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Cidade brasileira joga mais de 1 milhão de m³ de areia no mar para salvar praia famosa, alarga 4,6 km de litoral e depois enfrenta alagamentos constantes e mais de 80 pontos de despejo de esgoto na nova faixa de areia

Cidade brasileira joga mais de 1 milhão de m³ de areia no mar para salvar praia famosa, alarga 4,6 km de litoral e depois enfrenta alagamentos constantes e mais de 80 pontos de despejo de esgoto na nova faixa de areia

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Cidade brasileira joga mais de 1 milhão de m³ de areia no mar para salvar praia famosa, alarga 4,6 km de litoral e depois enfrenta alagamentos constantes e mais de 80 pontos de despejo de esgoto na nova faixa de areia

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 11/09/2026 às 08:24

Ciência e Tecnologia

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Cidade brasileira joga mais de 1 milhão de metros cúbicos de areia

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Natal deposita mais de 1 milhão de m³ de areia em Ponta Negra, amplia 4,6 km de praia e enfrenta alagamentos e mais de 80 pontos de esgoto.

Uma das intervenções costeiras mais ambiciosas do Nordeste mudou completamente a paisagem de Ponta Negra, em Natal, no Rio Grande do Norte. Para enfrentar décadas de erosão e proteger a região do Morro do Careca, a capital potiguar executou um aterro hidráulico conhecido como “engorda”, depositando mais de 1 milhão de metros cúbicos de areia ao longo de aproximadamente 4,6 quilômetros da praia. Em janeiro de 2025, quando a obra estava perto da conclusão, a Prefeitura já registrava mais de 1 milhão de m³ aplicados e 4,05 km, equivalentes a 90% do trecho previsto, executados.

A nova faixa de areia, porém, veio acompanhada de outro problema de grande escala. Pouco depois da conclusão, o Ministério Público Federal passou a registrar alagamentos constantes na área ampliada e despejo de esgoto em mais de 80 pontos da praia.

Em maio de 2026, a situação levou o MPF a entrar com uma ação civil pública cobrando a reestruturação integral da drenagem de Ponta Negra, depois de perícias apontarem galerias obstruídas, tubulações problemáticas e 16 dissipadores que não conseguiam dispersar adequadamente as águas pluviais.

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Mais de 1 milhão de metros cúbicos de areia mudaram a praia

A engorda de Ponta Negra utiliza uma técnica conhecida como aterro hidráulico. Grandes volumes de sedimentos são retirados de uma jazida marítima e transportados hidraulicamente até a praia, onde passam a recompor artificialmente a faixa de areia.

O objetivo central era devolver espaço a um trecho submetido a forte processo erosivo e criar uma barreira maior entre o oceano e a infraestrutura urbana.

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Em 11 de janeiro de 2025, quando aproximadamente 90% do serviço estava executado, o então secretário municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, Thiago Mesquita, informou que um pouco mais de 1 milhão de m³ de areia já havia sido utilizado. Naquele estágio, a intervenção alcançava 4,05 quilômetros.

O trecho integral associado à nova faixa chega a aproximadamente 4,6 km, dimensão posteriormente utilizada pela própria Prefeitura em documentos para contratação de serviços de manutenção da área afetada pela engorda.

Praia precisava de proteção contra um processo erosivo que avançava havia anos

A obra não surgiu apenas para criar uma praia maior destinada ao turismo. Seu principal fundamento técnico foi o combate à erosão.

Ponta Negra abriga o Morro do Careca, uma das paisagens mais conhecidas de Natal, e há anos apresentava redução da faixa de areia e maior exposição da orla ao avanço das ondas.

O planejamento municipal classificou a engorda e o enrocamento como medidas destinadas a conter o processo erosivo, aumentar a segurança da orla e proteger o uso turístico da região. Documentos oficiais projetavam o aterro hidráulico ao longo da enseada justamente para recriar a faixa de areia perdida.

A pressão costeira não desapareceu. Parecer técnico divulgado pelo MPF em 2026 apontou erosão severa no sistema Ponta Negra–Via Costeira, com setores da linha de costa recuando entre 1 e 2,5 metros por ano.

Faixa de areia cresceu, mas água da chuva começou a ficar represada

Depois que milhões de toneladas equivalentes de sedimento passaram a ocupar a frente da orla, um elemento subterrâneo tornou-se decisivo: a drenagem.

A água que desce dos bairros urbanizados em direção à praia precisa atravessar ou ser conduzida através da nova faixa de areia até o mar. Para isso, Ponta Negra possui galerias e estruturas chamadas de dissipadores, responsáveis por conduzir e reduzir a força da descarga pluvial.

O problema apareceu logo após a ampliação.

