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Casal encontra pedreira abandonada durante férias, escaneia cavernas com laser e transforma túneis de até 45 metros numa casa subterrânea em ilha espanhola

Casal encontra pedreira abandonada durante férias, escaneia cavernas com laser e transforma túneis de até 45 metros numa casa subterrânea em ilha espanhola

6 min de leitura

Casal encontra pedreira abandonada durante férias, escaneia cavernas com laser e transforma túneis de até 45 metros numa casa subterrânea em ilha espanhola

Escrito por Caio Aviz

Publicado em 11/09/2026 às 14:59

Atualizado em 11/09/2026 às 15:00

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Túneis de uma antiga pedreira de arenito ganham iluminação natural e ambientes residenciais em projeto arquitetônico na ilha espanhola de Menorca.

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Ca’n Terra ocupa cerca de 1.000 m² em Menorca, reúne câmaras abertas manualmente numa antiga pedreira de arenito, vestígios do uso militar durante a Guerra Civil Espanhola e uma intervenção arquitetônica que preservou paredes, pilares e marcas da extração.

Uma antiga pedreira subterrânea encontrada pelos arquitetos Antón García-Abril e Débora Mesa durante férias com os quatro filhos, na ilha de Menorca, na Espanha, ganhou uma nova função depois que o casal decidiu comprar o terreno e estudar as enormes câmaras abertas dentro da rocha.

O lugar havia fornecido o arenito conhecido como marés para construções da ilha. Posteriormente, foi utilizado pelos militares como depósito de munições durante a Guerra Civil Espanhola e permaneceu abandonado por décadas, acumulando entulho, umidade, sujeira e objetos deixados no interior.

Em vez de erguer uma residência convencional sobre o terreno, os fundadores do Ensamble Studio concentraram o projeto no espaço já existente. A estrutura foi mapeada por meio de escaneamento tridimensional a laser, capaz de registrar milhões de pontos e revelar, com precisão milimétrica, a forma das paredes, dos pilares e das galerias.

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Batizada de Ca’n Terra, expressão que pode ser entendida como “casa da terra”, a antiga pedreira possui aproximadamente 1.000 m². Algumas de suas câmaras avançam cerca de 45 metros para dentro da rocha, enquanto o conjunto se estende por aproximadamente 90 metros ao longo da frente rochosa.

A descoberta ocorreu durante uma viagem da família a Menorca. Ao entrarem na pedreira, Antón e Débora encontraram uma sucessão de ambientes altos e irregulares, escavados manualmente por trabalhadores que retiraram blocos de arenito sem a intenção de criar uma casa.

O resultado, porém, já apresentava corredores, salões, pilares e aberturas semelhantes aos elementos de uma construção. Para García-Abril, o lugar era uma espécie de arquitetura escondida, ainda bruta e sem acabamento.

O terreno foi comprado em 2017. A partir daí, o casal e a equipe do escritório passaram vários verões limpando a estrutura, retirando toneladas de materiais acumulados e removendo divisórias construídas na época em que as cavernas eram usadas como depósito militar.

Escavadeiras, pás, vassouras e lavadoras de alta pressão foram utilizadas durante a recuperação. A limpeza retirou mofo e sujeira das superfícies, devolvendo ao arenito sua tonalidade clara e ampliando a capacidade das paredes de refletir a luz natural.

Escaneamento a laser revelou as dimensões da pedreira

Antes que os arquitetos pudessem definir como ocupar a pedreira abandonada, era necessário compreender sua verdadeira escala. O interior era escuro, irregular e formado por câmaras conectadas sem uma organização convencional.

A equipe recorreu ao LiDAR, tecnologia de detecção e medição por luz utilizada em áreas como arqueologia, mineração e levantamentos topográficos. O equipamento lançou milhões de pontos de laser sobre as superfícies e produziu uma representação digital tridimensional das cavernas.

O levantamento permitiu analisar espessuras, alturas, desníveis e conexões que dificilmente seriam percebidos apenas durante uma visita. A partir dos dados, o Ensamble Studio elaborou plantas e cortes da estrutura existente.

Assim, o projeto não começou com um desenho destinado a ser transformado em paredes. O processo ocorreu no sentido inverso: a matéria já estava pronta, e os arquitetos precisaram convertê-la em informação para interpretar como aquele vazio poderia ser habitado.

As câmaras haviam sido abertas pela retirada sucessiva dos blocos de marés. Cada corte permaneceu registrado nas paredes, deixando ranhuras, curvas e marcas produzidas pelas ferramentas dos trabalhadores.

