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Brigid Lynch entrou em um riacho da Califórnia procurando condições para salvar uma espécie ameaçada de sapo, viu uma “pedra” estranha no fundo e acabou encontrando um dente intacto de mastodonte com pelo menos 10 mil anos

Brigid Lynch entrou em um riacho da Califórnia procurando condições para salvar uma espécie ameaçada de sapo, viu uma “pedra” estranha no fundo e acabou encontrando um dente intacto de mastodonte com pelo menos 10 mil anos

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Brigid Lynch entrou em um riacho da Califórnia procurando condições para salvar uma espécie ameaçada de sapo, viu uma “pedra” estranha no fundo e acabou encontrando um dente intacto de mastodonte com pelo menos 10 mil anos

Escrito por Roberta Souza

Publicado em 11/09/2026 às 17:19

Atualizado em 11/09/2026 às 17:20

Curiosidades

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Geomorfóloga Brigid Lynch fazia um levantamento para recuperar o habitat do sapo-de-pernas-vermelhas quando percebeu um objeto incomum no leito de um riacho. Paleontólogos descobriram que era o molar mais completo de mastodonte-do-Pacífico já encontrado na região, preservado em condição considerada “imaculada” e agora entregue à Universidade Stanford

Brigid Lynch entrou em um riacho nas colinas do condado de San Mateo, na Califórnia, com uma missão bastante diferente daquela que acabaria marcando seu dia. Ela procurava informações que ajudassem a melhorar o habitat do ameaçado sapo-de-pernas-vermelhas-da-Califórnia quando percebeu aquilo que, inicialmente, parecia apenas uma pedra de formato estranho. Segundo reportagem publicada pelo San Francisco Chronicle em 9 de setembro de 2026, uma análise posterior revelou que o objeto era, na realidade, um molar praticamente intacto de um mastodonte-do-Pacífico adulto, animal semelhante a um elefante que desapareceu no final da última Era do Gelo.

O fóssil tem pelo menos cerca de 10 mil anos, embora pesquisadores da Doerr School of Sustainability, da Universidade Stanford, ainda pretendam realizar datação por carbono para determinar sua idade com maior precisão. Entretanto, o estado de conservação já impressionou os especialistas. O paleontólogo Wayne Thompson classificou o objeto como o molar de mastodonte mais completo já encontrado naquela região e disse ter ficado arrepiado ao vê-lo.

A coincidência torna a história ainda mais extraordinária. Lynch estava trabalhando justamente em um projeto destinado a evitar que uma espécie ameaçada desapareça, quando encontrou vestígios de um animal que efetivamente desapareceu há milhares de anos. Agora, cientistas esperam que aquele único dente ajude a reconstruir uma época em que mastodontes dividiam a região da atual Baía de São Francisco com mamutes, lobos-terríveis, felinos-dentes-de-sabre, camelos e preguiças-gigantes.

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Paulo Nogueira

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A cientista procurava informações sobre um sapo ameaçado quando algo com formato estranho apareceu entre as pedras e mudou completamente o objetivo daquele dia

Brigid Lynch trabalha como geomorfóloga na Balance Hydrologics.

Naquele dia, entretanto, paleontologia não estava no roteiro.

Ela realizava levantamentos de campo dentro de uma área preservada pelo Midpeninsula Regional Open Space District, conhecido como Midpen. O trabalho fazia parte de um projeto para melhorar as condições de habitat do sapo-de-pernas-vermelhas-da-Califórnia, espécie ameaçada.

Então, algo chamou sua atenção no riacho.

Parecia uma pedra.

Porém, o formato era estranho demais para simplesmente ignorá-la.

Imagem Ilustrativa

Lynch é geóloga e, portanto, está acostumada a observar formações naturais durante trabalhos de campo.

Mesmo assim, aquele objeto parecia diferente.

Quando o material chegou às mãos de especialistas, a explicação transformou uma pesquisa ambiental de rotina em uma descoberta paleontológica.

