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Enquanto Brasil aposta em Pecém e Açu, rival avança com projeto colossal de até 30 GW para produzir 1,2 milhão de toneladas de hidrogênio verde e 6,6 milhões de toneladas de amônia por ano
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 23/09/2026 às 00:15
Atualizado em 23/09/2026 às 01:00
Energia Renovável
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Projeto Aman avança na Mauritânia com até 30 GW de renováveis e mira 6,6 milhões de toneladas anuais de amônia verde.
Segundo o Ministério de Energia e Petróleo da Mauritânia, o governo do país e a CWP Global deram um passo decisivo no projeto Aman ao estabelecer um novo marco contratual de longo prazo para um dos maiores empreendimentos de hidrogênio verde em desenvolvimento no mundo.
A escala coloca pressão sobre países que também querem vender moléculas verdes ao mercado internacional: a CWP apresenta o complexo com potencial de até 30 GW de geração eólica e solar, enquanto a configuração anunciada pelo governo mira 1,2 milhão de toneladas de hidrogênio verde e 6,6 milhões de toneladas de amônia verde por ano. Do outro lado do Atlântico, o Brasil tenta colocar Pecém, no Ceará, e Açu, no Rio de Janeiro, na mesma corrida por compradores, investimentos e contratos de exportação.
Um acordo tira o Aman do terreno das promessas mais distantes
O projeto não apareceu agora. A CWP começou a trabalhar no Aman em 2020. Um memorando de entendimento veio em 2021 e, no ano seguinte, governo e empresa assinaram um acordo de estruturação.
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A novidade mais recente é mais concreta. A chamada Global Convention definiu as bases contratuais, fiscais, econômicas e de desenvolvimento para as próximas etapas. O documento foi assinado em Nouakchott em 16 de setembro e ganhou nova repercussão internacional nos dias seguintes.
A CWP afirma que o empreendimento chegou à fase de engenharia FEED, quando os principais sistemas começam a ser detalhados antes da decisão de colocar bilhões de dólares na construção. A meta é tomar essa decisão antes de 2030.
Até 30 GW de sol e vento sustentariam uma indústria inteira
Na página atual do projeto, a CWP apresenta o Aman com potencial de até 30 GW de geração combinada, dividida entre recursos solares e eólicos. O complexo ocuparia uma área aproximada de 8.500 km² no norte da Mauritânia.
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Trinta gigawatts não seriam construídos apenas para mandar eletricidade à rede local.
A proposta é usar grande parte dessa energia para alimentar eletrolisadores. Esses equipamentos usam eletricidade para separar a água em hidrogênio e oxigênio.
Quando a eletricidade vem de fontes renováveis, o produto recebe a classificação de hidrogênio verde.
O passo seguinte é transformar essa molécula em algo mais fácil de transportar.
O verdadeiro produto de exportação pode ser a amônia
Transportar hidrogênio puro por longas distâncias ainda é caro e tecnicamente complicado. Por isso, muitos dos grandes projetos mundiais estão olhando para a amônia.
O hidrogênio produzido nos eletrolisadores pode ser combinado ao nitrogênio retirado do ar. O resultado é a amônia, substância que já possui uma cadeia global de transporte e é usada principalmente na produção de fertilizantes.
No Aman, a meta atual divulgada pelo governo é produzir 6,6 milhões de toneladas de amônia verde por ano, além de 1,2 milhão de toneladas anuais de hidrogênio.
É aí que a disputa começa a encostar diretamente no Brasil.
Pecém também quer vender moléculas verdes para fora do país
No Ceará, o Complexo do Pecém vem sendo preparado para funcionar como um grande hub de hidrogênio e derivados.
A área destinada ao projeto possui 1.855,1 hectares e inclui plantas industriais, corredor de utilidades e estrutura para armazenar amônia. A licença prévia atual é válida até outubro de 2027.
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O porto também trabalha numa conexão comercial com a Europa.
Em maio de 2026, Pecém avançou numa parceria com os portos de Roterdã e Duisburg para estruturar uma rota de moléculas verdes entre Ceará, Países Baixos e Alemanha, com objetivo de viabilizar fornecimentos a partir de 2029.
A vantagem brasileira aparece no recurso mais caro dessa equação: eletricidade renovável.
O Ceará estima potencial eólico de 94 GW em terra, outros 117 GW no mar e potencial solar de 643 GW.
Só que ter sol e vento baratos não resolve tudo.
Projetos brasileiros já somam dezenas de bilhões de reais
O tamanho da carteira nacional mostra que o Brasil não está começando do zero.
Relatório técnico publicado pela ANP em 2026 reúne sete projetos industriais que tinham decisão final de investimento prevista para o ano, somando R$ 63 bilhões e 6,15 GW de capacidade de eletrólise.
