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Enquanto adultos estudavam como viver no espaço, crianças do ensino fundamental decidiram colocar canetas de adrenalina em foguete e balão, lançaram o medicamento ao espaço com apoio da NASA e descobriram algo alarmante na volta: parte da epinefrina havia se decomposto em compostos potencialmente tóxicos
Escrito por Ana Alice
Publicado em 01/09/2026 às 17:04
Atualizado em 01/09/2026 às 17:05
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Alunos canadenses entre 9 e 12 anos enviaram amostras de epinefrina em um foguete e balão, e análises posteriores revelaram mudanças químicas que levantaram novas questões sobre medicamentos usados fora da Terra.
Um grupo de alunos canadenses com idades entre 9 e 12 anos decidiu investigar uma pergunta que parecia simples: a epinefrina usada para interromper reações alérgicas graves continuaria funcionando depois de ser exposta às condições encontradas acima da atmosfera terrestre?
O experimento, desenvolvido por estudantes ligados à St. Brother André Elementary School, em Ottawa, acabou revelando alterações químicas inesperadas nas amostras enviadas em missões suborbitais.
O projeto foi selecionado em 2022 pelo Cubes in Space, iniciativa educacional da iEDU realizada em colaboração com a NASA.
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Paulo Nogueira
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Os estudantes enviaram epinefrina pura e solução retirada de um EpiPen em duas plataformas diferentes: um foguete suborbital e um balão científico de grande altitude.
Quando o material voltou, análises realizadas na Universidade de Ottawa mostraram que parte da epinefrina havia se degradado e formado derivados do ácido benzoico descritos pela universidade como tóxicos.
A descoberta ganhou repercussão internacional em fevereiro e março de 2023, inclusive com a frase de uma das estudantes de que “a NASA não sabia”.
O ponto central, porém, era mais específico: o grupo não encontrou evidências de que aquele comportamento da epinefrina tivesse sido testado anteriormente da mesma maneira, apesar de medicamentos desse tipo terem relevância para emergências médicas em missões espaciais.
Pergunta sobre epinefrina surgiu por causa de alergias entre os alunos
A ideia partiu dos alunos do Program for Gifted Learners da St. Brother André Elementary School.
Alguns estudantes conviviam com alergias alimentares e sabiam que a epinefrina é utilizada como tratamento de emergência para a anafilaxia, reação alérgica grave que pode comprometer a respiração e a circulação.
A professora Deborah Quail-Blier incentivava a turma a pensar em problemas que precisariam ser resolvidos caso seres humanos passassem períodos cada vez maiores fora da Terra.
Ao estudar os efeitos da radiação sobre materiais e substâncias, os alunos chegaram à epinefrina e decidiram perguntar o que aconteceria com a molécula longe da proteção oferecida pela atmosfera terrestre.
A hipótese tinha fundamento conhecido.
A epinefrina já é uma substância sensível a condições ambientais, incluindo exposição à luz, e os estudantes imaginaram que a radiação encontrada em voos de grande altitude e suborbitais também poderia provocar mudanças químicas.
Para transformar a pergunta em experimento, a turma buscou a ajuda de Paul Mayer, professor de Química e Ciências Biomoleculares da Universidade de Ottawa e ligado ao John L. Holmes Mass Spectrometry Core Facility.
A equipe de Mayer preparou e analisou as amostras, enquanto os alunos participaram do planejamento do experimento e desenvolveram a forma de acomodar com segurança os pequenos tubos dentro dos cubos permitidos pelo programa.
Experimento do Cubes in Space precisava caber em cubos de quatro centímetros
O Cubes in Space permite que estudantes enviem pequenos experimentos em recipientes de aproximadamente quatro centímetros de lado.
Um EpiPen inteiro não caberia nesse espaço, por isso o experimento não consistiu simplesmente em colocar canetas completas dentro de um foguete.
A equipe preparou dois cubos, cada um contendo uma amostra de epinefrina pura em forma sólida e outra com o líquido retirado de um EpiPen.
Dessa maneira, os alunos poderiam comparar não apenas dois ambientes de voo, mas também o comportamento da substância pura com o da formulação líquida utilizada no dispositivo médico.