Esses sinais não foram encobertos com revestimentos. Pelo contrário, passaram a integrar a identidade da Ca’n Terra e ajudam a contar a história industrial do espaço.

A intervenção buscou preservar também os grandes pilares deixados para sustentar a massa rochosa. Em alguns pontos, os ambientes alcançam alturas equivalentes a vários pavimentos, enquanto, em outros, corredores estreitos conduzem às partes mais profundas da pedreira.

A fachada praticamente não se parece com a de uma residência. Vista do lado de fora, ela é formada por uma parede rochosa de aproximadamente 18 metros de altura, parcialmente coberta por oliveiras selvagens, cactos e outras plantas.

Entre a vegetação aparecem diferentes entradas, algumas com cerca de nove metros de altura. Essas aberturas dão acesso aos antigos salões de extração, que agora funcionam como ambientes de descanso, convivência e contemplação da paisagem.

Antiga pedreira de arenito transformada em residência subterrânea, com paredes preservadas, mobiliário minimalista e iluminação natural.

Casa subterrânea recebeu luz, ventilação e instalações discretas

Depois do mapeamento e da limpeza, o casal adotou intervenções consideradas mínimas. Pisos de concreto foram executados principalmente nas áreas próximas ao exterior, nivelando trechos antes irregulares e permitindo a instalação dos sistemas necessários.

Essas bases acompanham a topografia das cavernas e incorporam pó do próprio arenito à mistura. Além de formar as superfícies de circulação, elas escondem parte das instalações mecânicas e elétricas, reduzindo a presença visual de tubulações e equipamentos.

Cortinas translúcidas reforçadas foram suspensas em estruturas metálicas embutidas na pedra. As membranas ajudam a impedir a entrada de poeira e animais, controlam a umidade e delimitam áreas mais reservadas sem bloquear completamente a iluminação.

Nas partes mais escuras, novas aberturas foram cortadas no teto rochoso. Três claraboias ampliaram a entrada de luz e favoreceram a ventilação natural, mantendo a relação entre o interior da pedreira e a paisagem de Menorca.

Em uma das intervenções, o bloco retirado para abrir uma claraboia caiu no interior acompanhado por uma árvore. A planta permaneceu sobre a porção de rocha e continuou crescendo iluminada pela abertura, tornando-se um dos elementos mais marcantes do projeto.

A estrutura também foi preparada para funcionar com pouca dependência das redes convencionais. Painéis solares fornecem energia limitada, um poço já existente abastece o espaço, uma cisterna recolhe água da chuva e um sistema séptico aeróbico trata os resíduos.

A antiga cisterna da pedreira foi aproveitada como piscina. Almofadas colocadas sobre superfícies niveladas formaram áreas de descanso, enquanto bancos de aço presos às paredes passaram a funcionar como assentos e mesas.

Os ambientes internos permaneceram simples. Redes foram estendidas entre as paredes, colchões e travesseiros ocuparam degraus de arenito, uma pia foi instalada numa abertura natural e áreas de trabalho foram encaixadas nos espaços deixados pela extração.

Não existe uma divisão rígida entre quartos, sala de jantar e ambientes sociais. Segundo Débora Mesa, as funções podem mudar de posição ao longo do dia e das estações, acompanhando as variações de temperatura, umidade e incidência de luz.

As partes mais profundas foram praticamente mantidas intactas. Nelas, os vazios esculpidos pelos trabalhadores são tratados como obras capazes de revelar a escala, a textura e a história da antiga atividade industrial.

A Ca’n Terra é utilizada pela família, por integrantes do Ensamble Studio e por estudantes que participam de visitas e atividades de campo. Mais do que uma residência convencional, o lugar funciona como abrigo de férias e laboratório para experimentar formas de ocupar uma estrutura existente com poucas alterações.

O projeto transforma uma área anteriormente explorada e depois abandonada sem apagar as evidências de sua trajetória. A pedra extraída, as marcas das ferramentas, os vestígios militares e as novas instalações permanecem reunidos no mesmo espaço.

Ao adaptar os túneis de até 45 metros, o casal demonstrou que a arquitetura também pode surgir da interpretação do que já existe. Em vez de esconder a antiga pedreira, a casa subterrânea utiliza justamente suas imperfeições, dimensões e cicatrizes como os principais elementos do projeto.

Você viveria numa casa instalada dentro de uma antiga pedreira subterrânea?

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

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