Pecém concentra boa parte dessa movimentação.
O documento cita projetos da Fortescue, Casa dos Ventos, FRV, Quair e Voltalia, com propostas para produzir hidrogênio, amônia e outros derivados.
A Fortescue aparece com 1,2 GW de eletrólise e investimento estimado em R$ 18 bilhões. O projeto da Casa dos Ventos também prevê 1,2 GW, com R$ 12 bilhões.
Não basta, porém, anunciar capacidade. É preciso chegar à decisão de investimento e conseguir comprador para milhões de toneladas de produto.
Açu tenta montar outro corredor industrial no litoral brasileiro
Mais ao sul, o Porto do Açu constrói sua própria estratégia. O complexo fluminense assinou reservas de área com Fuella, HIF Global e Yamna para projetos ligados a hidrogênio de baixo carbono, amônia e e-metanol.
O projeto da Fuella pode chegar a 400 mil toneladas de amônia verde por ano. A Yamna trabalha com capacidade de até 1 milhão de toneladas anuais, com primeiras moléculas previstas para 2030.
A ideia do Açu vai além de mandar combustível para navios.
O complexo quer conectar produção renovável, hidrogênio, derivados químicos, siderurgia de baixo carbono e infraestrutura portuária.
Em maio de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos voltou a destacar o Açu como parte da estratégia brasileira de corredores verdes e combustíveis de baixo carbono a partir de 2030.
A Mauritânia pretende fazer algo parecido, mas em uma escala que chama atenção.
O projeto africano quer usar hidrogênio até para transformar minério de ferro
A CWP não planeja limitar o Aman à exportação de amônia. A Mauritânia possui grandes reservas de minério de ferro. Com eletricidade renovável e hidrogênio em grande quantidade, parte desse minério poderia passar a ser transformada dentro do próprio país.
O objetivo é abrir espaço para ferro reduzido e aço com emissões muito menores.
O governo também relaciona o projeto à produção de fertilizantes, segurança alimentar e combustíveis limpos.
Isso muda a lógica econômica.
Em vez de exportar apenas eletricidade transformada em hidrogênio, o país tenta atrair indústrias que consumam essa energia no próprio território.
O produto exportado passa a carregar mais valor.
O Brasil tem uma vantagem que ainda precisa virar fábrica
Além disso, Nordeste e outras regiões combinam áreas com bons recursos solares e eólicos, portos de grande porte e uma indústria que poderia consumir derivados de hidrogênio dentro do próprio país.
A EPE levou justamente esse argumento ao World Hydrogen Summit 2026. A estratégia brasileira apresentada em Roterdã envolve não apenas exportação, mas hubs industriais capazes de produzir hidrogênio, amônia, combustíveis sintéticos e outros derivados.
O marco legal também avançou.
A Lei 14.948, de 2024, criou o marco nacional do hidrogênio de baixa emissão, e a ANP passou a receber responsabilidades regulatórias sobre autorização e funcionamento dessa nova atividade.
Agora vem a parte mais difícil: transformar projetos em instalações operacionais.
Aman também precisa provar que consegue chegar à obra
Os 30 GW ainda não estão instalados no deserto da Mauritânia. Não há 6,6 milhões de toneladas de amônia verde saindo de navios.
O projeto está na fase de desenvolvimento e engenharia, enquanto a decisão final de investimento é esperada antes de 2030.
A CWP, por outro lado, já realizou estudos geológicos, geotécnicos, hidrogeológicos e de batimetria para apoiar o desenho das estruturas em terra e no litoral. A companhia também acumulou mais de 30 meses de medição dos recursos solares e eólicos da área.
O próximo salto custa muito mais caro.
Quem chegar primeiro poderá fechar os contratos mais valiosos
Pecém, Açu e Aman não precisam disputar exatamente cada tonelada do mesmo mercado.
A demanda potencial inclui fertilizantes, aço, transporte marítimo, indústria química e combustíveis sintéticos.
Só que compradores capazes de assinar contratos bilionários de longo prazo não são infinitos.
A nova convenção da Mauritânia dá ao Aman uma base contratual mais clara para avançar. No Brasil, projetos em Pecém e Açu tentam percorrer o mesmo caminho por meio de licenciamento, reservas de área, infraestrutura portuária e decisões individuais de investimento.
O tamanho anunciado na costa africana funciona como aviso.
Enquanto o Brasil tenta transformar seu enorme potencial de sol e vento em uma nova indústria exportadora, outros países com recursos semelhantes já estão preparando projetos capazes de colocar milhões de toneladas de amônia verde no Atlântico todos os anos.
A corrida não será vencida por quem tiver o mapa com mais gigawatts. Será por quem conseguir transformar esses gigawatts em fábricas, contratos e navios carregados.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

