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Deserto parecia ter areia de sobra e tijolos de menos, até cientistas transformarem o material rejeitado pela construção em blocos ecológicos que endurecem sem forno e podem superar os convencionais
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 16/09/2026 às 19:03
Atualizado em 16/09/2026 às 19:05
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Pesquisadores da Universidade de Sharjah combinaram areia do deserto com resíduos industriais e ligantes ativados por álcalis para atacar dois problemas de uma vez, reduzir a dependência do cimento Portland e aproveitar uma matéria-prima gigantesca que a construção tradicional normalmente considera inadequada
Quando alguém olha para os desertos dos Emirados Árabes Unidos, parece existir uma matéria-prima praticamente inesgotável para a construção civil. Há areia em todas as direções. Entretanto, existe um paradoxo pouco intuitivo: ter um deserto gigantesco ao redor não significa necessariamente possuir a areia que a indústria mais deseja para fabricar concreto e outros materiais, conforme matéria publicada pelo site Olhar Digital.
Os grãos moldados durante anos pelo vento apresentam características diferentes daqueles encontrados em rios e outras fontes tradicionalmente utilizadas pela construção. Por isso, boa parte dessa areia permanece fora das aplicações convencionais.
Pesquisadores da Universidade de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, decidiram transformar justamente esse problema em oportunidade. A equipe desenvolveu tijolos ecológicos produzidos com areia do deserto e subprodutos industriais, incluindo escória de forno e cinzas, substituindo o cimento Portland tradicional por um sistema de ligantes ativados por álcalis.
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E existe outro detalhe importante. Os blocos endurecem em temperatura ambiente, sem depender do processo de queima de alta temperatura usado em determinados materiais de construção. Além disso, os pesquisadores relatam bom desempenho mecânico e elevada resistência à absorção de água, ataque por sulfatos e sucessivos ciclos de umedecimento e secagem.
Assim, uma das paisagens mais abundantes do planeta começa a aparecer sob outra perspectiva. A areia que parecia inadequada pode virar parte de um material estrutural justamente quando a construção procura alternativas para diminuir sua enorme pegada ambiental.
O paradoxo começa no próprio chão porque países cercados por dunas gigantescas ainda enfrentam limitações para transformar toda aquela areia diretamente em concreto e materiais de construção
Areia parece areia.
Entretanto, para a engenharia, forma, tamanho, composição e distribuição dos grãos fazem enorme diferença.
O vento atua continuamente sobre partículas no deserto. Como resultado, os grãos podem adquirir características pouco favoráveis para determinadas misturas convencionais utilizadas pela construção.
Por isso, simplesmente retirar toneladas de areia de uma duna e substituir diretamente os agregados utilizados normalmente não representa uma solução automática.
Foi justamente essa dificuldade que tornou o trabalho dos pesquisadores interessante.
Em vez de tentar obrigar a areia do deserto a funcionar exatamente como um material convencional, a equipe desenvolveu outra composição.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Sharjah, incluindo Mohamad Arab e Maher Omar, e os resultados foram publicados no Journal of Materials in Civil Engineering.
Assim, o objetivo deixou de ser simplesmente “usar areia”.
A equipe precisava descobrir como transformar um recurso extremamente abundante em um bloco com propriedades suficientemente boas para enfrentar condições reais de construção.
Em vez de despejar mais cimento na mistura para compensar as limitações da areia, os pesquisadores fizeram justamente o contrário e retiraram o Portland da receita
Esse talvez seja o aspecto ambiental mais relevante do projeto.
O cimento Portland convencional exige processos industriais intensivos em energia e libera grandes quantidades de dióxido de carbono durante sua fabricação.
Portanto, simplesmente desenvolver um tijolo com areia do deserto, mas continuar dependendo fortemente desse cimento, limitaria parte do benefício ambiental.
A equipe seguiu outro caminho.
Os pesquisadores combinaram a areia com subprodutos industriais, como escória e cinzas, utilizando ligantes ativados por álcalis.
Dessa maneira, resíduos que poderiam representar outro problema ambiental ganham uma nova função dentro do material.
A lógica cria uma espécie de encontro entre duas matérias-primas subaproveitadas.
De um lado, existe areia abundante que encontra limitações na construção convencional.
Do outro, aparecem resíduos gerados por processos industriais.
Quando combinados adequadamente, entretanto, esses componentes podem formar um bloco sólido.
Esse movimento acompanha uma transformação maior dos materiais industriais, que passam a incorporar resíduos e matérias-primas alternativas em busca de processos menos intensivos em carbono. Ao mesmo tempo, outras cadeias industriais também tentam redesenhar sua infraestrutura, como ocorre com os projetos de transporte de CO₂ liquefeito que começam a ganhar escala.
Os tijolos não precisaram entrar em um forno para ganhar resistência porque a mistura consegue endurecer em temperatura ambiente e elimina justamente uma etapa que costuma consumir grandes quantidades de energia
Produzir o bloco resolve apenas metade do problema.
