4 min de leitura
Europa e a África em breve estarão conectadas, se o projeto sair do papel, em uma ligação de 38,5 km, com 27,7 km sob o mar, 30 minutos de viagem e 475 metros de profundidade
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 07/09/2026 às 22:52
Atualizado em 07/09/2026 às 22:53
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
A proposta estudada por Espanha e Marrocos prevê duas galerias ferroviárias e uma passagem central de serviço sob o Estreito de Gibraltar. Antes de qualquer obra principal, porém, o projeto depende de novas análises sobre sismicidade, geologia e métodos de escavação em uma região de elevada complexidade técnica.
A ligação ferroviária entre Espanha e Marrocos permanece em fase de estudos, sem escavação do túnel principal. Se construída, a infraestrutura teria 38,5 quilômetros de extensão, aproximadamente 27,7 quilômetros deles no trecho submarino, e permitiria uma travessia de passageiros estimada em cerca de 30 minutos.
O ponto mais profundo do projeto chegaria a aproximadamente 475 metros abaixo do nível do mar. Essa medida inclui não apenas a coluna de água, mas também a camada de rocha que separaria as galerias do fundo do Estreito de Gibraltar.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Por que a menor distância não é a melhor rota
Na parte mais estreita do estreito, cerca de 14 quilômetros de água separam o sul da Espanha do norte do Marrocos. A distância reduzida, porém, não corresponde ao trajeto considerado mais favorável para uma ligação ferroviária escavada sob o fundo marinho.
O relevo submarino é irregular e alcança profundidades muito maiores em determinados pontos. Por isso, o traçado estudado passa pelo chamado Umbral de Camarinal, uma elevação submarina onde a coluna de água chega a aproximadamente 290 metros.
Mesmo nessa área, as galerias teriam de passar muito abaixo do leito. O desenho considera uma cobertura mínima próxima de 175 metros de rocha sobre os túneis, condição que leva a infraestrutura à profundidade máxima de cerca de 475 metros em relação à superfície do mar.
A diferença entre profundidade da água e profundidade do túnel ajuda a explicar a escala da escavação. O desafio não termina ao alcançar o fundo do estreito, porque a obra ainda precisaria atravessar centenas de metros de formação geológica antes de chegar à cota prevista para as galerias.
O projeto prevê três galerias paralelas
Embora seja frequentemente chamado de um único túnel, o sistema foi concebido com três passagens. Duas seriam destinadas aos trens, cada uma com uma linha ferroviária e aproximadamente 7,9 metros de diâmetro interno.
Entre as galerias ferroviárias ficaria uma terceira passagem, com cerca de seis metros de diâmetro, destinada a segurança, manutenção e emergência. Conexões transversais previstas a aproximadamente cada 340 metros permitiriam a circulação entre os três túneis quando necessário.
A configuração segue o mesmo princípio geral empregado sob o Canal da Mancha, onde duas galerias ferroviárias também são acompanhadas por um túnel central de serviço. A passagem intermediária permite que parte das operações de manutenção e evacuação ocorra separadamente das linhas utilizadas pelos trens.
Geologia e atividade sísmica pesam nos estudos
O Estreito de Gibraltar está em uma região de interação entre as placas Africana e Eurasiática, na qual a deformação tectônica não se concentra em uma única linha. Essa característica exige estudos específicos sobre movimentos do terreno e atividade sísmica antes de uma eventual perfuração em grande escala.
Um memorando divulgado pelo governo espanhol estabeleceu cooperação de três anos entre instituições de Espanha e Marrocos para aprofundar análises de sismicidade e geodinâmica no estreito, incluindo terremotos, possíveis tsunamis e a integração de instrumentos de observação.
A composição das rochas acrescenta outra dificuldade. Estudos do projeto analisam formações de flysch, conjuntos de camadas sedimentares com características diferentes entre si e que podem apresentar comportamentos distintos durante a escavação.
Essas condições influenciam diretamente a escolha dos métodos construtivos e das máquinas capazes de atravessar os trechos mais difíceis. Os trabalhos técnicos também consideram a possibilidade de executar primeiro uma galeria de reconhecimento para obter informações adicionais sobre o terreno antes das estruturas ferroviárias definitivas.
Uma ligação discutida há mais de quatro décadas
A cooperação entre Espanha e Marrocos para estudar uma ligação fixa começou em 1979, quando os dois países formalizaram um acordo científico e técnico. No ano seguinte, outro acordo estabeleceu instrumentos específicos para desenvolver as pesquisas relacionadas ao projeto.
Desde então, diferentes soluções foram examinadas e os estudos foram atualizados à medida que avançaram o conhecimento do fundo do estreito e as tecnologias disponíveis para escavação. O projeto atual inclui novos levantamentos sísmicos, análises geológicas e avaliação dos equipamentos necessários para atravessar as áreas mais complexas.
Esse histórico não significa que a construção esteja contratada ou em andamento. A etapa continua concentrada em estudos técnicos, e uma eventual galeria exploratória poderia anteceder a perfuração das duas galerias ferroviárias e da passagem central de serviço.
Uma reportagem do UOL informou que a execução dessa galeria de reconhecimento poderia, por si só, exigir vários anos, enquanto os trabalhos permanecem voltados à análise das condições necessárias para uma futura obra.
A publicação também apontou 2035 a 2040 como uma janela mais realista para uma eventual conclusão, caso o empreendimento avance, em lugar da expectativa anterior de ter a ligação disponível para a Copa do Mundo de 2030. Até agora, não há data oficial definida para o início das obras do túnel principal.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

