Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Cidade da Indonésia afunda até 15,2 centímetros por ano, e dados de satélite de uma década revelam que falhas geológicas profundas, aquíferos e retirada de água subterrânea estão deformando o terreno de Semarang, onde o rebaixamento do solo já contribui para inundações crônicas em áreas urbanas próximas à costa

Cidade da Indonésia afunda até 15,2 centímetros por ano, e dados de satélite de uma década revelam que falhas geológicas profundas, aquíferos e retirada de água subterrânea estão deformando o terreno de Semarang, onde o rebaixamento do solo já contribui para inundações crônicas em áreas urbanas próximas à costa

7 min de leitura

Cidade da Indonésia afunda até 15,2 centímetros por ano, e dados de satélite de uma década revelam que falhas geológicas profundas, aquíferos e retirada de água subterrânea estão deformando o terreno de Semarang, onde o rebaixamento do solo já contribui para inundações crônicas em áreas urbanas próximas à costa

Escrito por Carla Teles

Publicado em 02/09/2026 às 12:48

Atualizado em 02/09/2026 às 12:57

Construção

Canal

Estudo relaciona água subterrânea, subsidência, Semarang, aquíferos e falhas geológicas ao afundamento desigual do solo na cidade indonésia.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Dados Sentinel-1 analisados entre 2015 e 2025 mostram subsidência de até 15,2 centímetros por ano no norte de Semarang e em direção a Demak; pesquisadores relacionam o padrão à água subterrânea, à compactação de aquíferos e à configuração de falhas que segmentam a bacia e ajudam a intensificar alagamentos costeiros.

A água subterrânea, os aquíferos profundos e estruturas geológicas escondidas sob Semarang estão no centro de uma investigação sobre por que partes dessa cidade da Indonésia continuam descendo em relação ao nível do terreno. Dados de satélite coletados entre 2015 e 2025 revelaram taxas de subsidência que chegam a 15,2 centímetros por ano, principalmente na faixa costeira ao norte e em direção ao município vizinho de Demak.

Segundo estudo disponibilizado no ScienceDirect e associado à revista Geosystems and Geoenvironment, pesquisadores combinaram imagens do satélite Sentinel-1, medições GPS, informações de poços, níveis de água subterrânea e mapeamento geológico para investigar o fenômeno. Os resultados indicam que a extração de água não explica sozinha toda a distribuição espacial do afundamento: falhas profundas e diferenças entre formações geológicas também podem controlar onde a deformação se concentra.

Satélites acompanharam Semarang durante uma década

Imagem: Reprodução.

Para observar um movimento que acontece lentamente e se distribui por uma cidade inteira, os pesquisadores recorreram ao radar. Imagens do Sentinel-1 registradas entre 2015 e 2025 foram processadas por técnicas de interferometria conhecida como InSAR, capazes de detectar pequenas mudanças na elevação do terreno.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Recomendado para você

Marítimo

Suppressor 7, primeira embarcação autônoma desse porte desenvolvida no Brasil, entra na água e avança para os testes de mar

O Suppressor 7 entrou na água pela primeira vez e avançou para testes de integração e navegação, marcando uma nova etapa para a embarcação autônoma de 7,4 metros desenvolvida no…

Paulo Nogueira

0

O estudo empregou séries temporais para comparar repetidas passagens do satélite sobre a mesma região. Depois, os resultados foram confrontados com pontos de GPS. A proximidade entre as duas medições deu suporte aos mapas usados para localizar as áreas que estavam subindo, permanecendo relativamente estáveis ou afundando rapidamente.

Algumas áreas afundaram mais de 15 centímetros por ano

Imagem: Reprodução.

As diferenças encontradas foram grandes. As taxas calculadas variaram de um pequeno soerguimento de aproximadamente 1,81 centímetro por ano até subsidência de 15,20 centímetros anuais.

