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Comunidades agrícolas na fronteira oeste da Tailândia acumularam mais de um milhão de bahts em lavouras destruídas por elefantes em cinco anos, até perceberem que as manadas passam direto por uma cultura que não interessa a elas, e mais de quarenta produtores trocaram cana e banana por café numa cooperativa que quer mil hectares até 2030

Comunidades agrícolas na fronteira oeste da Tailândia acumularam mais de um milhão de bahts em lavouras destruídas por elefantes em cinco anos, até perceberem que as manadas passam direto por uma cultura que não interessa a elas, e mais de quarenta produtores trocaram cana e banana por café numa cooperativa que quer mil hectares até 2030

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Comunidades agrícolas na fronteira oeste da Tailândia acumularam mais de um milhão de bahts em lavouras destruídas por elefantes em cinco anos, até perceberem que as manadas passam direto por uma cultura que não interessa a elas, e mais de quarenta produtores trocaram cana e banana por café numa cooperativa que quer mil hectares até 2030

Escrito por Jefferson Augusto

Publicado em 05/09/2026 às 09:13

Atualizado em 05/09/2026 às 09:14

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Elefante asiático atravessando uma lavoura de café plantada à sombra na borda da floresta. Imagem ilustrativa gerada por IA.

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O elefante não invade o que não gosta. O problema é o café levar quatro anos para dar a primeira safra.

Durante décadas, pequenos produtores nas bordas de floresta da Tailândia fizeram sem querer a pior escolha possível: plantaram exatamente aquilo que um herbívoro de três toneladas escolheria num cardápio. Cana, banana e abacaxi.

Depois passaram as noites tentando convencer o animal a não comer. Fogos, estilingue, grito, holofote. Funciona por um tempo e para de funcionar, porque elefante aprende rápido. Algumas comunidades da província de Kanchanaburi resolveram inverter a lógica e plantar algo que a manada acha sem graça, segundo reportagem do ScienceBlog.

O prejuízo que abriu a conversa

O número que empurrou a mudança está nos registros da Darwin Initiative, que ajuda a financiar o trabalho: mais de um milhão de bahts, cerca de 30 mil libras, em danos de lavoura ao longo de cinco anos nessas aldeias, conforme a mesma reportagem.

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Paulo Nogueira

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O levantamento cobriu 17 comunidades atingidas pelo conflito, com 375 domicílios, e incluiu análise de solo, mapeamento das propriedades e grupos de discussão com os produtores. Não foi palpite de escritório.

Por que cana e banana são o alvo

Um canavial, para um elefante faminto, é uma máquina de vender doce com o vidro já quebrado. Caloria de graça, sem fila e sem nada no caminho, na imagem usada pela própria reportagem.

Banana é melhor ainda, e abacaxi melhor que banana. São culturas macias, densas em açúcar e de colheita concentrada, o que significa que o animal encontra tudo pronto no mesmo lugar e na mesma época. Contra alvo assim, a saída testada até hoje foi sempre barreira física, como no caso já noticiado das cercas de colmeias no Quênia, que afastaram invasões de elefantes em 86% das vezes.

O que o café tem de diferente

O raciocínio da Zoological Society of London, que conduz o projeto desde 2023 ao lado da ONG tailandesa Eco-exist Society, segundo a reportagem, é pouco glamouroso: café interessa muito menos a um elefante do que algo doce e macio.

Não é repelente nem barreira. É desinteresse. A manada continua passando pelo mesmo caminho, só que agora atravessa em vez de parar para comer, e é essa diferença que preserva a renda do produtor sem precisar cercar bicho nenhum.

Por que robusta, e não arábica

A escolha da variedade foi feita por conta, não por gosto. Os levantamentos de solo e as reuniões com os produtores apontaram a agrofloresta de robusta como o modelo com melhor chance de bater as culturas comerciais atuais em renda, num mercado interno estável, conforme os registros do projeto.

Robusta aguenta calor, altitude baixa e manejo mais simples do que a arábica, e tem comprador garantido dentro do próprio país. Numa troca que já exige anos de paciência, mercado incerto seria um risco a mais.

O café vai debaixo da árvore que já estava lá

O detalhe técnico que faz o projeto fechar é a sombra. Café produz bem sombreado, o que permite plantar as mudas sob as árvores nativas existentes em vez de derrubá-las para abrir área, segundo a descrição do projeto.

Isso muda o balanço inteiro. Em vez de trocar floresta por lavoura, a lavoura entra dentro da floresta. Café agroflorestal já é rotina em outros lugares, como no caso já noticiado de Fernanda Rodrigues, que recuperou uma fazenda abandonada no interior do Rio, plantou mais de 120 mil árvores e transformou 40 hectares em cafezal agroflorestal.

Cravo, pimenta e colmeia no meio das fileiras

Junto com o café entram cravos-de-defunto, pimenteiras e colmeias, plantados e instalados entre as fileiras, conforme a descrição do trabalho. Todos os três têm a mesma função prática.

