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Brasileiros trocam o Brasil pela Noruega interessados na segurança, expediente que termina entre 15h e 16h, licença parental e segurança, mas enfrentam frio, idioma e mercado baseado em contatos
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 02/09/2026 às 06:13
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Brasileiras que vivem na Noruega relatam expediente encerrado entre 15h e 16h, segurança e mais tempo para a família, mas também desafios com idioma, frio, amizades e mercado de trabalho.
Encerrar o expediente entre 15h e 16h, buscar os filhos antes de a creche fechar e ainda ter parte da tarde disponível para atividades familiares faz parte de uma rotina que surpreendeu brasileiras que se mudaram para a Noruega. Para Camilla Wirtti, de 41 anos, e Raquel Fernandes Batista Araújo, de 46, a diferença mais marcante não está apenas no número de horas trabalhadas, mas na forma como carreira e vida pessoal ocupam espaços distintos.
As experiências foram relatadas à EXAME em reportagem publicada em 5 de julho de 2026. Camilla vive no país desde 2007, enquanto Raquel chegou em 2020. Em momentos diferentes, as duas encontraram na Noruega um mercado que cobra resultados, mas no qual permanecer muitas horas no escritório não aparece necessariamente como sinônimo de produtividade.
Expediente termina cedo porque a própria rotina das famílias acompanha esse horário
Raquel percebeu a diferença ao comparar a rotina que tinha no Brasil com aquela encontrada depois da mudança. Antes, precisava deixar o escritório por volta das 18h30 para chegar à creche a tempo de buscar as filhas. Na Noruega, segundo ela, as instituições normalmente encerram as atividades muito antes.
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“As creches normalmente fecham às 16h30. Isso faz com que praticamente todo mundo saia do trabalho entre 15h30 e 16h”, explicou. A organização dos horários permite que compromissos profissionais, cuidados domésticos e participação na vida dos filhos sejam distribuídos de outra maneira ao longo do dia.
Camilla observou comportamento semelhante nos escritórios. “Não é incomum que quem trabalha em escritório termine o expediente entre 15h e 16h. Isso faz uma diferença enorme na rotina das famílias”, afirmou.
Tempo depois do trabalho inclui escola, esporte e participação comunitária
Sair mais cedo não significa necessariamente passar o restante do dia sem compromissos. Para famílias com crianças, parte desse período é utilizada em atividades escolares, esportivas e comunitárias que contam com a participação direta dos responsáveis.
Camilla cita os chamados dugnads, mutirões voluntários promovidos por escolas, associações e clubes esportivos. Pais e outros moradores colaboram com diferentes tarefas, formando uma estrutura de participação social que depende da disponibilidade das famílias.
“Na prática, muitas dessas atividades simplesmente não funcionariam sem a participação dos pais”, explicou. Essa possibilidade ajuda a resumir uma das diferenças percebidas por ela depois de se estabelecer na Noruega: o tempo fora do emprego continua sendo tratado como parte importante da rotina.
Camilla chegou para ficar um ano e permanece no país desde 2007
Quando desembarcou em Stavanger, Camilla era recém-formada e não planejava construir uma vida definitiva no exterior. O objetivo inicial era permanecer aproximadamente um ano, conhecer outra cultura, aprender um idioma e experimentar um cotidiano diferente daquele vivido no Brasil.
O projeto temporário mudou completamente. Dezenove anos depois, ela continuava morando na Noruega, havia se casado e formado uma família. Ao longo desse período, passou a observar também como políticas voltadas aos pais interferiam na relação entre emprego e criação dos filhos.
No nascimento da primeira filha, Camilla e o marido optaram por aproximadamente 14 meses de afastamento remunerado com 80% do salário. Na segunda experiência, escolheram um ano de licença recebendo 100% da remuneração, conforme relatado por ela à revista.
Licença parental busca dividir responsabilidade entre os responsáveis
Outro aspecto destacado por Camilla foi a reserva de parte da licença para o outro responsável pela criança. Segundo seu relato, esse período não pode simplesmente ser transferido integralmente para a mãe, o que incentiva uma divisão maior dos cuidados nos primeiros meses.
“Vejo isso como um incentivo para que os dois pais participem ativamente dos primeiros meses de vida da criança”, afirmou. Para ela, o mecanismo também reduz a possibilidade de apenas a mulher permanecer afastada do mercado por um período prolongado.
Camilla atribui parte da segurança encontrada nas relações profissionais à presença dos sindicatos. Segundo sua experiência, essas organizações participam de negociações salariais e discussões sobre condições de trabalho, além de oferecer apoio aos trabalhadores quando surgem problemas.
Segurança surpreendeu brasileira antes mesmo de sua entrada no mercado
Para Raquel, um dos primeiros choques culturais não aconteceu dentro de uma empresa. Durante os deslocamentos de trem, ela começou a observar passageiros deixando objetos pessoais nos bancos enquanto se afastavam por alguns minutos.