Não era uma pedra.

Era um dente.

E não pertencia a nenhum animal vivo naquela floresta.

O molar havia pertencido a um mastodonte-do-Pacífico adulto, o Mammut pacificus.

A descoberta lembra como trabalhos de campo podem revelar aquilo que permaneceu escondido durante períodos extraordinariamente longos. Recentemente, por exemplo, pesquisadores precisaram de mais de três décadas de estudos para acompanhar uma das cascavéis mais raras dos Estados Unidos, até seis filhotes nascerem em poucos dias e abrirem uma nova possibilidade para a conservação da espécie.

O dente estava tão preservado que um paleontólogo acostumado a trabalhar com fósseis disse ter sentido arrepios quando finalmente colocou os olhos sobre ele

Encontrar um fóssil é uma coisa.

Encontrar uma peça praticamente inteira representa outra situação.

O molar descoberto por Lynch chamou atenção justamente pelo estado excepcional de conservação.

Wayne Thompson, proprietário da Pacific Paleontology, analisou o material e o descreveu como o molar de mastodonte mais completo encontrado na região.

Segundo Thompson, o dente estava em condição “imaculada”.

Além disso, ele descreveu o exemplar como o molar de mastodonte mais espetacular que já havia visto.

O impacto foi imediato.

O paleontólogo contou que sentiu arrepios ao observar o fóssil.

Existe um bom motivo para tanta empolgação.

Um dente pode carregar informações sobre o animal, sua dieta e o ambiente em que viveu.

Nesse caso, existe ainda outra possibilidade importante.

Pesquisadores querem descobrir quando exatamente aquele mastodonte viveu.

A estimativa inicial coloca o fóssil na faixa de pelo menos 10 mil anos. Porém, Stanford pretende realizar datação para determinar sua idade com maior precisão.

O animal que perdeu aquele molar podia parecer um elefante moderno à distância, mas pertencia a uma espécie que a ciência só separou de outro mastodonte em 2019

O mastodonte-do-Pacífico tem nome científico Mammut pacificus.

E existe uma curiosidade importante.

A ciência só o reconheceu formalmente como uma espécie diferente do mastodonte-americano em 2019.

Antes disso, os animais encontrados no oeste norte-americano eram associados ao parente mais conhecido.

Entretanto, análises revelaram diferenças anatômicas suficientes para separar as espécies.

Entre elas aparecem justamente os dentes.

Os mastodontes-do-Pacífico possuíam dentes mais estreitos, além de ossos das pernas mais robustos e diferenças nas presas.

Sua distribuição também era ampla.

Esses gigantes ocuparam territórios que atualmente correspondem à Califórnia, Oregon, regiões do norte das Montanhas Rochosas e áreas do México.

Portanto, a Califórnia que conhecemos hoje já foi território de enormes mamíferos com trombas e presas caminhando entre suas florestas.

Enquanto mamutes procuravam gramíneas, os mastodontes entravam nas florestas e arrancavam folhas, brotos e frutos com a tromba para sobreviver

Existe uma tendência de colocar mamutes e mastodontes praticamente na mesma categoria.

Porém, eles tinham diferenças importantes.

Os mamutes eram mais associados ao consumo de gramíneas.

Já os mastodontes funcionavam como browsers, animais que exploravam vegetação arbustiva e florestal.

Com suas longas trombas, podiam retirar folhas, brotos e frutos das plantas, comportamento comparável ao observado em elefantes modernos.

Isso significa que o mastodonte responsável pelo dente encontrado no riacho provavelmente conheceu uma Califórnia muito diferente daquela ocupada atualmente por cidades, estradas e milhões de pessoas.

Ainda assim, alguns elementos daquela paisagem permanecem.

As florestas de sequoias da região, por exemplo, ajudam a estabelecer uma conexão entre o presente e aquele passado.

E é justamente dentro de uma paisagem florestal que o fóssil reapareceu milhares de anos depois.