Se fosse necessário submetê-lo posteriormente a temperaturas extremamente elevadas, parte da vantagem ambiental desapareceria no consumo energético.
Entretanto, os tijolos desenvolvidos em Sharjah conseguem endurecer em temperatura ambiente.
Isso elimina a necessidade de um processo de queima intensivo em energia para essa composição.
Consequentemente, a redução ambiental pode acontecer em mais de uma frente.
Primeiro, diminui a dependência do cimento Portland.
Depois, resíduos industriais entram na composição.
Além disso, o material aproveita areia disponível localmente.
Finalmente, o endurecimento em temperatura ambiente evita outra etapa de elevado consumo energético.
Essa combinação interessa especialmente a regiões desérticas.
Afinal, transportar grandes volumes de materiais por longas distâncias também possui custo financeiro e ambiental.
Assim, utilizar um recurso disponível praticamente ao lado das cidades pode alterar a logística da construção caso a tecnologia consiga avançar para escala comercial.
Quando os blocos chegaram aos testes, a pergunta deixou de ser se era possível transformar areia do deserto em tijolo e passou a ser se alguém realmente confiaria naquele material dentro de uma construção
Sustentabilidade sozinha não sustenta uma parede.
Um material de construção precisa enfrentar forças mecânicas, umidade, sais e condições ambientais que mudam continuamente.
Por isso, os pesquisadores submeteram os blocos a diferentes avaliações.
Segundo a Universidade de Sharjah, os tijolos apresentaram forte desempenho mecânico e, em alguns testes, chegaram a superar materiais tradicionais.
Além disso, demonstraram boa resistência à absorção de água.
Esse aspecto importa porque a entrada de água pode comprometer diversos materiais ao longo do tempo.
Porém, havia outro teste especialmente relevante para os Emirados Árabes Unidos.
Sulfatos.
Ambientes áridos podem apresentar condições químicas agressivas para materiais cimentícios. Assim, resistência ao ataque por sulfatos se torna uma característica importante.
Os novos tijolos também demonstraram desempenho elevado nesse aspecto.
Portanto, a equipe não procurou apenas produzir algo que endurecesse.
Precisava criar algo que permanecesse resistente depois de enfrentar condições mais próximas daquelas encontradas fora do laboratório.
Molhar, secar e repetir o processo poderia revelar rapidamente uma fraqueza escondida, mas os blocos continuaram mostrando resistência durante ciclos criados justamente para acelerar esse desgaste
Construções não vivem em condições constantes.
Mesmo em regiões desérticas, materiais enfrentam mudanças de umidade e exposição ambiental.
Por isso, os pesquisadores também avaliaram ciclos repetidos de umedecimento e secagem.
Os blocos apresentaram elevada resistência nesses ensaios, segundo a universidade.
Essa informação é importante porque um material pode apresentar excelente resistência à compressão logo depois da fabricação e, ainda assim, degradar rapidamente diante de ciclos ambientais.
Portanto, avaliar durabilidade ajuda a aproximar a experiência de laboratório das exigências encontradas em uma construção real.
Ainda assim, existe uma diferença enorme entre repetir ciclos durante um experimento e deixar uma parede exposta durante décadas.
E os próprios pesquisadores reconhecem essa distância.
Antes de imaginar bairros inteiros construídos com areia do deserto, a tecnologia ainda precisa enfrentar testes em escala maior.
A descoberta ganha peso porque o cimento está escondido em praticamente todas as cidades modernas e reduzir apenas uma parte de sua utilização pode representar uma mudança enorme quando milhões de toneladas entram na conta
O cimento Portland ajudou a construir o mundo moderno.
Está em casas.
Pontes.
Prédios.
Estradas.
Barragens.
Portanto, substituir esse material em todas as aplicações não representa uma tarefa simples.
Porém, tecnologias alternativas não precisam necessariamente eliminar o cimento de toda a construção mundial para gerar impacto.
Se determinadas aplicações conseguirem utilizar ligantes alternativos, a demanda por materiais convencionais pode diminuir justamente nos locais onde matérias-primas diferentes estão disponíveis.
É essa lógica que torna a areia do deserto especialmente interessante.
Os Emirados não precisam procurar esse recurso do outro lado do planeta.
Ele está ao redor das próprias cidades.
Ao mesmo tempo, a indústria procura maneiras de transformar infraestrutura existente em sistemas mais eficientes. Essa lógica de reaproveitamento também aparece no setor energético, onde uma antiga área nuclear alemã receberá uma bateria de até 1.000 MWh, em projeto abordado por Roberta Souza em 16 de setembro de 2026.
Em ambos os casos, a pergunta é semelhante.
É possível olhar para algo subutilizado e dar a ele uma função completamente nova?
O material ainda carrega outra vantagem pouco óbvia porque usar areia disponível perto das obras pode reduzir a pressão sobre fontes convencionais e diminuir a distância percorrida por parte das matérias-primas
Existe um problema maior escondido nessa história.
