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Família acha que adotou um cachorro perdido, cuida dele por 4 meses e descobre que era um filhote de lobo-guará ameaçado de extinção

Família acha que adotou um cachorro perdido, cuida dele por 4 meses e descobre que era um filhote de lobo-guará ameaçado de extinção

MG

8 min de leitura

Família acha que adotou um cachorro perdido, cuida dele por 4 meses e descobre que era um filhote de lobo-guará ameaçado de extinção

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 10/09/2026 às 13:52

Atualizado em 10/09/2026 às 13:53

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Lobo-guará adotado como cachorro por engano no Zoo Pomerade, em Santa Catarina. Foto: Divulgação/ZoológicoPomerode

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Família de Minas Gerais encontrou um pequeno animal sozinho na rua, acreditou ter resgatado um cachorro e cuidou dele durante quatro meses, até que pernas, orelhas e pelagem revelaram que o novo pet era, na verdade, um lobo-guará, espécie silvestre classificada como vulnerável à extinção no Brasil e posteriormente encaminhada ao Bioparque Zoo Pomerode.

Um pequeno animal peludo, de olhos atentos e comportamento brincalhão apareceu sozinho durante a noite nas ruas de Monte Santo de Minas, no Sudoeste de Minas Gerais. A aparência lembrava tanto a de um filhote de cachorro que ele acabou acolhido e passou os quatro meses seguintes vivendo sob cuidados humanos, até que seu crescimento revelou uma história completamente diferente: o suposto cão era um lobo-guará, Chrysocyon brachyurus, uma espécie silvestre classificada como vulnerável no Brasil.

Segundo a GZH, o animal foi encontrado vagando sozinho pelas ruas de Monte Santo de Minas e só teve sua verdadeira identidade percebida depois que mudanças na cor da pelagem, no comprimento das pernas e no tamanho das orelhas começaram a chamar a atenção. Após a identificação e o acionamento dos órgãos ambientais, ele deixou a casa onde havia sido criado e foi encaminhado ao Bioparque Zoo Pomerode, em Santa Catarina, no fim de 2022.

Durante quatro meses, ele viveu como se fosse um cachorro

Quando foi encontrado, o animal apresentava características capazes de confundir uma pessoa sem experiência com fauna silvestre. Era pequeno, peludo, tinha orelhas grandes, olhos atentos e demonstrava interesse por objetos e brincadeiras normalmente associados à rotina de filhotes domésticos.

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O animal foi acolhido e permaneceu sob cuidados humanos por aproximadamente quatro meses. Nesse período, no entanto, seu corpo começou a assumir proporções cada vez menos compatíveis com as de um cachorro comum.

Cássio de Sousa Borges, analista ambiental do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais, explicou que apareceram alterações marcantes na pelagem e um evidente alongamento das pernas e das orelhas, características físicas típicas do lobo-guará. Foi essa transformação que levou os responsáveis a procurar informações junto aos órgãos ambientais.

Pernas e orelhas começaram a denunciar o engano

A aparência peculiar do lobo-guará adulto ajuda a compreender por que a confusão não poderia durar indefinidamente. A espécie tem membros muito longos, grandes orelhas eretas e uma pelagem predominantemente avermelhada, com áreas negras no focinho, nas patas e na região da nuca.

Dados técnicos do ICMBio indicam que um lobo-guará pode apresentar comprimento total médio de aproximadamente 1,49 metro e peso em torno de 34 quilos. Apesar do nome popular e da aparência, trata-se de uma espécie bastante distinta dos cães domésticos e dos lobos do gênero Canis.

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À medida que o filhote mineiro crescia, portanto, aquilo que inicialmente podia lembrar um cachorro começou a assumir a silhueta característica de um dos maiores canídeos da América do Sul. As pernas ficaram proporcionalmente muito compridas e as orelhas ganharam o aspecto ereto que se tornou decisivo para despertar a desconfiança.

Órgãos ambientais confirmaram que o novo “pet” era silvestre

Depois que surgiram dúvidas sobre a espécie, foram procurados órgãos ambientais. A avaliação esclareceu que o animal não era um cão, mas um lobo-guará.

A constatação mudou completamente o destino do filhote. Animais silvestres não podem simplesmente ser mantidos como animais domésticos, e a criação desde muito jovem também trouxe outro problema: ele já havia passado uma fase importante de desenvolvimento convivendo com seres humanos em vez de aprender comportamentos diretamente com a mãe e com o ambiente natural.

Em novembro de 2022, o animal foi resgatado pelos órgãos responsáveis e encaminhado ao Bioparque Zoo Pomerode, em Santa Catarina. A instituição passou a oferecer uma estrutura preparada para receber o lobo-guará e avaliar suas condições de adaptação.

Quatro meses sob cuidados humanos impediram uma simples soltura

Levar o animal para uma área de mata e simplesmente soltá-lo não era uma alternativa considerada segura. O período passado em uma residência havia interferido diretamente na forma como o lobo-guará se relacionava com seres humanos e com o próprio ambiente.

Lobo-guará adotado como cachorro por engano no Zoo Pomerade, em Santa Catarina. Foto: Divulgação/ZoológicoPomerode

A bióloga educadora Jenifer Kroth explicou que, por não ter convivido com a mãe durante aquela etapa da vida, o animal não havia aprendido adequadamente comportamentos essenciais, como buscar alimento, encontrar abrigo e defender-se sozinho. Uma soltura poderia, portanto, colocá-lo em risco.