Quando esse mastodonte ainda caminhava pela Califórnia, ele podia encontrar pumas e coiotes que existem até hoje, mas também cruzava com lobos-terríveis, mamutes e preguiças gigantes

Talvez a parte mais cinematográfica da descoberta esteja nos vizinhos daquele animal.

O mastodonte não vivia sozinho.

Na paisagem da Baía de São Francisco durante o Pleistoceno havia animais que reconheceríamos imediatamente hoje.

Pumas.

Linces.

Coiotes.

Texugos.

Porém, bastaria continuar caminhando para encontrar criaturas que desapareceram completamente.

Entre elas estavam felinos-dentes-de-sabre, lobos-terríveis, mamutes-colombianos, camelos ocidentais e gigantescas preguiças-terrestres-de-Jefferson.

Assim, aquele único dente ajuda a reconstruir uma Califórnia que pareceria quase irreconhecível para alguém transportado ao passado.

A paisagem abrigava uma megafauna extraordinária.

Depois, muitas dessas espécies desapareceram.

Por isso, estudar animais ameaçados hoje e fósseis de animais extintos cria uma conexão particularmente interessante.

Afinal, pesquisadores tentam compreender por que determinadas espécies conseguem persistir enquanto outras desaparecem para sempre.

Esse tipo de mistério também aparece em espécies atuais. Cientistas descobriram recentemente, por exemplo, uma característica inédita em mais de 500 espécies de morcegos que pode ajudar a explicar como esses animais convivem com determinados vírus sem desenvolver os mesmos quadros graves observados em outros mamíferos.

A Era do Gelo terminou, os gigantes desapareceram e milhares de anos se passaram até um riacho finalmente devolver uma parte daquele animal à superfície

O Pleistoceno começou aproximadamente 2,5 milhões de anos atrás.

Foi durante esse enorme intervalo que mastodontes-do-Pacífico ocuparam a região.

Entretanto, sua história terminou por volta de 11.700 anos atrás, juntamente com profundas transformações ambientais e o desaparecimento de grande parte da megafauna norte-americana.

Em escala humana, 10 mil anos representam um período quase incompreensível.

Em escala geológica, porém, isso aconteceu relativamente recentemente.

Imagem Ilustrativa

Essa diferença ajuda a explicar uma observação feita pelos próprios pesquisadores.

A presença de mastodontes naquela mesma paisagem não ocorreu há tanto tempo assim quando pensamos geologicamente.

E então existe o dente.

O animal viveu.

Perdeu ou deixou aquele molar.

O ambiente mudou.

A espécie desapareceu.

Milhares de anos passaram.

Até que o riacho finalmente expôs o objeto e uma cientista percebeu que aquela “pedra” merecia uma segunda olhada.

Agora Stanford tentará descobrir a idade exata do molar e transformará o fóssil em um modelo tridimensional para que a peça possa ser estudada sem colocar o original em risco

O destino do fóssil já foi definido.

O Midpeninsula Regional Open Space District doou o molar à Universidade Stanford, onde o material poderá ser preservado e estudado.

Pesquisadores da Doerr School of Sustainability pretendem realizar a datação do exemplar.

Além disso, a equipe planeja produzir um escaneamento tridimensional do dente.

A partir desses dados, cientistas poderão criar réplicas impressas em 3D para atividades educacionais.

Isso permite uma solução interessante.

O fóssil original permanece protegido.

Enquanto isso, cópias extremamente detalhadas podem chegar a estudantes, pesquisadores e exposições.

Assim, um objeto que passou milhares de anos escondido num riacho pode agora ser reproduzido quantas vezes forem necessárias sem destruir ou desgastar a peça original.

A localização exata continuará escondida porque autoridades não querem que a descoberta transforme riachos protegidos em pontos de caça clandestina a fósseis

Existe uma informação que os pesquisadores decidiram não divulgar.

