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Estudo projeta salto de 68% nos biocombustíveis até 2030 e alerta que expansão pode pressionar até 36 milhões de hectares, com Brasil entre os mercados centrais
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 29/09/2026 às 00:13
Atualizado em 29/09/2026 às 00:30
Biocombustíveis Renováveis
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Produção global de biocombustíveis pode crescer 68% até 2030 e pressionar até 36 milhões de hectares de terras agrícolas, segundo estudo que coloca Brasil entre os mercados centrais dessa expansão energética.
Uma corrida mundial para substituir parte do petróleo por combustíveis de origem agrícola pode ganhar uma escala inédita até o fim da década. Um estudo divulgado pela Chatham House projeta que a produção global de biocombustíveis pode avançar 68% entre 2025 e 2030, enquanto novas metas de mistura adotadas por grandes economias aumentam a disputa por terras, grãos, óleos vegetais e água.
O número que mais chama atenção não está apenas na produção. Segundo a análise, a expansão das políticas de biocombustíveis pode pressionar até 36 milhões de hectares adicionais de terras agrícolas até 2030. É uma área próxima ao tamanho da Alemanha. O Brasil aparece entre os países diretamente envolvidos nessa transformação, ao lado de grandes produtores e consumidores como Estados Unidos, Índia e Indonésia.
Até 36 milhões de hectares podem entrar na conta da expansão
O relatório foi publicado em setembro de 2026 pela Chatham House, em parceria com o Forest Stewardship Council, e ganhou repercussão internacional depois de ser destacado pela Reuters. A análise examina o efeito de mandatos mais agressivos de mistura de biocombustíveis adotados ou ampliados em resposta à crise de oferta de energia no Golfo e à busca por menor dependência de combustíveis fósseis.
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O ponto central é que transformar mais milho, cana-de-açúcar, óleos vegetais e outras matérias-primas em combustível desloca parte da produção agrícola para o setor energético. Quando essa demanda cresce em vários países ao mesmo tempo, o efeito pode se espalhar pelo preço dos alimentos, pela ocupação das terras e pela necessidade de ampliar áreas cultivadas.
A estimativa de até 36 milhões de hectares não significa que essa área inteira será desmatada. O estudo trata de pressão adicional sobre terras agrícolas e sobre o uso do solo caso os novos mandatos sejam implementados na escala projetada. Mesmo assim, a dimensão do número ajuda a mostrar como uma política criada para reduzir a dependência do petróleo pode produzir consequências muito além dos postos de combustíveis.
Brasil está no centro porque já opera em escala que poucos países alcançaram
O Brasil entra nessa discussão em uma posição diferente da maioria dos países. O país já possui uma das maiores cadeias de biocombustíveis do mundo, com produção consolidada de etanol de cana e milho e uma indústria de biodiesel integrada ao agronegócio. Isso significa que qualquer aceleração global do setor encontra no mercado brasileiro infraestrutura, experiência industrial, disponibilidade de matéria-prima e uma política de mistura já amadurecida.
Ao mesmo tempo, justamente por operar em grande escala, o Brasil também expõe com mais clareza o dilema levantado pelo estudo: quanto maior a participação dos biocombustíveis na matriz de transportes, maior a necessidade de garantir que o crescimento não dependa simplesmente da abertura contínua de novas áreas produtivas.
Esse debate tende a ficar ainda mais importante porque diferentes combustíveis competem por matérias-primas semelhantes. Etanol, biodiesel e combustíveis sustentáveis de aviação podem disputar açúcar, milho, soja, óleos usados, resíduos e outras fontes de carbono. À medida que governos elevam metas de mistura, a indústria precisa produzir mais sem transformar a expansão energética em pressão descontrolada sobre agricultura e ecossistemas.
O risco aparece quando combustível começa a disputar espaço com comida
O relatório aponta que uma expansão rápida dos biocombustíveis convencionais pode apertar mercados agrícolas globais. Isso ocorre porque parte das safras que antes atendia prioritariamente alimentação humana, ração animal ou usos industriais passa a ser direcionada para combustíveis. Em um cenário de oferta limitada, secas, conflitos ou perda de produtividade, essa mudança pode ampliar a volatilidade dos preços.
A pressão não termina na terra. Culturas agrícolas exigem água, fertilizantes, transporte, armazenamento e energia. Se milhões de hectares adicionais forem necessários para atender novos mandatos, o impacto potencial se espalha por cadeias logísticas inteiras. Regiões com maior disponibilidade de solo e produtividade agrícola, como partes do Brasil, tornam-se ainda mais estratégicas.
Por isso, a discussão sobre biocombustíveis deixou de ser apenas uma comparação entre gasolina, diesel, etanol e biodiesel. Ela passou a envolver segurança energética, segurança alimentar, uso da terra, biodiversidade e competitividade industrial ao mesmo tempo.
Resíduos ganham força como alternativa para crescer sem ocupar tanta terra
Uma das principais recomendações do estudo é aumentar a participação de biocombustíveis feitos a partir de resíduos e matérias-primas que não dependam diretamente da expansão de lavouras alimentares. Óleos usados, resíduos agrícolas, gorduras residuais e outras fontes secundárias podem reduzir parte da disputa por terra, embora também tenham oferta limitada e custos de processamento próprios.
Essa mudança tecnológica é importante porque o crescimento de 68% projetado para a produção mundial até 2030 não poderá ser sustentado indefinidamente apenas replicando o modelo tradicional de transformar culturas agrícolas em combustível. Quanto maior a escala, maior a necessidade de ganhos de produtividade, rastreabilidade e aproveitamento de resíduos.
Para o Brasil, o cenário pode representar ao mesmo tempo oportunidade e pressão. Uma expansão mundial dos biocombustíveis fortalece um setor em que o país já possui vantagens industriais e agrícolas, mas também aumenta a cobrança por eficiência no uso da terra e comprovação ambiental da matéria-prima.
Uma transição energética que pode redesenhar agricultura e combustíveis
A projeção para 2030 mostra que os biocombustíveis podem ocupar um espaço muito maior na matriz mundial em apenas alguns anos. Um avanço de 68% colocaria volumes adicionais enormes de etanol, biodiesel e outros combustíveis renováveis no mercado, reduzindo parte da demanda por derivados de petróleo em transportes.
O efeito colateral é que energia e agricultura ficam ainda mais conectadas. Decisões tomadas por governos sobre mistura obrigatória podem alterar preços de commodities, investimento em usinas, demanda por terra e estratégias de produtores rurais em continentes diferentes.
O Brasil está entre os países com maior capacidade de se beneficiar dessa expansão, mas também entre aqueles onde o equilíbrio entre produção de energia, alimentos e preservação territorial será mais observado. A pergunta para os próximos anos não será apenas quanto biocombustível o mundo consegue produzir, mas quanto consegue produzir sem transferir o custo da transição para a terra, a água e os alimentos.
Se a produção mundial realmente crescer perto de 70% até 2030, o setor de biocombustíveis deixará de ser apenas uma alternativa complementar ao petróleo e passará a disputar recursos em uma escala muito maior.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