O primeiro conjunto de amostras foi lançado em 24 de junho de 2022, em um foguete de sondagem a partir das instalações da NASA em Wallops, na Virgínia.
Segundo o Conselho Escolar Católico de Ottawa, os experimentos dos estudantes estavam entre os projetos canadenses selecionados naquele ano.
A segunda carga viajou em um balão científico de grande altitude.
Enquanto o voo do foguete permaneceu no ambiente suborbital por apenas alguns minutos, o balão passou cerca de oito horas na estratosfera, oferecendo um período de exposição muito maior.
A comparação entre as duas viagens acabou sendo fundamental para entender os resultados.
Assista o vídeo
Análises revelaram degradação diferente entre as amostras
A informação de que a epinefrina retornou com “87% de pureza” foi amplamente reproduzida quando a história ganhou repercussão, mas os resultados completos mostram diferenças importantes entre as amostras.
Na epinefrina pura enviada pelo foguete, os pesquisadores não detectaram alteração significativa da estrutura molecular.
Já na amostra de epinefrina pura que permaneceu durante horas no voo de balão, 87% da substância continuava sendo epinefrina e aproximadamente 13% havia se transformado em derivados do ácido benzoico.
A Universidade de Ottawa descreveu esses derivados como extremamente tóxicos.
O resultado mais impressionante apareceu nas amostras líquidas retiradas do EpiPen.
Depois dos voos, os pesquisadores não detectaram moléculas de epinefrina nas soluções líquidas analisadas, tanto na amostra enviada no foguete quanto naquela transportada pelo balão.
Paul Mayer explicou que a análise por cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas indicou que a epinefrina havia reagido e se decomposto.
Para os pesquisadores, isso levantava dúvidas sobre a eficácia de uma formulação semelhante depois da exposição às condições experimentais testadas.
Resultado não prova que qualquer EpiPen se torna tóxico no espaço
Apesar da repercussão, o experimento precisa ser interpretado dentro de seus limites.
Os alunos trabalharam com pequenas amostras retiradas do dispositivo e colocadas em tubos, e não com EpiPens completos mantidos exatamente nas condições de armazenamento usadas em uma nave espacial.
Além disso, o voo do balão ocorreu na estratosfera, frequentemente chamada de “quase espaço”, enquanto o foguete realizou uma viagem suborbital muito mais curta.
Temperatura, duração da exposição, radiação, embalagem e condições do recipiente podem influenciar a estabilidade de um medicamento.
Por isso, os resultados não demonstram que qualquer caneta de epinefrina levada a uma estação espacial necessariamente se tornará tóxica ou inútil.
O que o experimento mostrou foi que, nas condições testadas, as amostras sofreram degradação suficientemente importante para justificar novas pesquisas e melhores formas de proteção.
Também não se tratou de um ensaio clínico ou de uma pesquisa destinada a modificar orientações médicas para pacientes na Terra.
Era um experimento educacional acompanhado por cientistas, cujos resultados abriram uma questão científica que precisaria ser reproduzida e investigada de forma mais ampla.
Alunos começaram a desenvolver uma proteção para a epinefrina
Quando os resultados foram divulgados pela Universidade de Ottawa em 16 de fevereiro de 2023, os estudantes já planejavam a etapa seguinte.
A ideia era desenvolver algum tipo de cápsula ou sistema de proteção capaz de reduzir a degradação da epinefrina durante futuras exposições.
A turma também pretendia repetir o experimento para verificar se os resultados apareceriam novamente.
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Ana Alice
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Essa etapa é especialmente importante em ciência: um único teste pode revelar um fenômeno interessante, mas sua repetição ajuda a determinar se o efeito é consistente e quais fatores realmente o provocaram.
O Conselho Escolar Católico de Ottawa registrou posteriormente que os estudantes queriam continuar pesquisando formas de preservar epinefrina e soluções de EpiPen em futuras missões.
Até as fontes públicas consultadas em 2026, porém, não foi localizado um estudo científico revisado por pares demonstrando que a cápsula protetora planejada tenha sido validada ou adotada operacionalmente pela NASA.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

