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Designer passa 3 anos entrando em banheiros públicos para escanear cada detalhe em 3D, transforma brincadeira em arquivo digital e agora recebe registros de voluntários pelo mundo
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 10/09/2026 às 13:16
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Jake Welch começou a fotografar banheiros por diversão depois de descobrir um aplicativo de fotogrametria. Três anos depois, o Restroom Archive virou uma espécie de museu digital de espaços que quase ninguém pensa em preservar, com modelos tridimensionais feitos até por smartphones e contribuições chegando de outros países.
Durante os últimos três anos, o designer freelancer Jake Welch desenvolveu um hábito bastante incomum: entrar em banheiros públicos de restaurantes, postos de gasolina, lojas, cafés e outros estabelecimentos para digitalizar seus interiores em 3D. O que começou como uma brincadeira acabou crescendo até virar o Restroom Archive, um arquivo digital dedicado exclusivamente a preservar esses espaços.
A história foi detalhada pela 404 Media em 9 de setembro de 2026. O projeto registra não apenas vasos, pias e paredes, mas também grafites, placas, objetos abandonados, decoração e peculiaridades arquitetônicas. Para Welch, justamente esses elementos transformam ambientes aparentemente banais em registros da cultura cotidiana.
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Tudo começou como uma brincadeira em um IHOP
Welch não planejava construir um arquivo de banheiros.
Ele trabalhava como designer freelancer em Nova York quando descobriu o Polycam, aplicativo capaz de utilizar centenas de fotografias para reconstruir ambientes tridimensionais por fotogrametria.
Certa noite, enquanto estava com amigos em um restaurante IHOP, começou a experimentar a tecnologia. A brincadeira acabou levando Welch a escanear o banheiro do estabelecimento.
A experiência despertou uma curiosidade inesperada.
Em vez de abandonar a ideia, ele começou a repetir o processo em outros lugares. Viagens de carro também viraram oportunidades para registrar banheiros diferentes pelo caminho.
Assim nasceu, em 2023, o projeto que acabaria se transformando no Restroom Archive. O repositório do próprio projeto confirma que a iniciativa começou como uma brincadeira naquele ano e evoluiu para uma prática contínua de digitalização de banheiros nos Estados Unidos e na Europa.
Smartphone tira centenas de fotos e transforma banheiro em ambiente 3D
O processo não exige necessariamente um scanner profissional gigantesco.
Aplicativos como o Polycam registram centenas de imagens do ambiente e depois combinam as fotografias para reconstruir digitalmente paredes, objetos, piso e demais elementos.
Alguns smartphones mais avançados também possuem LiDAR, tecnologia que utiliza luz para medir distâncias e ajuda na reconstrução espacial.
Entretanto, os modelos estão longe de ser perfeitos.
Superfícies reflexivas criam dificuldades, principalmente espelhos. Em determinados modelos, eles podem aparecer como áreas escuras ou deformadas. Partes do próprio responsável pela captura também podem acabar registradas de maneira incompleta, deixando um braço, sapato ou fragmento aparentemente flutuando pelo banheiro virtual.
Curiosamente, essas imperfeições acabaram se tornando parte da identidade visual do arquivo.
Banheiros aparecem como se fossem pequenos museus digitais
Ao acessar o Restroom Archive, o visitante recebe aleatoriamente um modelo tridimensional de um banheiro público, acompanhado da localização e de uma breve descrição.
Um exemplo citado pela 404 Media fica no Gypsy Emporium Antique Mall, em Hurricane, Utah.
Welch registrou aquele banheiro em 11 de abril de 2026. Para chegar até ele, o visitante precisa atravessar a loja de antiguidades, passar por um corredor e entrar através da porta de uma antiga cela. No interior, pinturas de uma pistola d’água aparecem em duas das quatro paredes.
É justamente esse tipo de detalhe que o projeto tenta preservar.
O banheiro deixa de aparecer apenas como infraestrutura sanitária e passa a funcionar como registro de arquitetura, hábitos, humor, grafites e adaptações feitas pelos proprietários.
Essa ideia de transformar uma instalação banal em objeto de curiosidade já apareceu de outra maneira no CPG. Em Londres, por exemplo, antigos banheiros públicos construídos em 1929 ficaram abandonados durante décadas até uma arquiteta transformar os 56 m² subterrâneos em uma casa completa.
Projeto já se aproxima de 100 banheiros digitalizados
A escala começou a crescer.
Uma reportagem da Popular Science publicada em 2 de setembro contabilizou quase 100 banheiros em 36 cidades dos Estados Unidos e da Europa, além de aproximadamente 250 pessoas cadastradas como colaboradores do projeto naquele momento.
Os números variam conforme a data da consulta porque novos registros continuam chegando.
Uma publicação de 1º de setembro, por exemplo, contabilizava 94 banheiros, 35 cidades e 166 arquivistas. A diferença reforça que o Restroom Archive está em expansão e que os totais devem ser apresentados sempre com referência temporal.
Welch decidiu recentemente redesenhar o site e permitir que outras pessoas enviassem seus próprios modelos.
A mudança transformou uma coleção essencialmente pessoal em um arquivo colaborativo.
Qualquer pessoa pode virar arquivista
Para participar, o voluntário precisa seguir algumas regras.
Os modelos precisam ter qualidade suficiente, não podem resultar de invasão de propriedade e devem retratar banheiros acessíveis ao público, não instalações sanitárias de residências privadas.
Welch também verifica o material antes da publicação e tenta evitar registros excessivamente desagradáveis ou inadequados.
Na prática, a barreira tecnológica é relativamente pequena.
Muitos aparelhos Android e iOS conseguem produzir os registros necessários com aplicativos apropriados. Smartphones equipados com LiDAR podem acrescentar informações de profundidade durante a captura.
