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Com 18 metros de altura e mais de 1.000 toneladas, maior ímã do mundo terá força para erguer um porta-aviões, cria campo 280 mil vezes mais forte que o da Terra e será usado para tentar produzir na Terra a energia que alimenta o Sol
Escrito por Ana Alice
Publicado em 19/09/2026 às 20:42
Atualizado em 19/09/2026 às 20:43
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Com quase 1.000 toneladas e campo magnético 280 mil vezes mais intenso que o da Terra, megaímã do ITER terá papel central em uma das maiores experiências já realizadas para controlar a fusão nuclear.
Um cilindro de quase 1.000 toneladas, capaz de gerar um campo magnético de 13 teslas e descrito por seus fabricantes como forte o bastante para erguer um porta-aviões, alcançou uma das principais etapas de sua construção no sul da França.
Trata-se do solenóide central do ITER, experimento internacional que tenta demonstrar se a fusão nuclear pode se tornar uma das tecnologias utilizadas para produção de energia no futuro.
Em 23 de junho de 2026, engenheiros colocaram o sexto e último módulo magnético sobre os cinco anteriores. A montagem chegou à altura final, próxima à de um prédio de cinco andares.
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Isso não significa, porém, que o megaímã já esteja definitivamente instalado dentro do tokamak. Ainda é necessário completar sua estrutura de sustentação, realizar a pré-compressão e posteriormente transferir todo o conjunto para o centro da máquina.
Quando estiver concluído, o solenóide terá cerca de 18 metros de altura, aproximadamente 4 metros de largura e peso próximo de 1.000 toneladas.
No centro, seu campo magnético poderá atingir 13 teslas, cerca de 280 mil vezes a intensidade do campo magnético da Terra.
Ímã teria força para erguer um porta-aviões
A General Atomics, empresa americana responsável pela fabricação dos módulos, utiliza uma comparação para dimensionar a força envolvida.
Segundo a companhia, o campo produzido pelo solenóide seria suficiente para erguer um porta-aviões aproximadamente dois metros acima da água.
A comparação não significa que o equipamento tenha sido projetado para levantar objetos dessa maneira. Ela serve apenas para demonstrar a magnitude das forças magnéticas que estarão envolvidas na operação.
Toda essa potência será usada para uma tarefa muito mais delicada: ajudar a criar e controlar plasma a temperaturas próximas de 150 milhões de graus Celsius.
Fusão tenta reproduzir processo que alimenta as estrelas
Apesar das dimensões gigantescas do ITER, o fenômeno estudado acontece em uma escala microscópica.
Núcleos atômicos possuem carga elétrica positiva e naturalmente se repelem quando são aproximados.
Para que dois núcleos consigam chegar perto o suficiente para se fundir, é necessário superar essa repulsão.
Nas estrelas, como o Sol, isso acontece graças à combinação de temperaturas elevadas, enorme densidade e confinamento gravitacional.
Na Terra, pesquisadores precisam reproduzir condições semelhantes por outros meios.
No ITER, uma mistura de isótopos de hidrogênio será aquecida até se transformar em plasma e deverá permanecer confinada por campos magnéticos sem tocar diretamente as paredes da máquina.
O objetivo é fazer núcleos de deutério e trítio se fundirem, formando hélio, liberando um nêutron e produzindo grande quantidade de energia.
Solenóide será o coração elétrico do tokamak
O solenóide central não funciona simplesmente como um enorme ímã atraindo o plasma.
Seu papel se aproxima do enrolamento primário de um gigantesco transformador.
Quando o campo magnético varia, ele induz uma corrente elétrica no plasma, que funciona como uma espécie de circuito secundário.
Essa corrente ajuda a iniciar o plasma, contribui para seu aquecimento e participa do controle do material dentro da câmara.
O sistema foi projetado para induzir correntes no plasma de até 15 milhões de amperes.
Os seis módulos utilizam cabos supercondutores de nióbio-estanho e precisam operar a temperaturas próximas do zero absoluto.
Ímãs trabalham a cerca de 269 °C negativos
Para que os materiais se tornem supercondutores, o sistema criogênico do ITER deverá manter os grandes ímãs em aproximadamente 4 kelvin, cerca de 269 °C negativos.
Nessas condições, os cabos conseguem transportar correntes elétricas extremamente elevadas com perdas muito reduzidas.
A energia magnética armazenada apenas no solenóide central poderá chegar a 6,4 gigajoules.
