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Barco sem ninguém a bordo passou 330 dias trabalhando no mar brasileiro, comandou robô submarino da costa e eliminou mais de 15 mil horas de exposição humana offshore
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 30/09/2026 às 13:25
Atualizado em 30/09/2026 às 13:50
Setor Offshore
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Fugro Vaquita realizou 330 dias de inspeções offshore no Brasil sem tripulação a bordo e eliminou 15,4 mil horas de exposição humana no mar.
Segundo a Fugro, em campanha iniciada em fevereiro de 2025 e concluída após 330 dias no litoral brasileiro, o Fugro Vaquita trabalhou para a Petrobras sem nenhuma pessoa embarcada. O pequeno navio não tripulado levou consigo um robô submarino elétrico, enquanto pilotos e especialistas permaneceram em terra comandando as inspeções por conexão remota. Até janeiro de 2026, foram concluídas 46 operações em estruturas offshore, sem acidentes de segurança.
O resultado divulgado pela empresa ganhou novo destaque em 17 de setembro de 2026, durante as discussões da ROG.e sobre automação offshore. A Fugro calcula que a campanha retirou 15.400 horas de exposição de trabalhadores no mar e evitou aproximadamente 4.050 toneladas de CO₂, enquanto o sistema inspecionava cascos, estruturas metálicas e equipamentos submarinos em profundidades de até 250 metros.
O Fugro Vaquita tem apenas 12 metros e trabalha sem tripulação
O Fugro Vaquita pertence à família Blue Essence de USVs, sigla em inglês para embarcações de superfície não tripuladas. A própria Fugro informa que o modelo mede cerca de 12 metros de comprimento e foi desenvolvido para executar trabalhos marítimos sem manter uma equipe navegando a bordo.
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Isso muda completamente a configuração de uma campanha offshore. Em um navio convencional, é preciso transportar oficiais, marinheiros, técnicos de ROV, especialistas em inspeção, pessoal de apoio e suprimentos suficientes para manter toda essa equipe no oceano.
No Vaquita, não existe acomodação convencional para uma tripulação operacional permanente. O espaço e o consumo de energia podem ser concentrados nos equipamentos necessários à missão.
Um robô elétrico desce do barco e trabalha debaixo d’água
O elemento que permite ao pequeno navio inspecionar estruturas submarinas é o Blue Volta eROV, um veículo operado remotamente e movido por eletricidade.
ROV significa Remotely Operated Vehicle. Em palavras simples, trata-se de um robô submarino ligado à embarcação e controlado por profissionais que acompanham imagens, sensores e dados em tempo real.
Durante a campanha brasileira, o equipamento executou inspeções visuais, medições de proteção catódica e limpezas leves em estruturas offshore.
Proteção catódica é o sistema usado para reduzir corrosão em estruturas metálicas expostas à água do mar. Medir seu funcionamento ajuda a descobrir se partes de uma plataforma ou equipamento submarino estão perdendo proteção contra ferrugem e desgaste.
Operadores ficaram em terra enquanto o robô trabalhava no oceano
O controle da operação foi transferido para um Remote Operations Centre, ou ROC, centro de operações remotas em terra.
Dali, profissionais acompanham posição da embarcação, funcionamento dos sistemas, imagens enviadas pelo ROV e condições da missão. O barco e o robô mantêm comunicação com o centro por sistemas redundantes.
Assista o vídeo
Redundância significa que há mais de um caminho ou equipamento disponível para funções críticas. Se uma ligação falha, outra pode manter a comunicação necessária para controlar a missão.
A Fugro afirma que 100% das operações da campanha foram realizadas remotamente, sem trabalhadores embarcados no Vaquita durante as atividades.
Foram 46 inspeções em cascos, estruturas e equipamentos submarinos
Ao longo da campanha, o conjunto formado pelo USV e pelo eROV concluiu 46 operações de inspeção.
O trabalho alcançou cascos, estruturas conhecidas no setor como jackets e equipamentos instalados abaixo da superfície. Jackets são grandes estruturas metálicas que sustentam determinadas plataformas fixas sobre o fundo do mar.
As inspeções chegaram a 250 metros de profundidade, faixa suficiente para atender parte importante das estruturas marítimas incluídas no programa.
Câmeras instaladas no robô permitem observar corrosão, incrustações, danos aparentes e condições gerais de componentes. Sensores acrescentam informações que não poderiam ser obtidas apenas pelas imagens.
A campanha retirou 15.400 horas de trabalhadores do ambiente offshore
A diferença mais clara entre esse modelo e uma operação tradicional aparece na exposição humana.
A Fugro calculou que o uso do Vaquita eliminou 15.400 horas de trabalho offshore durante a campanha. Isso não significa a eliminação do emprego dos especialistas envolvidos, mas a transferência de parte das funções para um ambiente em terra.
Pilotos de ROV, técnicos e outros profissionais continuam necessários. O que muda é o lugar onde executam parte de suas atividades.
Em vez de permanecerem embarcados e sujeitos a deslocamento marítimo, ondas, transferência de pessoal e longos períodos longe de casa, os operadores podem trabalhar dentro do centro remoto.
Um navio convencional consome em um dia o que o Vaquita usa em 15
No estudo de caso da campanha brasileira, a Fugro afirma que um navio convencional de suporte remoto pode consumir em um único dia aproximadamente o que um USV utiliza durante 15 dias.