Em fevereiro de 2025, o MPF informou que alagamentos constantes estavam sendo observados na nova faixa de areia. A instituição destacou que as obras de drenagem deveriam ter sido concluídas antes do aterro justamente para evitar o acúmulo de água.

Engorda de praia com areia do mar

A própria Prefeitura reconheceu na reunião com os procuradores que a drenagem havia sido planejada para ocorrer antes da engorda, mas o cronograma foi afetado por problemas relacionados à empresa contratada.

Mais de 80 pontos de despejo de esgoto apareceram na praia ampliada

O cenário ficou mais delicado porque os alagamentos não envolviam apenas água da chuva.

O MPF registrou, em fevereiro de 2025, deságue de esgoto em mais de 80 pontos de Ponta Negra. O problema passou a ser discutido diretamente com representantes da Prefeitura.

Na reunião, a administração municipal atribuiu a principal origem dessas descargas a ligações clandestinas e extravasamentos da rede operada pela Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte, a Caern. Também informou que fiscalizava estabelecimentos privados e cobrava intervenções na rede.

A combinação entre drenagem pluvial e lançamento irregular de esgoto passou a preocupar o MPF porque a água acumulada podia permanecer sobre a praia recém-ampliada.

Em vez de a faixa adicional funcionar somente como uma reserva de areia diante do oceano, determinados setores começaram a formar áreas inundadas após chuvas.

Dezesseis dissipadores deveriam levar a água até o mar

A rede de Ponta Negra possui 16 dissipadores associados à drenagem.

Essas estruturas precisam conduzir a água da chuva e reduzir sua energia antes que ela alcance a praia e o mar.

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Em fevereiro de 2025, a Prefeitura informou ao MPF que os 16 dissipadores deveriam entrar em funcionamento até o fim daquele mês, restando posteriormente determinados serviços superiores nas estruturas.

A análise realizada nos meses seguintes, entretanto, mostrou problemas mais profundos.

Em ação apresentada em maio de 2026, o MPF afirmou que estudos técnicos da Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura e da própria perícia do Ministério Público apontaram que os 16 dissipadores não cumpriam adequadamente a função de dispersar as águas pluviais.

O resultado era o acúmulo de água sobre a praia, inclusive em condições capazes de misturar água da chuva com material proveniente da rede de esgoto.

Perícias encontraram galerias bloqueadas com concreto e rochas

O diagnóstico de 2026 revelou que o desafio ia além de simplesmente limpar bocas de lobo.

Segundo o MPF, as análises identificaram problemas como galerias bloqueadas por concreto e rochas, além de tubulações sem funcionamento adequado dentro do sistema de drenagem.

Essas obstruções ajudam a explicar por que grandes volumes de água podem ficar represados mesmo em uma área construída para conduzi-los até o oceano.

A nova configuração da praia também alterou a distância que a água precisa percorrer até o mar. A ampliação da faixa de areia exige que os pontos de descarga estejam corretamente dimensionados para a geometria posterior à engorda.

Já em outubro de 2024, laudo técnico citado pelo MPF apontava a necessidade de esclarecimentos sobre o projeto de drenagem e chamava atenção especialmente para o trecho próximo ao Morro do Careca, área de elevada importância ambiental e forte erosão.

Alagamentos podem ameaçar a própria areia colocada para combater a erosão

Em maio de 2026, o MPF alertou que o funcionamento inadequado da drenagem poderia produzir consequências para a própria finalidade da engorda.

A água acumulada e liberada de maneira inadequada tem potencial para criar sulcos, deslocar sedimentos e contribuir para a erosão da nova praia. O órgão citou inclusive risco à base do Morro do Careca.

Isso produz um paradoxo.

Mais de 1 milhão de metros cúbicos de areia foram utilizados justamente para aumentar a proteção contra a erosão marinha. Sem drenagem eficiente, a água proveniente da cidade pode passar a atuar no sentido contrário, removendo ou redistribuindo parte desse material.

Por isso, a discussão sobre Ponta Negra deixou de ser apenas sobre completar a engorda. Passou a envolver a manutenção da areia já depositada.

MPF levou a situação novamente à Justiça em 2026

A sequência de problemas provocou uma nova etapa judicial.

Em 7 de maio de 2026, o Ministério Público Federal anunciou ação civil pública contra o Município de Natal cobrando a reestruturação integral do sistema de drenagem pluvial da Praia de Ponta Negra.

O pedido inclui medidas emergenciais de limpeza, manutenção e desobstrução semanal de bocas de lobo e dissipadores.

Cidade brasileira joga mais de 1 milhão de m³ de areia no mar

O MPF também pediu isolamento de áreas consideradas de risco e da base do Morro do Careca, além da apresentação de documentos técnicos e dados mensais sobre o volume de areia existente na engorda.

