6 min de leitura
Cidade de 3 mil habitantes na Espanha estava prestes a ser engolida pelas dunas e desaparecer sob a areia, até engenheiro receber missão de salvá-la, plantar 600 mil árvores e transformar 846 hectares em uma floresta que ainda protege moradores mais de um século depois
Escrito por Ana Alice
Publicado em 13/09/2026 às 23:33
Atualizado em 13/09/2026 às 23:34
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
No fim do século 19, dunas avançavam sobre Guardamar del Segura, na Espanha; um projeto de reflorestamento transformou 846 hectares ameaçados pela areia em uma extensa faixa verde que permanece integrada à cidade.
No fim do século 19, Guardamar del Segura enfrentava um problema que parecia avançar literalmente pelas ruas. Dunas móveis empurradas pelos ventos do Mediterrâneo deslocavam-se em direção às casas e às áreas agrícolas, chegando a avançar entre 3 e 8 metros por ano em alguns pontos.
A ameaça levou o governo espanhol a aprovar, em 1897, um projeto para fixar a areia e impedir que a pequena cidade da província de Alicante fosse progressivamente soterrada.
O engenheiro florestal Francisco Mira y Botella ficou responsável por transformar um campo de dunas de 846 hectares em uma barreira vegetal permanente. Mais de um século depois, boa parte dessa área continua arborizada e protegida.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Recomendado para você
Biocombustíveis Renováveis
Depois de cair 17,3% até junho, biodiesel vira para cima, sobe 9,5% e chega a R$ 5.362 por m³ enquanto B15 já ocupa 15% do diesel brasileiro
Preço médio avançou mais 0,9% na 35ª semana de 2026 e chegou a R$ 5.362,81 por m³; depois de despencar no primeiro semestre, mercado acumula recuperação de 9,5% desde junho
O…
Paulo Nogueira
0
A escala da intervenção impressiona até pelos padrões atuais.
Registros históricos e documentos municipais apontam o plantio de aproximadamente 600 mil pinheiros, 40 mil palmeiras e 5 mil eucaliptos, além de outras espécies usadas para estabilizar o solo.
Também foram construídos caminhos, viveiros e estruturas destinadas a controlar o deslocamento da areia.
Hoje, o turismo oficial de Guardamar descreve a pinada como uma área protegida de aproximadamente 800 hectares, integrada às praias e às dunas do município. Aquilo que começou como uma obra emergencial para impedir a invasão da areia tornou-se uma das principais paisagens verdes da cidade.
A areia já havia chegado às proximidades das casas
O problema de Guardamar não surgiu de uma única tempestade nem de um processo repentino. A formação das dunas estava relacionada ao enorme volume de sedimentos transportados pelo rio Segura até sua foz e posteriormente redistribuídos pelo mar e pelo vento.
A redução da cobertura florestal na bacia do Segura ao longo dos séculos anteriores agravou a erosão e aumentou o transporte de material até o litoral.
Na costa, os ventos de levante empurravam essa areia novamente para terra firme, formando dunas móveis que avançavam em direção ao povoado e às plantações.
Em 1896, Francisco Mira e o engenheiro José Jordana y Morera fizeram um reconhecimento do sistema dunar. No ano seguinte, Mira assinou o projeto de defesa e repovoamento florestal, aprovado pelo governo espanhol ainda em 1897.
Fotografias preservadas pelo Arquivo Geral da Região de Múrcia mostram como a areia já ocupava áreas próximas ao núcleo urbano no início do século 20. O próprio acervo conserva o projeto original, datado de 1897, com mapas, relatórios e registros das propriedades ameaçadas.
Antes das árvores, era preciso fazer a areia parar
Plantar árvores diretamente sobre dunas móveis não resolveria o problema. Antes disso, a equipe precisava reduzir o movimento da areia e criar condições para que a vegetação sobrevivesse.
Mira adotou e adaptou métodos europeus de estabilização de dunas, entre eles técnicas associadas ao engenheiro francês Nicolas Brémontier.
Barreiras de madeira, caniços e vegetação resistente eram instaladas para diminuir a força do vento junto ao solo e reter o material transportado.
Espécies pioneiras, como o barrón — Ammophila arenaria —, eram usadas em áreas onde árvores ainda dificilmente sobreviveriam.
