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Capturada ainda filhote na África, elefanta passa 29 anos presa à rotina de um circo, atravessa décadas viajando de apresentação em apresentação e, depois de ser retirada pelas autoridades, chega a um santuário de mais de 3 mil acres, onde finalmente volta a sentir a lama, derrubar árvores e conviver com outros elefantes como nunca pôde antes
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 02/09/2026 às 23:39
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Capturada aos 2 anos, Nosey passou 29 anos como única elefanta de um circo até ser apreendida e começar uma nova vida em um santuário no Tennessee.
Nosey tinha aproximadamente 2 anos quando foi retirada da natureza no Zimbábue, em 1984. Ainda filhote, foi levada para os Estados Unidos e, depois de passar por diferentes proprietários, acabou comprada em 1988 por Hugo Liebel. A partir daí começou uma rotina que se estenderia por 29 anos como a única elefanta do Liebel Family Circus, percorrendo cidades americanas para apresentações e outras atividades. Essa trajetória terminou abruptamente em novembro de 2017, quando autoridades de controle animal do condado de Lawrence, no Alabama, apreenderam Nosey depois que uma agente relatou sinais de possível abuso.
Em 9 de novembro de 2017, a elefanta chegou ao The Elephant Sanctuary, em Hohenwald, Tennessee. O que inicialmente seria um abrigo temporário acabou se tornando sua casa definitiva depois que decisões judiciais mantiveram a apreensão.
Nosey foi capturada no Zimbábue quando tinha apenas dois anos
A história de Nosey começou muito antes de sua vida em circos. Ela nasceu no Zimbábue em 1982 e foi capturada na natureza em 1984. Segundo o histórico mantido pelo The Elephant Sanctuary, sua retirada ocorreu dentro de uma operação apresentada na época como o resgate de 63 filhotes que seriam afetados por uma ação governamental de abate populacional.
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Paulo Nogueira
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Os animais foram levados para a propriedade Jumbolair Estate, em Ocala, na Flórida, pertencente a Arthur Jones, inventor dos equipamentos de musculação Nautilus.
Jones pretendia estabelecer nos Estados Unidos aquilo que descrevia como uma verdadeira manada de elefantes africanos.
O projeto não avançou como planejado.
Em 1986, Nosey foi transferida para David Meeks, da Meeks Company, na Carolina do Sul. Dois anos depois, em 1988, sua vida mudaria novamente.
Em 1988, ela foi comprada pelo proprietário de um circo
Hugo Liebel adquiriu Nosey em 1988. A partir daquele momento, a elefanta passou a viajar com o Liebel Family Circus, também relacionado ao Great American Family Circus.
Assista o vídeo
O dado que torna essa etapa especialmente marcante é a duração.
Nosey permaneceu como a única elefanta artista do circo durante 29 anos. Foram quase três décadas em uma atividade baseada em deslocamentos constantes entre cidades e apresentações ao público.
Ela não fazia parte de uma grande manada de elefantes do circo. Era, segundo o próprio santuário que posteriormente a recebeu, a única elefanta utilizada nas apresentações daquela companhia.
Foram quase três décadas viajando pelos Estados Unidos
Para o público, uma apresentação podia durar apenas alguns minutos. Para Nosey, entretanto, o circo representava uma rotina que se repetiu por décadas.
Ela precisava acompanhar os deslocamentos da companhia de uma cidade para outra, sendo transportada entre diferentes locais enquanto participava das atividades oferecidas pelo grupo.
Ao longo dos anos, organizações de defesa animal e cidadãos passaram a questionar suas condições de manutenção.
O The Elephant Sanctuary registra que diversas pessoas e grupos de proteção animal fizeram campanhas em defesa de Nosey antes de sua apreensão. A situação só teria uma mudança definitiva no fim de 2017.
Uma parada no Alabama mudou toda a vida da elefanta
Em novembro de 2017, o circo estava no Alabama. Foi ali que uma circunstância aparentemente rotineira acabou determinando o futuro de Nosey.
Em 8 de novembro, autoridades do condado de Lawrence apreenderam a elefanta.
Segundo o The Elephant Sanctuary, uma agente de controle animal comunicou às autoridades ter encontrado sinais de abuso, levando ao procedimento de apreensão.
É importante fazer a distinção factual: essa foi a avaliação apresentada pelas autoridades no processo que motivou a retirada do animal. Nosey não foi simplesmente entregue voluntariamente pelo circo ao santuário. Houve intervenção oficial e disputa judicial sobre sua custódia.
Autoridades assumiram temporariamente a custódia de Nosey
Depois da apreensão, o caso chegou rapidamente ao tribunal. O controle animal do condado recebeu inicialmente a custódia temporária, enquanto era necessário decidir onde manter um elefante africano adulto.
Uma instalação convencional de animais domésticos obviamente não possuiria estrutura para isso.
O destino escolhido foi o The Elephant Sanctuary in Tennessee, organização especializada justamente em receber elefantes que passaram a vida em cativeiro.
Em 9 de novembro de 2017, apenas um dia depois da apreensão, Nosey chegou ao local. Naquele momento, ninguém podia garantir que ela permaneceria ali definitivamente.
A nova casa começou com frutas, bambu e folhas de bananeira
A chegada aconteceu tarde da noite. As equipes veterinária e de manejo esperavam Nosey com produtos frescos, bambu e folhas de bananeira.
Assista o vídeo
Segundo o comunicado publicado pelo santuário em 10 de novembro de 2017, a elefanta demonstrou interesse calmo pelo novo ambiente.
Nos primeiros momentos, ela permaneceu separada dos demais residentes. Isso fazia parte do protocolo.
A equipe precisava avaliar seu estado de saúde, necessidades individuais e comportamento antes de permitir maior acesso aos habitats e qualquer aproximação social.