Essa facilidade é importante porque permite ao arquivo crescer sem depender da presença física de Welch.
Primeiro envio de um usuário surpreendeu até o criador
A abertura para contribuições externas rapidamente produziu situações inesperadas.
Segundo Welch, o primeiro banheiro enviado por um usuário ficava no porão do aeroporto Tri-Cities, no Tennessee.
Quando abriu o modelo, inicialmente ele nem conseguiu entender o que estava observando.
O ambiente havia sido praticamente desmontado e parecia apenas uma sala de terra. Somente depois Welch percebeu no canto a marca deixada por um antigo mictório e partes do encanamento ainda presentes.
Para o designer, aquele registro improvável validou justamente a decisão de abrir o projeto ao público.
Outras contribuições começaram a chegar de locais ainda mais distantes.
Um banheiro de Dublin mostrou algo que um americano poderia não perceber
Entre os registros internacionais recebidos pelo arquivo apareceu um banheiro de pub em Dublin, na Irlanda.
As paredes estavam cobertas por inscrições relacionadas a grupos políticos de esquerda e clubes de futebol.
Welch reconheceu que, como americano sem familiaridade com aquele contexto, provavelmente não compreenderia sozinho o significado de parte dos grafites. A descrição fornecida pelo colaborador local acrescentou uma camada cultural que o simples modelo tridimensional não conseguiria explicar.
Esse exemplo revela uma característica interessante do projeto.
O arquivo não preserva somente a geometria dos espaços. Ele também pode registrar elementos culturais extremamente locais que desapareceriam caso o banheiro fosse reformado, demolido ou simplesmente pintado novamente.
Banheiros de Nova York revelam falta de espaço
Welch também percebeu diferenças regionais depois de anos observando esses ambientes.
Banheiros de Nova York, por exemplo, costumam sofrer mais com limitações de espaço.
Segundo ele, alguns aparecem mais deteriorados, negligenciados ou utilizados simultaneamente como locais de armazenamento.
Em outras regiões, arquitetura, decoração e organização mudam.
É justamente essa diversidade que agora motiva o criador a tentar receber contribuições de mais partes do planeta.
O objetivo é descobrir como diferentes culturas e cidades resolvem uma necessidade universal dentro de espaços que raramente recebem atenção.
No Brasil, a infraestrutura sanitária urbana também está mudando. O CPG mostrou que Belo Horizonte começou a instalar banheiros públicos autolimpantes gratuitos, operados por sensores e com plano de ampliar a rede para 19 unidades.
Banheiro transparente de Tóquio mostra como tecnologia também muda esses espaços
Outro exemplo interessante está no Japão.
O CPG já mostrou o caso das paredes transparentes de um banheiro público de Tóquio que ficam foscas quando a porta é trancada, usando vidro inteligente para combinar visibilidade e privacidade.
A proposta nasceu justamente de questões recorrentes envolvendo banheiros públicos: segurança, limpeza e a dificuldade de saber como está o interior antes de entrar.
Entretanto, falhas do sistema em baixas temperaturas também levantaram preocupações sobre privacidade.
Para um projeto como o Restroom Archive, soluções desse tipo representam justamente o que pode tornar um banheiro digno de documentação: uma resposta arquitetônica ou tecnológica específica para um problema cotidiano.
Welch decidiu tratar a brincadeira como um arquivo de verdade
Uma das escolhas mais curiosas ocorreu durante a reformulação recente do site.
Em vez de assumir uma linguagem humorística, Welch decidiu fazer o contrário.
Ele pesquisou arquivos digitais utilizados por museus e bibliotecas, além de estudar convenções de sinalização de banheiros públicos. A ideia era apresentar o Restroom Archive com a seriedade de uma instituição de preservação.
O contraste é proposital.
O assunto pode provocar piadas, mas o arquivo apresenta cada ambiente quase como uma peça de museu.
Localização, descrição e modelo tridimensional criam um registro que poderá continuar disponível mesmo depois que o banheiro original deixar de existir.
Até dois cubos coloridos na Austrália mostram por que banheiros podem virar patrimônio curioso
A ideia parece menos absurda quando observamos como determinados banheiros acabam se transformando em atrações urbanas.
Em março, o CPG mostrou que dois banheiros públicos em formato de cubo colorido instalados na costa da Austrália Ocidental acabaram se tornando pontos de fotografia e parte da identidade visual da orla.
Instalações sanitárias também registram escolhas de design, tecnologias disponíveis, normas de acessibilidade e até limitações econômicas de uma determinada época.
Um banheiro reformado daqui a dez anos pode perder completamente essas características.
Um modelo tridimensional, por outro lado, preserva uma representação do ambiente anterior.
De piada entre amigos a arquivo colaborativo mundial
O Restroom Archive começou com um designer experimentando um aplicativo durante uma noite com amigos.
Três anos depois, o projeto reúne registros feitos em diferentes cidades e começou a receber contribuições internacionais. O crescimento recente também mostra como fotogrametria e LiDAR deixaram de ser tecnologias restritas a equipamentos especializados e passaram a caber no bolso de milhões de pessoas.
Para Welch, o próximo passo é ampliar ainda mais essa diversidade.
Ele quer receber banheiros de lugares onde arquitetura, sinalização, hábitos e decoração sejam diferentes daqueles que conhece nos Estados Unidos. A ambição é transformar um assunto que normalmente passa despercebido em uma coleção visual da vida cotidiana.
No fim, cada registro preserva algo extremamente banal e, justamente por isso, quase nunca documentado.
E você, acha que banheiros públicos realmente merecem ser preservados digitalmente como parte da história e da cultura das cidades?
Fonte
404 Média
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

