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Escassez de água pode atingir 6,5 bilhões de pessoas até 2050 e transformar recurso básico em uma das maiores crises do planeta, cientistas alertam

Escassez de água pode atingir 6,5 bilhões de pessoas até 2050 e transformar recurso básico em uma das maiores crises do planeta, cientistas alertam

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Escassez de água pode atingir 6,5 bilhões de pessoas até 2050 e transformar recurso básico em uma das maiores crises do planeta, cientistas alertam

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 11/09/2026 às 09:34

Atualizado em 11/09/2026 às 09:41

Ciência e Tecnologia

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Escassez de água pode atingir 6,5 bilhões de pessoas até 2050 e transformar recurso básico em uma das maiores crises do planeta, cientistas alertam

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Escassez severa de água pode atingir 6,5 bilhões de pessoas, equivalentes a 65,5% da população mundial, até 2050 em um cenário de fragmentação, desigualdade elevada, crescimento populacional e avanço tecnológico lento; novo estudo publicado na Nature Geoscience usa inteligência artificial e décadas de dados para mostrar que distribuição desigual, consumo, urbanização e capacidade de adaptação podem transformar a segurança hídrica em uma das maiores crises globais das próximas décadas.

Até 6,5 bilhões de pessoas, equivalentes a 65,5% da população mundial projetada no cenário analisado, podem enfrentar escassez severa de água em 2050. A projeção aparece em um novo estudo que conclui que o futuro hídrico do planeta não dependerá apenas da quantidade física de água disponível, mas também da desigualdade, do crescimento populacional, da urbanização, da eficiência no uso do recurso e da capacidade de diferentes sociedades de se adaptar à pressão crescente sobre rios, aquíferos e outros sistemas de abastecimento.

Segundo a Nature Geoscience estudo publicado na Nature Geoscience, a projeção de 6,5 bilhões de pessoas corresponde ao chamado SSP3, cenário de desenvolvimento marcado por fragmentação internacional, elevados desafios sociais, crescimento populacional e progresso tecnológico mais lento. O trabalho de Jichuan Sheng, Qian Cheng e Hongqiang Yang foi publicado em 20 de janeiro de 2026 e utilizou aprendizado de máquina para reconstruir décadas de padrões de consumo e projetar diferentes futuros até o fim do século.

6,5 bilhões de pessoas podem enfrentar escassez severa já em 2050

O número central do estudo dimensiona a escala do problema. No cenário SSP3, 6,5 bilhões de habitantes estariam submetidos a condições classificadas pelos pesquisadores como escassez severa em meados do século. Isso corresponde a 65,5% da população global prevista dentro desse cenário.

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A projeção não significa que 6,5 bilhões de pessoas necessariamente ficarão completamente sem água nas torneiras. O estudo emprega um índice de pressão entre a retirada humana e a quantidade renovável de água disponível depois de preservadas necessidades ambientais. Quando essa relação ultrapassa determinados limites, a região entra em níveis crescentes de estresse e escassez.

Ainda assim, atingir o patamar classificado como severo significa que a demanda humana exerce pressão muito elevada sobre o recurso renovável disponível. Em regiões densamente povoadas, essa condição pode aumentar a competição entre abastecimento urbano, agricultura, indústria e demais atividades dependentes de água.

Cientistas usaram inteligência artificial para projetar o consumo mundial

Em vez de simplesmente extrapolar tendências lineares de consumo, os pesquisadores construíram o Machine Learning-based Global Water-use Forecasting, ML-GWF, um modelo global de previsão de uso da água baseado em aprendizado de máquina.

O sistema foi treinado com décadas de dados históricos relacionados ao uso de água e a fatores socioeconômicos. Entre as variáveis consideradas aparecem população, produto interno bruto, urbanização, área irrigada, eficiência da irrigação, uso industrial e eficiência municipal, além de padrões históricos de consumo.

Os autores então aplicaram o modelo aos diferentes Shared Socioeconomic Pathways, os SSPs, cenários amplamente usados na pesquisa climática e socioeconômica para representar futuros alternativos de desenvolvimento mundial.

Cenário mais crítico combina fragmentação, crescimento e tecnologia mais lenta

O resultado de 6,5 bilhões não aparece em todos os caminhos possíveis. Ele está associado ao SSP3, cenário no qual o mundo se torna mais fragmentado, a cooperação internacional diminui, o crescimento populacional permanece elevado em determinadas regiões e o desenvolvimento tecnológico avança de maneira mais lenta.