Os maiores valores negativos apareceram na região costeira norte, seguindo de Semarang em direção a Demak. Já setores centrais e meridionais da cidade apresentaram, de modo geral, taxas menores, frequentemente entre 2 e 7 centímetros de rebaixamento por ano, com alguns pontos próximos da estabilidade.

Água subterrânea continua ligada ao problema

A retirada de água subterrânea aparece há anos nas pesquisas sobre a subsidência de Semarang. Quando água é removida de sedimentos e aquíferos, alterações de pressão podem favorecer a compactação das camadas que sustentam a superfície.

O novo trabalho também encontrou relação entre queda dos níveis de água subterrânea e aumento da deformação vertical em poços monitorados. Isso reforça que o bombeamento e a dinâmica hidráulica fazem parte do mecanismo, especialmente em uma planície formada por materiais compressíveis.

Mas o mapa não acompanha apenas a retirada de água

O ponto que chamou a atenção dos pesquisadores foi que as áreas de maior subsidência não coincidiam de maneira simples com os locais onde a redução da água subterrânea era mais intensa.

Os autores identificaram zonas com subsidência relativamente menor entre 1,3 e 9,7 centímetros por ano e outras chegando de 2,7 a 15,2 centímetros. A separação entre esses padrões acompanhava estruturas geológicas interpretadas como falhas, sugerindo outro controle sobre a deformação.

Falhas podem dividir o subsolo em compartimentos diferentes

Sob Semarang existe uma bacia sedimentar cortada por estruturas tectônicas. Entre elas aparecem sistemas relacionados às falhas de Gombel, Java Central e Muria-Progo, que interferem na configuração das rochas e dos aquíferos.

Essas falhas podem funcionar como limites entre partes do subsolo com propriedades diferentes. Dois setores próximos podem ter espessuras de sedimentos, permeabilidade, pressão da água e capacidade de compactação distintas, fazendo com que reajam de formas diferentes mesmo submetidos a condições semelhantes.

Aquíferos profundos também estão deformando

O estudo não analisou apenas a superfície. Dados de perfuração permitiram investigar camadas localizadas a centenas de metros de profundidade e entender como os aquíferos estão distribuídos na Bacia de Semarang.

Em um poço exploratório próximo à zona da falha de Gombel, os pesquisadores identificaram sedimentos argilosos e arenosos até aproximadamente 85 metros, com aquíferos mais profundos abaixo dessa faixa. Perfurações utilizadas no estudo chegaram a cerca de 210 metros de profundidade.

Marcos instalados em diferentes profundidades confirmaram compactação

Outra evidência veio de marcos permanentes de subsidência instalados em profundidades diferentes. Em uma medição realizada em 17 de julho de 2025, pontos posicionados a 30, 88 e 125 metros registraram deslocamentos acumulados distintos.

Os valores observados foram de aproximadamente 3 centímetros, 9,5 centímetros e 11 centímetros, respectivamente. A diferença indica que a deformação não ocorre somente em uma camada superficial: vários intervalos do subsolo participam do processo de compactação.

Argila, areia e pressão da água mudam a resposta do terreno

As planícies de Semarang possuem grandes espessuras de argila e areia relativamente jovens. Alguns desses materiais são altamente compressíveis, característica que os torna sensíveis às mudanças de pressão associadas à circulação e à retirada de água subterrânea.

O estudo também destaca a presença de minerais argilosos, como a smectita, e diferenças de permeabilidade entre formações. A combinação entre tipo de sedimento, pressão nos poros e geometria dos aquíferos ajuda a determinar quanto cada região consegue compactar.

Falhas podem interromper a continuidade dos aquíferos

Um aquífero não precisa funcionar como uma única camada contínua. Falhas podem cortar essas estruturas e separar setores que passam a apresentar diferentes níveis de pressão, permeabilidade e fluxo de água subterrânea.