O local exato da descoberta.

O San Francisco Chronicle informou apenas que o fóssil apareceu em um riacho dentro de uma reserva do Midpen, nas colinas do condado de San Mateo.

O Los Angeles Times acrescentou que a descoberta ocorreu numa área de floresta de sequoias e que as autoridades não permitem que visitantes procurem fósseis nos cursos d’água protegidos.

Portanto, revelar as coordenadas poderia provocar justamente aquilo que os gestores ambientais querem evitar.

Pessoas entrando no riacho.

Removendo sedimentos.

Escavando.

E potencialmente destruindo tanto o ambiente quanto outros fósseis ainda desconhecidos.

Por isso, o segredo que o riacho guardou por milhares de anos continuará parcialmente protegido.

Sabemos o condado.

Sabemos o tipo de ambiente.

Mas não exatamente onde o mastodonte deixou seu dente.

A maior ironia da descoberta está no motivo que levou Brigid até aquele riacho porque ela tentava impedir uma extinção quando encontrou o vestígio de uma espécie que já desapareceu

Existe uma conexão difícil de ignorar.

Brigid Lynch estava naquele lugar por causa de conservação ambiental.

Mais especificamente, o levantamento apoiava um projeto destinado a melhorar o habitat do ameaçado sapo-de-pernas-vermelhas-da-Califórnia.

Então, durante esse trabalho, ela encontrou um mastodonte.

Ou pelo menos uma pequena parte dele.

Uma espécie ameaçada no presente levou uma pesquisadora diretamente ao vestígio de uma espécie extinta no passado.

Christine Garcia, curadora e gerente da coleção de espécimes geocientíficos de Stanford, destacou justamente a importância dos fósseis para observar a biodiversidade passada. Segundo ela, estudar esses registros ajuda cientistas a compreender ecossistemas antigos e pode contribuir para decisões melhores sobre como proteger a biodiversidade atual.

Matt Sharp Chaney, biólogo do Midpen, também apontou que compreender quando os mastodontes desapareceram pode fornecer informações úteis para pensar sobre a conservação de espécies atuais.

Essa preocupação ganha peso quando lembramos como populações pequenas podem chegar perigosamente perto do desaparecimento. Em outro projeto de conservação, pesquisadores passaram anos tentando localizar uma cascavel tão rara que encontrar apenas um exemplar podia exigir centenas de horas de procura.

O que começou como uma pedra estranha no fundo da água terminou abrindo uma janela para uma Califórnia onde elefantes peludos, lobos gigantes e felinos de dentes enormes ainda caminhavam

A sequência inteira parece improvável.

Uma geomorfóloga entra numa área protegida.

Seu objetivo é ajudar um sapo ameaçado.

Ela atravessa um riacho.

Então percebe uma pedra estranha.

Olha novamente.

Especialistas analisam o objeto.

E aquilo que parecia apenas mais uma rocha se transforma em um molar praticamente intacto de um mastodonte adulto que caminhou pela Califórnia há pelo menos 10 mil anos.

Agora, o dente seguirá para novas análises.

Stanford tentará determinar sua idade com maior precisão.

Pesquisadores produzirão um modelo tridimensional.

Paleontólogos poderão comparar suas características com outros fósseis.

E aquele único objeto poderá ajudar a preencher mais uma pequena lacuna na história da megafauna que desapareceu da América do Norte.

Entretanto, talvez nenhuma análise científica retire da descoberta sua coincidência mais impressionante.

Brigid Lynch entrou naquele riacho tentando ajudar a impedir que um animal desapareça.

E saiu de lá carregando o vestígio de outro que desapareceu milhares de anos antes.

E você, o que acha mais impressionante nessa descoberta — um dente conseguir permanecer praticamente intacto por pelo menos 10 mil anos ou ele ter sido encontrado por acaso durante uma pesquisa que nem sequer procurava fósseis?

Fonte

San Francisco Chronicle


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

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