Nesse caminho, o consumo global de água também apresenta a maior trajetória de crescimento entre os cenários estudados. Até 2100, a utilização mundial seria aproximadamente 32% superior ao nível de referência de 2019.

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Para comparação, no cenário SSP1, estruturado em torno de sustentabilidade e políticas coordenadas, o crescimento projetado do uso global seria de apenas 6,4% até 2100. No SSP2, mais próximo da continuidade de tendências intermediárias, a alta alcançaria 25,7%.

A diferença mostra por que decisões econômicas e sociais tomadas nas próximas décadas podem alterar profundamente a quantidade de água retirada pelo conjunto da população.

Escassez severa é calculada pela pressão sobre a água realmente disponível

Para transformar demanda e disponibilidade em um indicador comparável, os pesquisadores utilizaram o Water Scarcity Index, WSI.

O cálculo relaciona a retirada total de água à quantidade renovável de água azul, formada por recursos superficiais e subterrâneos, depois de descontado o fluxo ambiental necessário para sustentar os ecossistemas de água doce.

No modelo, os autores assumem que 80% do escoamento disponível deve permanecer destinado às necessidades ambientais, seguindo uma referência metodológica adotada no estudo. Dessa maneira, apenas a parcela restante entra efetivamente na conta da disponibilidade para retirada humana antes que o sistema sofra forte pressão ambiental.

Um WSI superior a 0,5 representa estresse hídrico. Acima de 1, a situação passa a ser classificada como escassez. Quando ultrapassa 2, entra na categoria de escassez severa, justamente o limite utilizado para chegar aos 6,5 bilhões de pessoas projetados para 2050 no SSP3.

Ásia concentra algumas das áreas mais pressionadas do planeta

A crise projetada também não é distribuída uniformemente. Os pesquisadores identificaram fortes diferenças geográficas, com Sul e Leste da Ásia aparecendo entre as regiões que concentram os maiores aumentos na população submetida à escassez.

Os mapas do estudo mostram expansão especialmente grave das condições de escassez no Norte da África, Oriente Médio e Sul da Ásia. Nos cenários SSP2 e SSP3, grandes áreas dessas regiões avançam inclusive para a faixa de escassez extrema, definida no trabalho por valores de WSI superiores a 5.

A África Subsaariana também aparece como um dos grandes focos futuros por combinar crescimento populacional, expansão da demanda e limitações econômicas e institucionais para adaptação.

A conclusão dos pesquisadores é que analisar apenas médias globais pode esconder o problema central: bilhões de pessoas podem estar concentradas justamente nas regiões onde o equilíbrio entre demanda e disponibilidade é mais delicado.

Índia pode concentrar uma população gigantesca sob pressão hídrica

Entre os países mencionados no estudo, a Índia representa uma das situações mais expressivas. No horizonte de 2100, a população vivendo sob escassez pode alcançar 2,23 bilhões de pessoas no país, dependendo do cenário analisado.

Índia pode concentrar uma população gigantesca sob pressão hídrica

A China apresenta comportamento diferente em parte das projeções. Mudanças demográficas e políticas de gestão podem reduzir o número de chineses submetidos à escassez em determinados cenários, ainda que o Leste Asiático permaneça como uma região de elevada importância para a segurança hídrica mundial.

Desigualdade pode transformar água disponível em água inacessível

Um dos aspectos mais importantes da pesquisa é a conclusão de que desigualdade não deve ser tratada apenas como consequência da escassez hídrica. Ela própria pode ajudar a produzir e amplificar o problema.

O SSP4, caracterizado por níveis elevados de desigualdade, oferece um exemplo particularmente revelador.

Nesse cenário, o crescimento agregado do uso mundial de água até 2100 seria de aproximadamente 15,6%, significativamente inferior ao aumento projetado para o SSP3. Ainda assim, a desigualdade no acesso e no consumo permanece elevada.

Isso acontece porque menor consumo total não significa necessariamente segurança hídrica. Uma sociedade pode consumir relativamente menos água porque grandes parcelas de sua população possuem acesso limitado ao recurso, à infraestrutura e às tecnologias necessárias.