A intenção é acompanhar se o aterro hidráulico permanece estável ou se quantidades significativas de sedimento estão sendo redistribuídas.

O órgão ainda pediu que o projeto definitivo de drenagem estabeleça cronograma regular de manutenção, evitando que as estruturas voltem a ser obstruídas depois das intervenções.

Problema pode atingir saúde pública, turismo e meio ambiente

Ponta Negra não é uma praia isolada de uma pequena comunidade costeira. Ela está inserida em um dos principais polos turísticos do Nordeste.

Hotéis, restaurantes, bares, comércio, vendedores e trabalhadores vinculados às atividades de praia dependem diretamente da imagem e da utilização do local.

Quando água contaminada fica acumulada sobre a areia ou esgoto chega à praia, a consequência ultrapassa a engenharia.

Na ação de 2026, o MPF classificou a situação como um risco à saúde pública, ao turismo e ao meio ambiente, destacando que água represada misturada a efluentes pode favorecer vetores de doenças.

Os problemas também afetam pescadores artesanais e outros grupos tradicionais que utilizam a orla diariamente.

Foi por essa razão que, desde 2025, as discussões entre MPF e Município passaram a incluir não apenas engenharia e licenciamento, mas impactos sociais e econômicos da intervenção.

Engorda já alterou até a forma de fazer manutenção da praia

A dimensão física da nova Ponta Negra criou necessidades que não existiam com a mesma escala antes do aterro.

Documento de contratação municipal de 2025 estabelece serviços de limpeza ao longo dos 4,6 quilômetros da faixa de areia impactada pela engorda.

O trabalho inclui retirada contínua de resíduos e sedimentos específicos e deve ocorrer preferencialmente durante a noite para não interferir na atividade turística e comercial.

A própria manutenção da praia, portanto, precisou ser redimensionada depois que a área útil cresceu.

Mais areia significa maior espaço para banhistas e maior proteção física da orla, mas significa também mais quilômetros quadrados de superfície que precisam ser monitorados, limpos e integrados à drenagem da cidade.

A Prefeitura passou ainda a discutir uma nova fase de urbanização e paisagismo para a chamada Nova Ponta Negra, com acessibilidade, ocupação comercial e requalificação da orla.

Morro do Careca continua no centro de toda a intervenção

A imagem que domina Ponta Negra permanece sendo o Morro do Careca.

A duna é um dos principais cartões-postais do Rio Grande do Norte e está inserida numa área ambientalmente sensível.

Proteger sua base foi uma das justificativas centrais para a engorda.

O próprio projeto municipal definiu como objetivo conter a erosão e aumentar a faixa de praia diante da região.

Mas a drenagem inadequada também passou a representar risco para esse mesmo ponto.

O MPF pediu em 2026 medidas emergenciais relacionadas à base do Morro do Careca justamente porque a concentração e o deslocamento de água podem contribuir para processos erosivos locais.

Dessa forma, a proteção do monumento natural depende simultaneamente de conter a energia do mar e controlar a água que chega da própria cidade.

Obra gigantesca resolveu um problema e expôs outro escondido debaixo da cidade

Ponta Negra mostra como grandes intervenções costeiras podem depender de estruturas que quase ninguém vê.

O elemento mais visível foi a areia.

Mais de 1 milhão de metros cúbicos foram bombeados para a orla. A praia aumentou e passou a possuir uma faixa muito maior em diversos pontos. A intervenção se estendeu por aproximadamente 4,6 quilômetros.

Mas, por baixo das ruas, continuava existindo uma rede de drenagem responsável por receber a água de uma área urbana densamente ocupada e conduzi-la em direção ao oceano.

Cidade brasileira joga mais de 1 milhão de metros cúbicos de areia

Quando essa água chegou à nova praia, apareceram os alagamentos.

Quando os órgãos de fiscalização investigaram o sistema, surgiram registros de mais de 80 pontos de despejo de esgoto, além de problemas nos 16 dissipadores, galerias obstruídas e estruturas que precisavam ser reavaliadas.

A cidade conseguiu mover mais de um milhão de metros cúbicos de areia para combater o avanço do mar. Agora, o desafio é fazer a água que vem do continente atravessar essa nova faixa sem transformá-la em um novo problema.

O futuro de uma das praias mais conhecidas do Brasil passou a depender não apenas do tamanho da barreira criada diante do oceano, mas também da capacidade de reconstruir e manter aquilo que existe escondido sob as ruas: a drenagem que precisa impedir que a nova Ponta Negra fique debaixo d’água sempre que a chuva chega.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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