram peça de cobre com santo guerreiro de um lado e figura semelhante à Medusa cercada por serpentes do outro, em escavação medieval, revelando como a fé cristã e crenças pagãs coexistiam há 1.000 anos

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Arqueólogos encontram peça de cobre com santo guerreiro de um lado e figura semelhante à Medusa cercada por serpentes do outro, em escavação medieval, revelando como a fé cristã e crenças pagãs coexistiam há 1.000 anos

Escrito por Flavia Marinho

Publicado em 20/09/2026 às 08:51

Atualizado em 20/09/2026 às 11:00

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Amuleto encontrado em Staraya Russa. Referência: Novgorod State University.

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Amuleto do século XI achado em Staraya Russa mistura um santo guerreiro cristão com uma figura de cabelos em forma de serpentes; peça de cobre pode revelar como fé cristã e crenças pagãs coexistiam há 1.000 anos.

Um pequeno medalhão de cobre retirado de uma camada do século XI colocou lado a lado dois mundos que, em teoria, não deveriam ocupar a mesma joia. De um lado aparece um santo guerreiro com lança e escudo. Do outro, uma cabeça feminina cercada por cabelos que lembram serpentes, imagem associada pelos pesquisadores à tradição da Medusa.

A peça foi encontrada em Staraya Russa, no noroeste da Rússia, durante escavações conduzidas por arqueólogos ligados à Universidade Estatal de Novgorod. O achado veio do sítio de Pyatnitsky, dentro de uma antiga propriedade urbana que começava a ser ocupada naquele período. Para a equipe, o objeto é uma das evidências mais antigas desse tipo de amuleto na região medieval de Novgorod.

Quatro outros amuletos semelhantes já haviam sido encontrados em Staraya Russa, mas todos pertenciam a camadas mais recentes, entre os séculos XII e XIV. O novo exemplar recua essa tradição local para o século XI e reforça a ideia de que uma comunidade cristã já estava estabelecida ali, ao mesmo tempo em que símbolos e práticas populares anteriores continuavam circulando.

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De um lado há um provável São Teodoro; do outro, uma figura com cabelos em forma de serpentes

Os pesquisadores classificam o objeto como um “zmeevik”, termo usado para pendentes ou medalhões serpentinos de duas faces. Segundo Sergey Toropov, diretor do Centro de Pesquisas Arqueológicas da Universidade Estatal de Novgorod, a principal característica dessas peças é justamente reunir imagens incompatíveis sob a ótica da doutrina cristã estrita.

Na face cristã do amuleto de Staraya Russa aparece um guerreiro em relevo, armado com lança e escudo. Toropov considera provável que seja São Teodoro Estratelata, também conhecido como Teodoro de Heracleia, santo associado em tradições religiosas ao combate contra uma grande serpente.

Na face cristã aparece um santo guerreiro, provavelmente São Teodoro Estratelata. Foto: Novgorod State University.

A outra face mostra uma cabeça feminina com formas serpentinas ao redor do cabelo. A comparação com a Medusa é imediata, mas os próprios arqueólogos evitam afirmar que o artesão pretendia representar literalmente a górgona da mitologia grega. Para a equipe, a imagem pode ser uma composição mais ampla das forças sombrias que o lado cristão deveria superar.

Essa combinação não era isolada. Exemplares semelhantes podiam trazer Cristo, a Virgem Maria, o arcanjo Miguel ou santos ligados ao combate contra serpentes na face cristã, enquanto o verso conservava composições com répteis. Algumas peças ainda possuíam inscrições em grego com caráter protetor, o que sustenta a interpretação de que eram usadas como amuletos contra doenças e outros males.

Peça veio de uma camada do século XI em área com seis metros de história acumulada

O contexto da escavação ajuda a explicar por que o achado chama tanta atenção. O sítio de Pyatnitsky fica no núcleo histórico de Staraya Russa, onde o depósito arqueológico chega a cerca de seis metros de profundidade e preserva sucessivas fases de ocupação da cidade medieval.

Em 2026, a equipe conseguiu alcançar as camadas mais antigas do sítio depois de anos de trabalho. Além do amuleto, arqueólogos relataram a descoberta de um encolpion, tipo de cruz-relicário, e vestígios de uma oficina de joalheria. A oficina é particularmente importante porque os pesquisadores consideram possível que o zmeevik tenha sido produzido localmente a partir de outro modelo semelhante.

A Universidade Estatal de Novgorod afirma que a tradição desses medalhões chegou à antiga Rus por influência bizantina. O objeto, portanto, não aponta apenas para crenças pessoais: ele também sugere conexões culturais com o Império Bizantino, circulação de modelos religiosos e atividade artesanal em uma propriedade urbana que ainda estava em formação no século XI.

Trabalho arqueológico no sítio de Pyatnitsky, em Staraya Russa. Foto: Novgorod State University.

O achado também se encaixa em um cenário de transição religiosa. A presença de um santo cristão em uma face e de um motivo de serpentes na outra mostra que símbolos novos e antigos podiam coexistir no cotidiano, mesmo depois da consolidação de comunidades cristãs. Para Toropov, as duas faces poderiam representar simbolicamente a vitória da luz sobre a escuridão.

Material do amuleto indica que ele pode ter pertencido a um morador de condição intermediária

O medalhão foi feito de uma liga à base de cobre, e não de prata ou ouro. A partir disso, Toropov sugeriu que seu dono poderia pertencer ao que chamou de uma espécie de “classe média” da propriedade medieval: alguém com recursos para possuir um objeto especial, mas fora da elite que usava materiais mais caros.

Esse detalhe transforma o amuleto em algo maior do que uma peça de iconografia religiosa. Ele oferece uma pista sobre quem vivia no local, o que essas pessoas podiam comprar ou encomendar e como crenças diferentes eram traduzidas em objetos portáteis usados no corpo.

A descoberta ganhou nova importância porque o trabalho de 2026 marcou a etapa final da grande escavação científica em Pyatnitsky. Segundo a equipe local, as camadas do século XI também preservaram vestígios de atividades artesanais e estruturas associadas à ocupação inicial da área, permitindo reconstruir com mais precisão como Staraya Russa se desenvolveu.

Agora, o amuleto será estudado junto das demais peças recuperadas no sítio. A principal força do achado está justamente em suas duas faces: um objeto de cerca de 1.000 anos que mostra que a mudança religiosa não apagou imediatamente os símbolos anteriores, mas os reorganizou dentro de novas formas de proteção e devoção. Você acha que essa mistura entre tradição cristã e símbolos mais antigos ajuda a entender melhor como as sociedades mudam de crença? Comente e compartilhe a matéria.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

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