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Chimpanzé é castrado, tem todos os dentes arrancados e vive em carreta minúscula entre fezes e restos de comida em circo, até ser apreendido pelo Ibama em Brasília e levado a santuário em Sorocaba, onde passa a abrir cocos com o pé porque não consegue morder

Chimpanzé é castrado, tem todos os dentes arrancados e vive em carreta minúscula entre fezes e restos de comida em circo, até ser apreendido pelo Ibama em Brasília e levado a santuário em Sorocaba, onde passa a abrir cocos com o pé porque não consegue morder

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Chimpanzé é castrado, tem todos os dentes arrancados e vive em carreta minúscula entre fezes e restos de comida em circo, até ser apreendido pelo Ibama em Brasília e levado a santuário em Sorocaba, onde passa a abrir cocos com o pé porque não consegue morder

Escrito por Geovane Souza

Publicado em 01/09/2026 às 23:09

Atualizado em 01/09/2026 às 23:10

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Chimpanzé Jeber vive em santuário de Sorocaba após ser resgatado de circo em Brasília com dentes arrancados, cicatrizes de corrente e sinais de maus-tratos. (Foto: Projeto GAP)

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Jeber nasceu em 1990 e passou parte da vida no Circo Le Cirque ao lado do chimpanzé Tyson. Resgatado em 2008, ele chegou ao Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba com cicatrizes provocadas por uma corrente pesada no pescoço. Anos depois, adaptado ao novo ambiente, desenvolveu maneiras próprias de manipular alimentos e brinquedos apesar de não possuir nenhum dente.

Sem nenhum dente para morder e depois de anos vivendo em condições descritas como precárias, o chimpanzé Jeber transformou tarefas simples, como comer um coco, em exercícios de adaptação. Ele bate o alimento contra superfícies duras, pode usar o próprio pé para quebrá-lo e, depois, retira pequenos pedaços com os dedos.

A cena registrada no Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, no interior de São Paulo, contrasta com a situação encontrada em 2008. Segundo o Projeto GAP, Jeber e seu companheiro Tyson eram mantidos pelo Circo Le Cirque em uma carreta extremamente pequena, cercados por fezes e restos de comida. Os dois haviam sido castrados e tiveram todos os dentes arrancados.

O caso fez parte de uma operação de grandes proporções conduzida pelo Ibama em Brasília e acabou atravessando mais de uma década nos tribunais. Em 2025, a Justiça do Distrito Federal voltou a analisar a disputa e manteve os animais apreendidos sob responsabilidade das instituições que os receberam.

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Paulo Nogueira

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Corrente pesada deixou cicatrizes no pescoço de Jeber

Jeber nasceu em 1990 e vivia com Tyson, também chimpanzé, no Le Cirque. De acordo com a ficha mantida pelo Projeto GAP, além da retirada dos dentes e da castração, Jeber carregava uma corrente pesada ao redor do pescoço, que deixou cicatrizes visíveis mesmo depois do resgate.

O Projeto GAP relata ainda que a experiência acumulada durante aquele período afetou seu comportamento. Nos primeiros tempos, ele apresentava forte desconfiança em relação às pessoas. Com os anos no santuário, porém, passou a demonstrar comportamento mais sociável e brincalhão, além de interesse por objetos oferecidos pela equipe.

Um relato publicado pela revista piauí em 2011 também descreveu Jeber e Tyson como chimpanzés que haviam sido mantidos em jaulas pequenas, presos pelo pescoço e submetidos à retirada dos dentes e à castração antes de chegarem ao santuário.

Operação do Ibama retirou animais do Le Cirque em agosto de 2008

A apreensão ocorreu em meio a uma disputa entre o Le Cirque e autoridades ambientais. Em 12 de agosto de 2008, fiscais do Ibama participaram de uma operação no circo, instalado em Brasília, após denúncias envolvendo as condições dos animais.

Foto: Projeto GAP

Reportagem publicada pelo Correio Braziliense naquele dia registrou a retirada de dois chimpanzés e um hipopótamo e informou que a ação também envolveu o Instituto Brasília Ambiental, Defesa Civil e policiais militares. Outros animais mantidos pelo empreendimento estavam no centro da disputa, entre eles elefantes, girafas, zebra e rinoceronte.