“Eu pegava trem todos os dias e via pessoas deixando computador, celular e bolsa no banco para ir ao banheiro. Ninguém mexia”, contou. A cena se tornou uma das primeiras referências utilizadas por ela para dimensionar a sensação de segurança percebida na Noruega.
Outro hábito também chamou sua atenção: bebês dormindo do lado de fora de cafeterias enquanto os responsáveis permaneciam dentro dos estabelecimentos. Conforme Raquel, a prática é vista com naturalidade pelos moradores e não provoca a mesma sensação de insegurança que poderia causar em outros países.
Entrar no mercado de trabalho foi mais difícil do que entender a rotina
A experiência profissional de Raquel, contudo, mostrou que qualidade de vida não elimina barreiras para estrangeiros. Ela chegou a Sandefjord em 2020, no começo da pandemia, depois que o marido foi expatriado.
Conseguir uma oportunidade exigiu tempo e construção de contatos. Segundo a executiva, ela descobriu durante esse processo que uma grande parcela das oportunidades profissionais circulava por meio de indicações, aumentando o peso do networking para quem ainda não possuía uma rede local.
“Depois descobri que cerca de 80% das oportunidades são preenchidas por indicação”, disse. A porcentagem corresponde à experiência relatada por Raquel e ajuda a explicar por que simplesmente enviar currículos pode não ser suficiente para alguns estrangeiros que buscam colocação na Noruega.
Criatividade brasileira pode se tornar vantagem, segundo executiva
Depois de entrar no mercado, Raquel chegou ao cargo de vice-presidente global de Comunicação, Marketing e Engajamento da Scatec. Na avaliação dela, algumas características desenvolvidas por profissionais brasileiros podem ser valorizadas pelas empresas norueguesas.
“O brasileiro é muito criativo e aprende a resolver problemas rapidamente. Isso é muito valorizado aqui”, afirmou. Para Raquel, essa flexibilidade pode ganhar importância enquanto o país amplia projetos relacionados à transição energética e demanda profissionais para diferentes atividades.
Sua trajetória, porém, mostra que essa vantagem não elimina a necessidade de construir relacionamentos profissionais. O acesso inicial às empresas foi justamente uma das etapas consideradas mais difíceis durante a adaptação.
Assista o vídeo
Frio, neve e amizades estão entre os desafios de viver na Noruega
A diferença climática aparece de maneira bastante concreta no cotidiano. Raquel relata que, durante o inverno, as tarefas domésticas podem incluir a retirada de grandes quantidades de neve acumuladas diante da residência antes mesmo de começar o dia.
Camilla também enfrentou saudade da família e dificuldades relacionadas à alimentação e ao idioma. Para ela, aprender a língua e entender os costumes locais foram passos importantes para deixar de enxergar continuamente a vida no novo país em comparação com o Brasil.
“Quando você decide fazer parte da sociedade, aprende o idioma, entende a cultura e deixa de comparar tudo com o Brasil, a adaptação acontece”, afirmou Camilla. A experiência construída desde 2007 fez com que aquilo que deveria durar um ano se transformasse em quase duas décadas.
Fazer amizades pode exigir mais tempo
As relações sociais também aparecem entre os pontos que diferenciam as duas culturas. Raquel sentiu falta da maneira mais espontânea como os contatos pessoais costumam surgir entre brasileiros.
“O brasileiro tem um jeito muito caloroso. Isso faz falta”, disse. Segundo ela, os noruegueses podem se mostrar mais reservados no início de uma relação, embora os vínculos construídos ao longo do tempo tendam a ser duradouros.
Essa diferença também interfere na adaptação profissional, já que relações pessoais e networking podem ter importância para encontrar oportunidades. Para quem chega sem conhecidos, criar uma rede pode exigir paciência tanto no trabalho quanto fora dele.
Vida depois do expediente pesa na decisão de permanecer no país
Mesmo estabelecidas na Noruega, as duas brasileiras mantêm vínculos fortes com o Brasil. Camilla considera passar uma temporada mais longa no país no futuro para aproximar as filhas da família, da cultura brasileira e das experiências que fizeram parte de sua infância.
Raquel também sente falta do convívio e do calor humano. Ainda assim, considera que a possibilidade de conciliar carreira, filhos e vida pessoal compensou parte das dificuldades encontradas desde a mudança.
“Você percebe que produtividade não significa passar mais horas trabalhando. A vida continua depois que o expediente acaba”, afirmou Raquel. A frase resume uma das transformações mais significativas relatadas pelas duas brasileiras.
A Noruega, nas experiências de Camilla e Raquel, não aparece como um destino sem dificuldades. Frio prolongado, neve, idioma, construção de amizades e acesso ao mercado profissional podem transformar a adaptação em um processo demorado.
O que diferencia a experiência é a organização do tempo. Em um cotidiano no qual muitas famílias encerram o trabalho antes das 16h, a carreira continua sendo importante, mas não ocupa necessariamente todas as horas disponíveis — e foi justamente essa separação que mais mudou a percepção das duas brasileiras sobre a vida profissional.
Fonte
Exame
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