A construção mundial consome quantidades enormes de agregados.
Consequentemente, encontrar fontes alternativas pode reduzir a pressão sobre materiais tradicionalmente extraídos para atender ao setor.
A areia do deserto aparece como candidata justamente porque existe em enorme abundância em determinadas regiões.
Porém, é importante evitar uma conclusão precipitada.
O estudo não significa que qualquer areia de qualquer deserto poderá virar automaticamente um tijolo de alto desempenho.
Composição mineral, granulometria e outras características mudam entre locais.
Além disso, os componentes adicionais e o processo de ativação também fazem parte do desempenho final.
Portanto, não basta retirar areia de uma duna, colocá-la em um molde e esperar que uma parede apareça.
Existe engenharia de materiais por trás do processo.
Ainda assim, demonstrar que uma matéria-prima antes pouco atraente pode funcionar dentro de uma composição estrutural abre uma possibilidade relevante para regiões áridas.
A tecnologia tenta transformar dois problemas ambientais em uma única matéria-prima porque areia pouco aproveitada entra de um lado e resíduos industriais entram do outro antes de saírem juntos como um bloco sólido
Esse princípio talvez seja tão importante quanto o tijolo.
Economias industriais produzem grandes quantidades de subprodutos.
Ao mesmo tempo, a construção consome volumes gigantescos de matérias-primas.
Quando uma tecnologia consegue conectar essas duas pontas, um resíduo pode deixar de representar apenas algo que precisa de destinação e começar a substituir parte de um material virgem.
No projeto de Sharjah, escória e cinzas entram justamente nessa lógica.
Além disso, a areia local reduz a necessidade de depender exclusivamente de agregados convencionais.
Esse conceito aparece cada vez mais na transição para tecnologias de menor impacto.
Empresas também começam a combinar geração renovável com sistemas gigantescos de armazenamento em baterias, mostrando como novas cadeias industriais passam a surgir quando tecnologias antes separadas começam a funcionar juntas. A matéria linkada foi publicada por Roberta Souza em 15 de setembro de 2026.
No caso dos tijolos, entretanto, o objetivo permanece surpreendentemente simples.
Transformar areia e resíduos em algo capaz de sustentar uma construção.
Antes de ver arranha-céus surgindo diretamente das dunas, pesquisadores ainda precisam provar que aquilo que funcionou nos testes consegue manter desempenho quando milhões de blocos começam a sair de uma linha industrial
Existe uma diferença fundamental entre descoberta e produto.
No laboratório, pesquisadores conseguem controlar proporções, temperatura, cura e preparação das amostras.
Em uma fábrica, entretanto, o material precisa sair em grandes quantidades mantendo características consistentes.
Depois, chegam transporte, armazenamento e aplicação.
Finalmente, vêm anos de exposição ao ambiente.
Por isso, a Universidade de Sharjah ressalta que mais testes em grande escala serão necessários antes de uma adoção ampla na construção.
Esse cuidado importa principalmente porque o anúncio envolve um material estrutural.
Falhas em materiais de construção possuem consequências muito diferentes das encontradas em produtos descartáveis.
Assim, resistência inicial representa apenas uma etapa.
Os pesquisadores ainda precisam ampliar avaliações de durabilidade, comportamento em escala real e viabilidade de produção.
Também será necessário entender custos.
A universidade destaca as vantagens ambientais, porém não apresenta no material consultado um preço comercial por tijolo capaz de permitir uma comparação direta com blocos convencionais.
Portanto, ainda não dá para afirmar que a alternativa será mais barata.
Se a tecnologia superar a etapa industrial, países que durante décadas olharam para seus desertos como uma fonte de areia inadequada poderão começar a enxergar nas dunas parte do material necessário para construir as próprias cidades
O potencial da pesquisa está justamente nessa inversão.
Durante muito tempo, a abundância de areia desértica não resolveu automaticamente a demanda da construção.
Agora, cientistas tentam modificar a equação.
Em vez de procurar outro tipo de areia, eles criaram uma composição capaz de aproveitar aquela que já está disponível.
Além disso, retiraram o cimento Portland da formulação apresentada, incorporaram subprodutos industriais e permitiram que o material endurecesse sem queima em alta temperatura.
Os testes iniciais indicaram bom desempenho mecânico e resistência diante de condições ambientais relevantes.
Porém, o próximo desafio será muito maior.
O laboratório precisa virar fábrica.
A amostra precisa virar parede.
E testes acelerados precisam virar anos de utilização real.
Se essa transição funcionar, entretanto, uma paisagem que parecia oferecer apenas um material problemático para a construção poderá se transformar em parte da solução.
E você, moraria em uma casa construída com tijolos feitos principalmente de areia do deserto e resíduos industriais se os testes de segurança comprovassem desempenho igual ou superior aos materiais tradicionais?
Fonte
Olhar Digital
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