A operação ficou marcada por resistência e tumulto. Um laudo do Ibama havia apontado falta de segurança e maus-tratos, enquanto representantes do circo contestavam as medidas tomadas pelo órgão e apresentavam decisões judiciais favoráveis obtidas anteriormente. Uma nova inspeção ambiental, entretanto, resultou em outro laudo e na continuidade da intervenção.

Dias depois, o Projeto GAP informou que decisões judiciais permitiram que Jeber e Tyson permanecessem no Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, para onde haviam sido encaminhados a pedido do Ibama.

Sem dentes, Jeber aprendeu outra maneira de abrir e comer cocos

A consequência da mutilação continua presente na rotina do chimpanzé quase duas décadas depois.

Em setembro de 2025, o Projeto GAP divulgou novas imagens de Jeber e mostrou como ele contorna a ausência completa dos dentes. Para abrir um coco, bate o alimento contra uma superfície ou utiliza o pé. Em seguida, usa os dedos para retirar a polpa em pedaços pequenos. A mesma estratégia é empregada para alimentos mais firmes, como cenoura, porque ele não consegue mordê-los.

As gravações também mostram Jeber participando de atividades de enriquecimento ambiental, entre elas procurar brinquedos escondidos dentro de uma caixa com areia. Segundo o santuário, ele costuma carregar objetos e demonstrar interesse pelos brinquedos recebidos.

O enriquecimento ambiental é usado em instituições que mantêm animais sob cuidados humanos para estimular comportamentos físicos e cognitivos. No caso de Jeber, as tarefas também revelam como ele passou a utilizar mãos, pés e objetos do próprio recinto para compensar limitações deixadas pelo período anterior ao resgate.

Tyson permaneceu ao lado de Jeber durante 13 anos no santuário

Jeber e Tyson permaneceram juntos por 13 anos após o resgate e dividiram a rotina no santuário de Sorocaba. (Foto: Projeto GAP)

A mudança para Sorocaba não separou os dois chimpanzés. Jeber e Tyson permaneceram juntos durante 13 anos depois do resgate.

Segundo o Projeto GAP, os dois eram muito ligados e costumavam defender um ao outro quando percebiam alguma ameaça. Tyson, que também nasceu em 1990, havia passado pelas mesmas mutilações descritas no histórico de Jeber, com castração e retirada de todos os dentes. Ele morreu em 24 de maio de 2021.

Jeber continuou vivendo no santuário. Na atualização publicada em 2025, quando tinha cerca de 35 anos, a instituição o descreveu como totalmente adaptado à rotina local.

Disputa pela guarda dos animais chegou novamente à Justiça 15 anos depois

A retirada dos animais do Le Cirque não encerrou o caso judicialmente.

Em agosto de 2023, a Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do Distrito Federal decidiu que os animais apreendidos deveriam continuar nas instituições que os haviam acolhido. A decisão se baseou, entre outros elementos, em laudos veterinários sobre as condições em que os animais foram encontrados. Na ocasião, também foi fixada multa de R$ 500 mil para eventual tentativa de retirada dos animais dos locais determinados pela Justiça.

Os responsáveis pelo circo contestaram as acusações e argumentaram no processo que não existia, na época dos fatos, uma lei federal proibindo a utilização de animais em espetáculos circenses. Também sustentaram que decisões anteriores na esfera criminal e a anulação de autos de infração deveriam afastar a perda da posse.

A disputa avançou para a segunda instância. Em 5 de fevereiro de 2025, a 5ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios analisou os recursos e manteve os animais nas instituições responsáveis por seus cuidados. O julgamento foi publicado no Diário de Justiça em 11 de fevereiro.

Segundo o próprio TJDFT, os desembargadores consideraram que a permanência nesses locais atendia melhor às necessidades de saúde e bem-estar dos animais. O recurso do circo que pretendia a restituição foi negado. A fundação responsável pelo Zoológico de Brasília também não conseguiu obter o ressarcimento das despesas acumuladas com alimentação e atendimento veterinário.

Para Jeber, a decisão judicial não mudou uma rotina que já havia sido construída durante anos em Sorocaba. O chimpanzé que chegou ao local carregando cicatrizes de correntes e sem nenhum dente continua vivendo no santuário e encontrando maneiras próprias de realizar tarefas que, para outros chimpanzés, dependeriam de uma mordida.

O que mais chama sua atenção na história de Jeber: as condições em que ele foi encontrado ou a capacidade que desenvolveu para se adaptar depois do resgate?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

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