São coisas que um herbívoro grande prefere contornar a atravessar. A colmeia é a mais eficiente das três, porque o elefante reage ao zumbido antes mesmo de levar ferroada, e ainda entrega mel para vender enquanto o café não produz.

A cooperativa do elefante sorridente

Plantar é a metade fácil. Para resolver a outra metade, o projeto criou uma cooperativa conduzida pelos próprios produtores, chamada Chiang Yim, que quer dizer elefante sorridente, segundo a reportagem.

Ela cuida do beneficiamento, da comercialização e dos contratos de compra de longo prazo. Mais de quarenta produtores já aderiram, e a meta é chegar a mil hectares de terra amiga do elefante até 2030.

A fazenda-modelo tem mais de vinte espécies

A primeira propriedade-modelo fica em Huai Kayeng e hoje carrega mais de vinte espécies, entre café, coco, mangostão, abacate, pimenta e jacarandá, conforme os relatórios do projeto. Outros dois sítios estão sendo desenhados junto com produtores em Tha Manao e Chalae.

Essa diversidade não é enfeite botânico, é seguro. Se o preço do café cair, a pimenta continua vendendo. Sistemas assim já foram testados na própria Tailândia, como no caso já noticiado da fazenda tailandesa que dispensa fertilizante, guarda cada gota de chuva e usa biomassa e biochar.

O problema é o intervalo de três a quatro anos

Aqui está o obstáculo real do projeto. Um cafeeiro recém-plantado não produz nada por três ou quatro anos, segundo a reportagem, e esse é um tempo longo para pedir a uma família acostumada a cortar cana e receber na mesma safra.

Cravo e pimenta cobrem uma parte pequena da lacuna. As colmeias cobrem um pouco mais, porque o mel tem boa saída na Tailândia. Mesmo assim, quem entra no projeto está aceitando atravessar alguns anos com renda menor apostando num ganho que só aparece depois.

Por que a manada sai da floresta

A causa não é excesso de elefante. A população nacional selvagem é estimada entre 3.500 e 4.000 animais, segundo a Zoological Society of London citada na reportagem, o que é pouco para um país inteiro.

Um estudo publicado na Scientific Reports ligou as invasões ao uso do solo: distritos industriais e lavouras ocuparam o terreno baixo e plano que o elefante prefere, deixando no lugar um mosaico de fragmentos de mata e plantações que funciona como habitat substituto. Falta de água na floresta empurra o animal para fora também.

O elefante não é invasor, é passageiro de uma rota antiga

É assim que a reportagem descreve a situação, e a formulação é precisa. O animal que entra numa bananeira não é um invasor, é alguém que faz o mesmo trajeto de sempre e encontrou uma plantação em cima dele.

Isso reposiciona o problema por inteiro. Não se trata de expulsar bicho de onde ele não deveria estar, e sim de decidir o que plantar em cima de um caminho que já existia antes da lavoura.

O tamanho do conflito na Tailândia

Perda de lavoura é o lado leve dessa história. Um levantamento de dez anos publicado na revista Animals registrou 341 incidentes de conflito em 34 das 77 províncias tailandesas entre 2014 e 2023, concentrados no leste e no período de chuvas, entre julho e outubro.

A imensa maioria ocorreu em área agrícola, onde o animal havia chegado atrás de comida. Do lado dos elefantes, mais de noventa morreram no período contabilizado por um outro relatório, parte deles eletrocutada por fios instalados por produtores em volta de pomares.

A ressalva que os próprios pesquisadores fazem

Existe um trabalho publicado na Environmental Management que serve de alerta ao projeto. Ele estudou Kodagu, distrito nos Gates Ocidentais da Índia que produz cerca de 2% do café do mundo em agrofloresta densa.

A análise de fezes mostrou que alguns elefantes andavam selecionando frutos maduros de café, o que os autores apontaram como primeiro registro do comportamento. Menos atraente não é a mesma coisa que intragável, e hábito que se espalha numa população acaba chegando ao produtor.

O que não foi divulgado

Não há informação sobre quantos hectares já foram efetivamente plantados, nem sobre a queda medida no número de invasões nas propriedades que fizeram a troca. Também não foi divulgada a renda média antes e depois.

São exatamente os dados que transformariam a hipótese em resultado. Sem eles, o que existe é um modelo bem desenhado e uma aposta em curso, não uma solução comprovada.

Como está agora

O projeto segue em Kanchanaburi, com a cooperativa montada, a fazenda-modelo funcionando e mais dois sítios em desenho, conforme a reportagem publicada em 4 de setembro de 2026.

Todo mundo envolvido está esperando a mesma aposta lenta amadurecer, que é a de um grão amargo render mais que açúcar ao longo de uma década. As manadas não têm obrigação nenhuma de esperar junto.

Fonte

ScienceBlog, Farmers in Thailand were losing crops to hungry elephants, so they began replacing sugar cane and bananas with coffee


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

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