Os pesquisadores encontraram evidências de que esse tipo de segmentação ocorre em Semarang. O fluxo subterrâneo, que tende a seguir do sul para o norte, apresenta mudanças de direção e uma depressão piezométrica próxima da costa, sinais compatíveis com um sistema subterrâneo dividido em diferentes compartimentos.

Geologia não elimina o papel da atividade humana

O estudo não conclui que a extração de água subterrânea deixou de ser importante. Trabalhos anteriores já relacionaram a subsidência de Semarang ao bombeamento excessivo, à compactação natural dos depósitos e também à carga provocada pela urbanização.

A nova análise acrescenta uma camada ao problema: a estrutura geológica pode determinar como esses efeitos são distribuídos pelo espaço. Assim, duas áreas submetidas à retirada de água podem apresentar respostas diferentes porque estão assentadas sobre formações e compartimentos tectônicos distintos.

Área costeira concentra as maiores taxas de subsidência

A faixa ao norte de Semarang é particularmente sensível porque combina terreno baixo, sedimentos compressíveis, intensa ocupação urbana e proximidade com o mar. Foi justamente ali que os dados InSAR identificaram algumas das taxas mais elevadas.

O afundamento acumulado reduz progressivamente a elevação relativa da superfície. Mesmo sem o terreno “desaparecer” de uma vez, centímetros perdidos todos os anos podem modificar drenagem, infraestrutura e exposição de bairros inteiros à entrada de água.

Afundamento já está associado a inundações crônicas

O estudo relaciona a subsidência observada a inundações crônicas provocadas pela maré em áreas como Kaligawe e Sayung. Quando o terreno perde altura, a diferença entre a superfície urbana e o nível do mar se torna menor.

Isso significa que o problema não permanece restrito ao subsolo. A deformação acaba aparecendo na superfície na forma de áreas mais vulneráveis a alagamentos, estruturas submetidas a movimentos diferenciais e dificuldades crescentes para controlar a água em regiões costeiras urbanizadas.

Semarang já era monitorada por afundamento havia anos

O fenômeno não começou na última década. Estudos anteriores encontraram taxas aproximadas de 4 a 6 centímetros por ano entre 2007 e 2009, enquanto trabalhos posteriores indicaram valores próximos de 10 a 12 centímetros anuais em algumas áreas entre 2015 e 2022.

Medições GNSS também registraram cerca de 13 centímetros por ano em determinados períodos. O novo levantamento amplia essa série histórica ao utilizar uma década de observações Sentinel-1 e alcançar valores extremos superiores a 15 centímetros anuais em setores costeiros.

Cidade não afunda como uma única peça

Talvez o principal resultado seja justamente abandonar a ideia de que Semarang simplesmente “desce” de maneira uniforme. Os mapas revelam um mosaico: regiões muito afetadas aparecem próximas de outras onde o movimento é significativamente menor.

As falhas geológicas ajudam a estabelecer esses limites. O terreno se comporta como um sistema formado por compartimentos subterrâneos, cada um com rochas, aquíferos, níveis de água e respostas mecânicas próprias.

Dados de satélite revelam problema que começa centenas de metros abaixo

Vista da superfície, a subsidência pode ser percebida apenas quando ruas, edificações ou sistemas de drenagem começam a sofrer seus efeitos. O estudo mostra, porém, que o mecanismo envolve processos muito mais profundos, relacionados à estrutura da bacia, aos aquíferos e à circulação de água subterrânea.

Ao combinar satélites, GPS, perfurações e geologia, os pesquisadores mostram que os 15,2 centímetros por ano registrados em partes de Semarang não podem ser entendidos por uma única causa isolada. Retirada de água, compactação dos sedimentos, diferenças entre aquíferos e falhas profundas interagem na deformação da cidade. Para você, o dado mais impressionante é a velocidade do afundamento ou o fato de estruturas invisíveis no subsolo poderem dividir uma mesma cidade em zonas tão diferentes? Conte sua opinião nos comentários.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

Sair da versão mobile