Geórgia Backes, bióloga do Bioparque Zoo Pomerode, também afirmou posteriormente que o animal havia se adaptado aos cuidados humanos desde muito jovem.

Essa condição tornava o retorno à natureza arriscado justamente porque faltavam habilidades necessárias para procurar comida e enfrentar ameaças sem auxílio.

Nova casa ganhou toca, lago, árvores e alimentação específica

No Bioparque Zoo Pomerode, a rotina ficou muito diferente daquela vivida dentro de uma residência. O lobo-guará passou a permanecer em ambiente preparado para estimular comportamentos naturais, com árvores frutíferas, arbustos, toca, lago e outros elementos associados ao habitat da espécie.

Também passou a receber dieta compatível com sua biologia. O lobo-guará é um animal onívoro e oportunista, capaz de consumir tanto alimentos de origem vegetal quanto animais.

O ICMBio informa que a alimentação da espécie inclui diversos frutos, com destaque para a lobeira, além de pequenos vertebrados e artrópodes. No bioparque, a dieta oferecida ao animal passou a incluir itens como carne, frango, ovo cozido, ração e frutas, distribuídos de acordo com o manejo estabelecido pela equipe técnica.

Animal também precisou reaprender a agir como um lobo-guará

A alimentação era apenas parte do processo. A instituição passou a desenvolver atividades de enriquecimento ambiental, nas quais diferentes objetos, materiais, cheiros e texturas são introduzidos para estimular comportamentos, sentidos e instintos.

Divulgação/ZoológicoPomerode

O lobo-guará também passou por condicionamento com reforço positivo, estratégia utilizada para facilitar procedimentos de medicina preventiva sem depender de intervenções desnecessariamente invasivas.

Outro elemento importante foi a possibilidade de contato adequado com indivíduos da própria espécie. O objetivo não era transformar completamente um animal habituado desde filhote à presença humana, algo que não poderia ser simplesmente revertido, mas proporcionar condições mais próximas das necessidades biológicas de um lobo-guará.

Espécie está classificada como vulnerável no Brasil

O caso ganha relevância adicional porque o lobo-guará não é apenas um animal silvestre protegido. O Chrysocyon brachyurus aparece na classificação brasileira de conservação na categoria Vulnerável, VU.

O ICMBio relaciona ameaças importantes para a espécie, entre elas a perda e transformação de habitat, atropelamentos, doenças e conflitos relacionados à predação de animais domésticos.

Uma avaliação de risco publicada pelo instituto apontou que essas pressões podem provocar redução significativa das populações ao longo das gerações.

O lobo-guará está fortemente associado a áreas abertas, especialmente ao Cerrado, onde utiliza campos, cerrados e outras formações.

A transformação desses ambientes e a expansão da infraestrutura rodoviária criam situações em que animais podem se aproximar de áreas ocupadas por pessoas, sofrer atropelamentos ou entrar em conflitos.

O animal que viveu como cachorro acabou se tornando pai

A trajetória ganhou um novo capítulo aproximadamente dois anos depois. Em setembro de 2024, o Conselho Regional de Medicina Veterinária de Santa Catarina informou que o lobo-guará que havia vivido quatro meses como cachorro em Minas Gerais havia se tornado pai no Bioparque Zoo Pomerode.

A reprodução chamou a atenção da equipe porque o macho ainda era jovem e a fêmea também tinha histórico de resgate e características comportamentais que tornavam o nascimento pouco previsível.

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A gestação durou 65 dias e resultou em cinco filhotes, nascidos de parto natural. Quando a informação foi divulgada, todos estavam recebendo acompanhamento de médicos-veterinários, zootecnistas e biólogos.

Cinco filhotes transformaram um resgate improvável em história de conservação

Para a equipe do bioparque, a reprodução demonstrou que os animais encontraram condições adequadas para formar um casal e completar o ciclo reprodutivo. O caso passou, assim, de uma história incomum de identificação equivocada para um episódio relacionado também à conservação de uma espécie ameaçada.

O macho que chegou ao zoológico depois de passar meses dentro de uma casa conseguiu desenvolver-se, conviver com outro lobo-guará e reproduzir-se. Em 2024, seus cinco filhotes estavam saudáveis e recebiam os cuidados da mãe e da equipe especializada.

O episódio também evidencia um desafio enfrentado pelos centros que recebem fauna silvestre: nem todo animal resgatado pode voltar ao ambiente natural.

O objetivo de reabilitação depende da história individual, da condição física, do comportamento e da capacidade efetiva de sobreviver sem assistência humana.

O que fazer ao encontrar um filhote silvestre

A história de Monte Santo de Minas terminou com o animal recebendo cuidados especializados, mas o episódio mostra por que a aparência de um filhote não é suficiente para determinar sua espécie ou decidir levá-lo para casa.

Animais jovens podem apresentar proporções, pelagem e comportamentos diferentes daqueles observados nos adultos. Além disso, encontrar um filhote sozinho não significa necessariamente que ele tenha sido abandonado.

A situação deve ser avaliada por profissionais ou autoridades ambientais antes de qualquer tentativa de criação doméstica.

No caso do lobo-guará mineiro, quatro meses foram suficientes para criar um vínculo intenso com seres humanos e reduzir suas possibilidades de retorno seguro ao ambiente natural.

O filhote que parecia um cachorro cresceu, revelou pernas longas, orelhas enormes e a pelagem típica de sua espécie, precisou atravessar mais de mil quilômetros até uma instituição especializada em Santa Catarina e, dois anos depois, protagonizou outra reviravolta: tornou-se pai de cinco novos lobos-guarás.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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