Essa combinação cria um contraste extremo dentro da mesma instalação.
Enquanto o plasma deverá alcançar cerca de 150 milhões de graus Celsius, os ímãs responsáveis por confiná-lo precisarão funcionar a poucos graus acima do zero absoluto.
Estrutura precisa suportar forças gigantescas
O funcionamento do próprio ímã também cria enormes desafios mecânicos.
Os seis módulos podem exercer forças em diferentes direções durante as operações.
Por isso, todo o conjunto precisa ser comprimido e mantido alinhado por uma estrutura capaz de resistir a esforços de aproximadamente 60 meganewtons.
O ITER compara essa força a cerca de duas vezes o empuxo produzido por um ônibus espacial durante a decolagem.
Cada um dos grandes módulos pesa aproximadamente 110 toneladas.
A precisão exigida na montagem também é extrema. Durante a instalação do sexto módulo, a peça teve de ser baixada entre estruturas elétricas deixando folgas de apenas alguns centímetros.
Solenóide é apenas parte do sistema magnético
O megaímã central não trabalhará sozinho.
O ITER contará com 18 bobinas toroidais, seis bobinas poloidais, seis módulos do solenóide e outras bobinas destinadas à correção do campo magnético.
Juntos, os ímãs supercondutores terão aproximadamente 10 mil toneladas e poderão armazenar cerca de 51 gigajoules de energia magnética.
As bobinas toroidais formam o principal campo ao redor da câmara em formato de rosca.
As poloidais ajudam a controlar a posição e o formato do plasma.
Já o solenóide produz a variação magnética responsável por induzir a enorme corrente elétrica dentro dele.
Plasma será aquecido de diferentes maneiras
A corrente induzida pelo solenóide ajuda no aquecimento inicial do plasma, mas esse mecanismo perde eficiência à medida que a temperatura aumenta.
Por isso, o ITER utilizará outros sistemas.
Um deles será a injeção de feixes de partículas neutras, capazes de transferir energia para o plasma.
Outro método utiliza ondas de radiofrequência para aquecer íons e elétrons.
O plasma, portanto, não será aquecido por bombardeio de nêutrons.
Os nêutrons aparecem como produto da própria reação de fusão entre deutério e trítio.
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Meta é gerar 500 MW de potência de fusão
O ITER foi projetado para alcançar um parâmetro conhecido como Q igual ou superior a 10.
Na prática, a meta é produzir aproximadamente 500 megawatts de potência térmica de fusão no plasma a partir de 50 megawatts de potência externa de aquecimento.
Isso não significa que o complexo produzirá dez vezes mais eletricidade do que consome.
Na verdade, o ITER não foi projetado para enviar energia elétrica à rede.
O índice Q considera apenas a potência aplicada diretamente ao plasma e a energia de fusão produzida dentro dele.
O consumo completo da instalação envolve diversos outros sistemas que ficam fora dessa conta.
ITER não será uma usina comercial
A principal função do projeto é científica.
Pesquisadores pretendem estudar como manter o plasma, controlar reações de fusão, testar materiais, desenvolver sistemas magnéticos e reunir conhecimento necessário para futuras usinas.
Por isso, mesmo um experimento bem-sucedido não significará que uma central elétrica de fusão estará pronta para uso comercial.
A próxima geração de instalações deverá avançar justamente nessa direção.
Projetos agrupados sob o nome DEMO pretendem transformar o calor produzido pelas reações em eletricidade e testar tecnologias necessárias para operação contínua.
Na Europa, o conceito trabalha com uma meta de aproximadamente 300 a 500 megawatts líquidos de eletricidade em algum momento próximo de meados do século.
Cronograma sofreu atrasos de vários anos
O ITER é um dos maiores projetos científicos e de engenharia já realizados e seu calendário sofreu diferentes revisões.
O acordo internacional entrou em vigor em 2007, enquanto a construção dos edifícios começou em 2010.
Planos antigos previam o primeiro plasma em 2025 e operações com deutério e trítio em 2035.
Essas datas foram abandonadas depois de atrasos relacionados a problemas técnicos, necessidade de reparos em componentes e impactos provocados pela pandemia.
O cronograma atualizado prevê o início das operações de pesquisa por volta de 2034.
A energia magnética completa deverá ser alcançada em 2036, enquanto a primeira fase de operações com deutério e trítio está prevista para 2039.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

