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Barco-robô de 1,2 metro atravessa sozinho 5.400 quilômetros do Atlântico, passa 127 dias no mar sem receber comandos da equipe e encerra uma espera de 16 anos pelo primeiro sucesso do desafio
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 16/09/2026 às 09:07
Atualizado em 16/09/2026 às 09:26
Ciência e Tecnologia
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O barco-robô C-Star PC13, de apenas 1,2 metro, atravessou 5.400 km do Atlântico sem intervenção humana e completou o Desafio Microtransat após 127 dias.
Um barco-robô chamado de C-Star PC13 tem apenas 1,2 metro e conseguiu fazer aquilo que mais de 30 tentativas não haviam concluído em 16 anos: atravessar o Atlântico de forma totalmente autônoma dentro das regras do Desafio Microtransat. A pequena embarcação da britânica Oshen chegou à zona de chegada a leste de Barbados às 9h56 UTC de 13 de setembro de 2026, depois de permanecer 127 dias no mar desde a partida de Gran Canaria, em 7 de maio.
Ao fim da missão, haviam sido percorridas 2.926 milhas náuticas, aproximadamente 5.400 quilômetros. Durante todo esse percurso, a equipe em terra não podia corrigir o rumo nem interferir nas decisões de navegação, transformando a chegada em um teste prolongado não apenas de resistência física, mas também do sistema que comandava a embarcação.
Barco-robô C-Star PC13 precisou tomar decisões sem ajuda da equipe
A dificuldade da Microtransat começa pelas próprias regras. Depois da largada, qualquer intervenção humana capaz de alterar as decisões ou a trajetória da embarcação elimina a proposta de autonomia integral.
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Isso significa que o C-Star PC13 precisou lidar sozinho com mudanças de vento, correntes marítimas e disponibilidade de energia ao longo de meses. O software desenvolvido pela Oshen analisa continuamente essas condições, além do nível da bateria, para decidir como manter uma posição ou avançar até destinos previamente definidos.
Outra limitação está no tamanho. Os barcos participantes não podem ultrapassar 2,4 metros, e o modelo vencedor mede apenas metade desse limite. A pequena área disponível também restringe o espaço para painéis solares e, consequentemente, a eletricidade disponível para computadores e outros sistemas de bordo.
Foi essa combinação entre autonomia, dimensões reduzidas e tempo de exposição ao oceano que manteve a categoria sem vencedor durante tantos anos.
C-Star PC13 chegou ao resultado depois de duas tentativas que terminaram antes do destino
A conquista de 2026 foi a terceira investida da Oshen no desafio. O caminho até Barbados incluiu experiências que terminaram muito antes da linha de chegada, mas ajudaram a modificar a tecnologia usada posteriormente.
Em 2023, a primeira tentativa durou apenas 20 dias e avançou cerca de 10 quilômetros. Dois anos depois, a empresa voltou ao Atlântico com uma embarcação modificada, desta vez partindo de Plymouth.
A segunda viagem foi muito mais longa. O barco permaneceu 277 dias navegando e completou aproximadamente três quartos do percurso antes de perder a vela durante condições de mar agitado.
A empresa não abandonou o projeto depois desse episódio. O aprendizado acumulado nessas viagens, somado a aproximadamente mil dias de operações marítimas realizadas pelos C-Stars, foi incorporado às missões seguintes.
Foi nesse processo que o barco-robô deixou de ser apenas uma plataforma criada para tentar vencer uma competição e passou a operar também em atividades de coleta de informações no oceano.
Barco-robô já é usado para acompanhar oceanos, embarcações e infraestrutura
Os pequenos C-Stars funcionam como plataformas móveis de sensores e podem atuar individualmente ou em grupos chamados pela empresa de “constelações”.
Nessas operações, os barcos chegam a registrar até 2 milhões de pontos de dados por dia. Entre as medições estão temperatura da superfície do mar, temperatura e umidade do ar, pressão atmosférica, salinidade e densidade da água.
As aplicações citadas pela Oshen vão além da pesquisa oceanográfica. Os equipamentos também são usados em atividades relacionadas à proteção de cabos e oleodutos submarinos, acompanhamento de pesca ilegal e monitoramento de navios-tanque ligados a frotas clandestinas.
Para cientistas, a mesma plataforma pode fornecer informações sobre clima, oceano e vida selvagem sem exigir uma tripulação embarcada durante longos períodos.
A travessia do C-Star PC13, portanto, colocou em uma única missão uma tecnologia que já vinha sendo submetida a tarefas prolongadas em ambientes marítimos diferentes.
Outro barco-robô entrou na parede do olho de furacão categoria 5
Um ano antes da conclusão da Microtransat, outro equipamento da mesma família havia sido submetido a uma situação extrema.
Em setembro de 2025, três C-Stars trabalhavam em uma missão para a NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, quando interceptaram o furacão Humberto. Um deles, identificado como C-Star PC8, avançou diretamente para a parede do olho enquanto o fenômeno estava classificado como categoria 5.
A embarcação enfrentou ondas de aproximadamente 10 metros e ventos superiores a 240 km/h durante horas. Mesmo nessas condições, continuou transmitindo informações em tempo real, que posteriormente foram utilizadas em previsões oficiais.
Segundo as informações sobre o projeto, os C-Stars permanecem como as únicas embarcações de superfície não tripuladas a conseguir esse tipo de entrada em uma tempestade dessa intensidade.
O C-Star PC13 não atravessou um furacão durante seu percurso transatlântico, mas também encontrou instabilidade. Entre 28 e 29 de agosto, aproximadamente no 113º dia da viagem, passou pelo sistema de baixa pressão em desenvolvimento associado à tempestade Dolly.
Desafio resistiu a mais de 30 tentativas desde 2010
A chegada a Barbados encerrou uma sequência que envolveu instituições de diferentes países.
Mais de 30 tentativas de completar o desafio haviam ocorrido desde 2010. Entre os participantes estavam organizações como a Universidade de Xangai, a École Navale da França e a Academia Naval dos Estados Unidos, que tentou realizar a travessia seis vezes.
A Microtransat foi criada pelos acadêmicos Mark Neal, da Universidade de Aberystwyth, e Yves Briere, do Institut Supérieure de l’Aéronautique et de l’Espace, em Toulouse.
Embora seja apresentada como uma competição amigável, o desafio exige que as pequenas embarcações atravessem o Atlântico sem receber assistência depois de iniciada a viagem. A combinação dessas condições explica por que completar o percurso se mostrou mais difícil do que simplesmente colocar um barco autônomo no oceano.
O modelo britânico precisou ainda atravessar áreas com rotas marítimas movimentadas e lidar com as condições de vento encontradas durante os meses em mar aberto.
Chegada do C-Star PC13 também fechou uma história iniciada na universidade
Para Anahita Laverack, CEO e cofundadora da Oshen, a conquista possui um significado que antecede a própria criação da empresa. Ela contou que conheceu o Desafio Microtransat quando ainda estava na universidade e que a competição participou da inspiração para fundar a companhia.
Mesmo durante as últimas horas da travessia, a equipe ainda não considerava a missão garantida. Depois de mais de quatro meses navegando, permanecia a incerteza sobre a capacidade da embarcação de efetivamente cruzar a zona determinada como chegada.
A conclusão tornou-se, assim, uma validação prática do trabalho realizado ao longo de sucessivas versões do projeto. A mesma família de pequenos veleiros que hoje coleta milhões de registros ambientais e participa de missões marítimas começou também perseguindo uma travessia que ninguém havia conseguido completar dentro das regras de autonomia integral.
Fonte
eco magazine
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