O museu dedicado ao engenheiro em Guardamar registra que Mira testou diferentes métodos e dezenas de espécies antes de definir quais se adaptavam melhor às condições locais.
Depois que setores das dunas ficavam mais estáveis, começava o reflorestamento.
Cerca de 600 mil pinheiros mudaram a paisagem
A operação ganhou proporções enormes ao longo das décadas seguintes. Documentos do próprio município registram 600 mil pinheiros, sobretudo pinheiros-de-Alepo e pinheiros-mansos, além de 40 mil palmeiras e 5 mil eucaliptos utilizados no processo de reflorestamento.
Não bastava colocar mudas no chão.
Foram necessários oito quilômetros de caminhos, 14 quilômetros de estruturas de contenção, três viveiros e três casas florestais, além de instalações para guardar materiais e apoiar trabalhadores.
O Arquivo Geral da Região de Múrcia preserva inclusive uma fotografia feita pelo próprio Francisco Mira em dezembro de 1903. Ela mostra pinheiros jovens plantados naquele mesmo ano e protegidos por linhas de vegetação que ajudavam a reduzir a movimentação da areia.
A população local teve participação direta na execução das obras. A Casa-Museu Ingeniero Mira destaca que moradores e órgãos públicos trabalharam durante décadas na implantação e na manutenção da nova cobertura vegetal.
Engenheiro dizia ter evitado o desaparecimento da cidade
Quando o projeto já demonstrava resultados, Mira registrou que a fixação das dunas havia impedido a areia de continuar avançando sobre Guardamar.
Em um relato histórico atribuído ao engenheiro, ele estimava a população local em aproximadamente 3 mil habitantes e afirmava que os trabalhos haviam evitado que o povoado e os terrenos férteis de sua horta fossem soterrados.
Essa dimensão ajuda a explicar por que Francisco Mira passou a ocupar um lugar tão importante na memória de Guardamar.
Ele dedicou décadas ao projeto e continuou ligado à intervenção mesmo depois das fases iniciais de reflorestamento. A Real Academia de la Historia registra que o engenheiro apresentou o projeto em 1897 e passou boa parte das décadas seguintes publicando estudos sobre os trabalhos realizados nas dunas.
A intervenção se estendeu pelas primeiras décadas do século 20.
Embora diferentes fontes históricas apresentem pequenas variações sobre o início operacional exato e a duração de determinadas fases, o turismo oficial de Guardamar situa o grande processo de reflorestamento entre 1900 e a década de 1930.
Área de 846 hectares virou uma faixa verde junto ao Mediterrâneo
Os 846 hectares citados nos documentos históricos correspondem ao campo dunar que precisava ser estabilizado. Atualmente, o município costuma apresentar a pinada e o sistema dunar protegido como uma área de aproximadamente 800 hectares.
A transformação é especialmente visível no Parque Alfonso XIII, onde árvores crescem sobre terrenos que no início do século passado eram dominados por dunas móveis.
O plano local de prevenção de incêndios de Guardamar ainda identifica o parque como parte do monte público e de uma área protegida, além de destacar estruturas históricas relacionadas à restauração das dunas e ao trabalho de Mira.
A proteção, portanto, não terminou quando as árvores cresceram.
O ambiente continua exigindo manutenção, controle de incêndios, manejo da vegetação e cuidados com o grande número de visitantes que utiliza seus caminhos.
Floresta continua fazendo parte da defesa da cidade
Mais de um século depois, a função original da pinada permanece perceptível na paisagem de Guardamar.
O turismo municipal descreve a área como um extenso bosque dunar que acompanha o litoral, fornece sombra, ajuda a regular a umidade e mantém estabilizada uma região que anteriormente sofria com dunas móveis.
O espaço também se tornou um patrimônio histórico e recreativo. Caminhos atravessam a floresta, antigos viveiros ainda podem ser visitados e a Casa-Museu Ingeniero Mira preserva fotografias, mapas, documentos e equipamentos ligados à obra.
Até uma tradição iniciada durante o reflorestamento permanece ativa.
A Festa da Árvore, criada em Guardamar no início do século 20, continua reunindo moradores e estudantes em atividades de plantio. Em 2025, por exemplo, o município organizou novas plantações dentro do Parque Alfonso XIII.
O legado de Francisco Mira também aparece em monumentos e no próprio nome de ruas da cidade.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