Na interpretação dos autores, portanto, reduzir a demanda global sem reduzir a desigualdade pode produzir um resultado estatisticamente eficiente, mas socialmente frágil.

Nem a tecnologia sozinha seria suficiente para resolver o problema

Outra descoberta contraria uma solução frequentemente apresentada para a crise hídrica: simplesmente tornar todos os sistemas mais eficientes por meio da tecnologia.

No cenário SSP5, caracterizado por desenvolvimento acelerado e forte avanço tecnológico, o modelo encontra melhorias na eficiência global do uso da água. Entretanto, essas melhorias podem vir acompanhadas de aumento das desigualdades sociais e espaciais na distribuição do recurso.

Em outras palavras, uma cidade, indústria ou região economicamente poderosa pode instalar sistemas avançados de tratamento, bombeamento, irrigação, reutilização e distribuição, enquanto localidades com menos capital continuam submetidas a déficits.

Para os pesquisadores, o resultado demonstra que eficiência tecnológica e segurança hídrica não são automaticamente equivalentes.

Até o cenário mais sustentável continua mostrando bilhões em risco

Talvez um dos dados mais preocupantes do estudo apareça justamente no cenário considerado mais favorável.

No SSP1, associado à sustentabilidade, maior cooperação internacional e uso mais eficiente dos recursos, 4,3 bilhões de pessoas ainda poderiam viver sob escassez severa de água em 2100, correspondendo a aproximadamente 62% da população projetada nesse cenário.

Já no SSP2, que representa uma trajetória intermediária mais próxima da continuidade das tendências atuais, a projeção chega a 5,8 bilhões de pessoas em situação de escassez em 2100.

Escassez de água pode atingir 6,5 bilhões de pessoas até 2050 e transformar recurso básico em uma das maiores crises do planeta, cientistas alertam

Os autores relacionam a persistência desses números ao peso da população, à pressão já existente sobre os recursos hídricos e à dificuldade de alterar rapidamente estruturas de produção e consumo construídas ao longo de décadas.

No pior caminho analisado, número pode chegar a 8 bilhões até 2100

A projeção não termina em 2050. Caso o mundo permaneça no cenário de fragmentação representado pelo SSP3, o modelo calcula que a população submetida à escassez severa pode alcançar aproximadamente 8 bilhões de pessoas em 2100.

Esse total corresponderia a cerca de 63% da população mundial daquele cenário. O percentual é ligeiramente menor que os 65,5% calculados para 2050 porque a própria população projetada muda ao longo do século, mas o número absoluto de pessoas expostas aumenta em cerca de 1,5 bilhão.

Os autores afirmam que essa estimativa supera grande parte das projeções anteriores e atribuem parte da diferença ao modelo utilizado, que tenta incorporar a adaptação humana e fatores socioeconômicos de maneira mais detalhada.

Os mapas, entretanto, são projeções globais e regionalizadas. O próprio trabalho ressalta que o processo de redução de escala utilizado para mostrar a distribuição geográfica serve para indicar padrões potenciais e não deve ser interpretado como previsão local validada para cada cidade ou bacia individualmente.

Cientistas alertam que a crise da água também será uma crise de escolhas humanas

A principal mensagem do estudo vai além da imagem tradicional de reservatórios vazios e rios encolhendo. Para os pesquisadores, o futuro da água será determinado tanto por limitações ambientais quanto pela maneira como sociedades distribuem riqueza, infraestrutura, tecnologia e acesso aos recursos.

O cenário que leva 6,5 bilhões de pessoas à escassez severa em 2050 não é apresentado como destino inevitável. Ele representa um futuro possível caso o desenvolvimento mundial siga uma trajetória de fragmentação, elevados desafios sociais e progresso tecnológico insuficiente.

A conclusão dos autores é que soluções exclusivamente tecnológicas serão insuficientes. Reduzir perdas, melhorar a irrigação, aumentar eficiência urbana e desenvolver novas infraestruturas continuam importantes, mas precisam ser combinados com gestão integrada e mais equitativa da água.

Se o cenário mais crítico se materializar, em menos de 25 anos o planeta poderá chegar a uma situação na qual quase dois de cada três habitantes vivam em regiões submetidas a escassez severa. A projeção de 6,5 bilhões transforma a segurança hídrica de uma preocupação ambiental localizada em um dos maiores desafios econômicos, sociais e estratégicos deste século.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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