Grandes embarcações precisam movimentar cascos muito mais pesados e manter sistemas de geração, climatização, acomodação, cozinha, iluminação e suporte para dezenas de pessoas.
O Vaquita elimina boa parte dessa estrutura. O resultado divulgado pela companhia foi uma redução estimada de 4.050 toneladas de CO₂ durante a campanha.
A Fugro compara esse volume às emissões anuais aproximadas de cerca de 2 mil carros.
O projeto começou com testes remotos antes do barco não tripulado
A mudança não ocorreu de uma vez. Petrobras e Fugro já vinham testando controle remoto de equipamentos submarinos no Brasil.
Em março de 2023, as empresas anunciaram a conclusão da primeira inspeção submarina remota desse tipo no país. Naquela fase, o ROV ainda era lançado a partir do navio tripulado Fugro Aquarius.
Assista o vídeo
A diferença estava no comando. O robô foi pilotado por profissionais que permaneciam em um centro de operações em Aberdeen, na Escócia, usando uma conexão de dados de alta velocidade disponibilizada pela Petrobras.
A etapa seguinte foi retirar também a grande embarcação tripulada de parte dessas missões.
Petrobras ampliou o projeto antes da campanha de 330 dias
Em dezembro de 2024, a Fugro anunciou que a Petrobras havia contratado a introdução do sistema Blue Essence no Brasil.
O plano previa inspeções totalmente remotas de infraestrutura submarina em águas rasas, utilizando o Vaquita e o Blue Volta. O início dos trabalhos estava previsto para janeiro de 2025.
Naquele momento, a Fugro calculava que sua solução poderia gerar até 95% menos emissões que operações realizadas com embarcações convencionais de apoio, dependendo das condições da missão.
A campanha que começou em fevereiro acabou mostrando como a tecnologia se comportava durante centenas de dias de atividade real.
Comunicação precisa funcionar mesmo quando o barco está longe da costa
Retirar pessoas da embarcação cria um novo problema: tudo passa a depender de comunicação confiável.
O operador precisa saber onde o navio está, acompanhar seus sensores e receber vídeo do robô submarino. Comandos enviados de terra precisam chegar ao sistema no mar com rapidez suficiente para executar tarefas delicadas.
Por isso, a Fugro usou comunicações redundantes para manter ligação contínua entre o Vaquita e o centro de operações.
O ambiente digital também permite que operador offshore, especialistas e cliente acompanhem os dados praticamente ao mesmo tempo. Uma anomalia encontrada durante uma inspeção pode ser analisada por profissionais que estão a centenas de quilômetros da estrutura.
A tecnologia ainda encontrou limitações durante a campanha
A própria Fugro registrou pontos que precisam evoluir antes de ampliar ainda mais esse tipo de operação.
O pacote de ferramentas do ROV apresentou limitações para determinadas atividades, enquanto a velocidade de deslocamento do USV e o tempo gasto no porto foram identificados como áreas que podem melhorar em futuras campanhas.
Esse detalhe é importante porque um pequeno USV não substitui automaticamente todos os navios offshore.
Trabalhos pesados, intervenções complexas, grandes içamentos e determinadas operações submarinas continuam exigindo embarcações maiores e equipes embarcadas.
A mudança acontece primeiro nas tarefas que podem ser realizadas por sensores, câmeras e pequenos equipamentos robotizados.
Fugro já passou de 1 milhão de horas em operações remotas
O trabalho brasileiro faz parte de uma mudança maior na frota da empresa. A Fugro informa ter ultrapassado 1 milhão de horas de operações remotas, executadas a partir de dez centros espalhados pelo mundo e supervisionadas em terra durante 24 horas por dia.
A companhia utiliza USVs para levantamentos do fundo do mar, inspeção de dutos, infraestrutura energética e outras atividades marítimas. Em diferentes projetos, afirma alcançar reduções de até 95% no consumo de combustível em comparação com embarcações convencionais.
O Brasil passou a ser uma das áreas onde esse modelo está sendo aplicado diretamente à manutenção de infraestrutura offshore em operação.
Petrobras também mantém contratos com grandes navios de ROV
A chegada dos barcos não tripulados não encerra a demanda por embarcações maiores. Em junho de 2025, a Fugro anunciou que recebeu da Petrobras quatro contratos de vários anos para inspeção e monitoramento de infraestrutura submarina brasileira.
Cada contrato foi associado a uma embarcação dedicada, sendo duas operadas pela própria Fugro e duas por empresas parceiras. Todas devem trabalhar com ROVs modernos para inspeções submarinas. Os acordos têm quatro anos de duração, com possibilidade de extensão por mais um.
O cenário que começa a aparecer é uma frota combinada. Grandes navios assumem intervenções complexas, enquanto pequenas embarcações não tripuladas podem executar inspeções rotineiras com menos pessoas no mar.
Barco sem tripulação abre uma nova forma de trabalhar offshore
Durante 330 dias, o Fugro Vaquita mostrou no litoral brasileiro que uma parte das atividades offshore pode ser separada fisicamente dos trabalhadores responsáveis por executá-las.
O barco permaneceu no mar. O robô mergulhou até 250 metros. Câmeras e sensores analisaram estruturas. Mas os profissionais que comandavam a operação permaneceram em terra.
O resultado final foi de 46 inspeções, zero acidentes de segurança, 15.400 horas de exposição offshore eliminadas e cerca de 4.050 toneladas de CO₂ evitadas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