Pela primeira vez, Nosey começou a explorar o habitat do santuário
A mudança seguinte aconteceu rapidamente. Em 11 de novembro de 2017, o santuário registrou Nosey explorando seu habitat pela primeira vez.
Não significava libertá-la na natureza.
Depois de décadas em cativeiro e de uma vida condicionada ao manejo humano, isso não seria uma alternativa responsável.
O modelo do santuário é diferente: oferece áreas extensas e protegidas onde os animais podem escolher se desejam caminhar, pastar, descansar, procurar sombra ou utilizar estruturas internas.
Essa possibilidade de escolha tornou-se uma característica central da vida de Nosey no Tennessee.
Meses depois, ela já rolava na lama e dormia ao sol
Na primavera de 2018, a equipe começou a publicar atualizações sobre comportamentos observados no novo ambiente.
Nosey era vista pastando em colinas cobertas de grama, deitando para cochilar ao sol, criando áreas de lama e brincando na água.
Durante um banho oferecido pelos cuidadores, ela se inclinou na direção da água, movimentou a tromba e depois se deitou para rolar na lama.
Essas atividades podem parecer banais para um elefante.
Dentro daquela história, eram importantes justamente porque surgiam em um ambiente com oportunidades muito maiores de exploração e tomada de decisões.
O santuário passou a observar não apenas o corpo de Nosey, mas também aquilo que ela escolhia fazer quando recebia opções.
O santuário cresceu e hoje possui mais de 3 mil acres
Quando Nosey chegou, o The Elephant Sanctuary já era uma instituição consolidada. Desde então, a propriedade continuou crescendo.
Em 2025, ao completar 30 anos, a organização informou possuir 3.060 acres de território no Tennessee, equivalentes a aproximadamente 1.238 hectares.
É hoje apresentado pela própria instituição como o maior refúgio de habitat natural dos Estados Unidos desenvolvido especificamente para elefantes africanos e asiáticos.
Dentro desse território existem florestas, pastagens, lagoas abastecidas naturalmente, bombas solares de água e celeiros aquecidos para os períodos de frio.
Os animais não utilizam todos os 3.060 acres simultaneamente como uma única manada.
Há habitats e áreas de manejo diferentes, definidos conforme espécie, compatibilidade social, saúde e necessidades individuais.
Nosey começou a derrubar árvores por conta própria
Uma das mudanças mais visíveis em sua rotina aparece no próprio perfil atual mantido pelo santuário. Nosey passou a derrubar árvores.
Não se trata de comportamento destrutivo inesperado. Elefantes modificam os ambientes onde vivem. Podem quebrar galhos, remover cascas, derrubar árvores e abrir caminhos pela vegetação.
O santuário destaca justamente a oportunidade de Nosey realizar esses comportamentos naturais em um ambiente muito mais amplo.
Ela também passou a utilizar áreas de lama, explorar terrenos e participar ativamente de seus próprios cuidados veterinários.
Em 2024, uma câmera registrou Nosey mergulhando completamente em uma lagoa
Sete anos depois da apreensão, as imagens continuavam mostrando novas cenas. Em julho de 2024, durante um dia quente no Tennessee, câmeras do santuário registraram Nosey entrando na lama para se refrescar.
Depois ela foi além. A elefanta mergulhou completamente em uma lagoa, baixou a cabeça sob a água, utilizou a tromba e depois saiu para esfregar o corpo em árvores próximas.
Ela estava com 42 anos.
O episódio foi divulgado pela própria instituição como exemplo de como os diferentes ambientes permitem comportamentos típicos da espécie.
Em 2026, Nosey ainda encontra lugares novos para explorar
A história não terminou alguns meses depois do resgate.
Ela continua. Em 19 de julho de 2026, o santuário publicou uma atualização mostrando Nosey, agora com aproximadamente 44 anos, explorando novas áreas.
Nos meses anteriores, ela havia começado a passar mais tempo em Woodland, uma expansão de 137 acres que conecta diferentes habitats.
Em algumas ocasiões, Nosey percorreu a área durante tanto tempo que os cuidadores precisaram gastar mais tempo para localizá-la.
É um detalhe pequeno, mas talvez seja um dos que melhor ilustram a diferença entre as duas fases de sua vida. Durante décadas, seu deslocamento era definido pelo itinerário de um circo.
Agora, dentro de um ambiente protegido, às vezes são as pessoas que precisam descobrir para onde Nosey decidiu caminhar.
A elefanta capturada aos dois anos passou quase toda a vida sob controle humano
Nosey jamais poderá voltar ao Zimbábue de 1984. Décadas de cativeiro tornam sua história irreversível.
Ela foi retirada da natureza aos dois anos, levada aos Estados Unidos, passou por diferentes proprietários e permaneceu 29 anos viajando como única elefanta de um circo.
Depois vieram a apreensão no Alabama, o tribunal e a transferência para o Tennessee. O contraste está no que aconteceu a seguir.
Em vez de seguir transportada de cidade em cidade para apresentações, Nosey passou a ter florestas, pastagens, água, lama, árvores e oportunidades de interação com outros elefantes.
Hoje, o The Elephant Sanctuary ocupa mais de três mil acres, e Nosey continua sendo uma de suas residentes. Quase uma década depois de deixar o circo, as atualizações não falam sobre números de apresentações ou cidades percorridas.
Falam sobre uma elefanta que mergulha em lagoas, derruba árvores, abre caminhos pela vegetação, cobre o corpo de lama e desaparece por horas em grandes áreas porque decidiu explorar mais longe.
Para um animal que passou 29 anos seguindo o trajeto determinado por um circo itinerante, talvez essa seja a mudança mais profunda de todas: Nosey finalmente passou a ter espaço para escolher o próprio caminho.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

