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Família vive 12 anos ao lado de vizinha idosa sem trocar uma palavra, um dia recebe um bilhete dizendo “minha mãe morreu”, anos depois, descobre que ela pesava menos de 39 quilos, vivia de purê de maçã e barrinhas, consegue duas cirurgias de catarata e a leva para um lar onde quase todos usam língua de sinais

Família vive 12 anos ao lado de vizinha idosa sem trocar uma palavra, um dia recebe um bilhete dizendo “minha mãe morreu”, anos depois, descobre que ela pesava menos de 39 quilos, vivia de purê de maçã e barrinhas, consegue duas cirurgias de catarata e a leva para um lar onde quase todos usam língua de sinais

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Família vive 12 anos ao lado de vizinha idosa sem trocar uma palavra, um dia recebe um bilhete dizendo “minha mãe morreu”, anos depois, descobre que ela pesava menos de 39 quilos, vivia de purê de maçã e barrinhas, consegue duas cirurgias de catarata e a leva para um lar onde quase todos usam língua de sinais

Escrito por Geovane Souza

Publicado em 10/09/2026 às 11:14

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Família ajuda vizinha idosa surda por anos, descobre que ela pesava menos de 39 kg e consegue cirurgias e um novo lar adaptado. (Foto: Maddie McGarvey/The Washington Post )

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Durante mais de uma década, Edith Rikuris praticamente não teve contato com a família que morava ao lado em Washington. Um bilhete entregue em janeiro de 2007 mudou essa relação e iniciou anos de ajuda, até a descoberta de que a professora aposentada estava quase cega, extremamente magra e cada vez menos capaz de viver sozinha.

Durante 12 anos, a escritora Kitson Jazynka e sua família viveram ao lado de Edith Rikuris, uma vizinha idosa e surda, em uma rua no noroeste de Washington, nos Estados Unidos, sem construir qualquer relação próxima com ela. Edith quase não fazia contato visual e permanecia a maior parte do tempo isolada dentro da própria casa.

Isso mudou em um dia frio de janeiro de 2007. Edith apareceu inesperadamente na porta da vizinha, vestindo um casaco fino para a temperatura, e entregou um pequeno bilhete escrito à mão. A mensagem informava que sua mãe havia morrido e pedia que Kitson telefonasse para o médico.

O episódio, relatado pela própria Kitson em uma reportagem publicada pelo The Washington Post em 3 de dezembro de 2015, abriu uma comunicação que continuaria durante anos.

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Bilhete entregue em janeiro de 2007 rompeu 12 anos de distância entre as vizinhas

Kitson conhecia apenas partes da história de Edith. Sabia que ela havia trabalhado como professora de biologia na Gallaudet University e que havia chegado aos Estados Unidos com a mãe em 1947, depois da Segunda Guerra Mundial. Seu pai havia sido morto pelos nazistas.

A carreira acadêmica da vizinha havia sido extensa. A própria Gallaudet registra Edith Rikuris como chefe do Departamento de Biologia entre 1976 e 1980 e novamente entre 1994 e 1995, um detalhe que mostra que a mulher que anos depois dependeria de ajuda para tarefas básicas havia ocupado cargos de responsabilidade dentro da universidade.

Naquele dia de 2007, porém, o problema era imediato. Kitson tentou ligar para o médico, encontrou um atendimento telefônico automatizado e decidiu chamar o serviço de emergência. A polícia chegou acompanhada de um agente que sabia Língua Americana de Sinais, conhecida pela sigla ASL.

A morte da mãe também deixou Edith sem a pessoa com quem havia dividido a casa durante décadas.

Telefonemas e pequenos pedidos passaram a chegar por bilhetes escritos à mão

Bilhetes escritos à mão viraram a principal forma de comunicação entre Edith e a família vizinha. (Foto: Maddie McGarvey/The Washington Post )

Depois daquele primeiro contato, as duas começaram a se comunicar de uma forma simples. Edith escrevia bilhetes e os deixava pela abertura de correspondências da casa vizinha.

No início, os pedidos eram pequenos. Ela precisava que Kitson fizesse algum telefonema, entrasse em contato com alguém para realizar um reparo ou a levasse para resolver uma tarefa fora de casa.

A relação saiu gradualmente dos pedidos de ajuda e entrou na rotina familiar.

Edith começou a participar de refeições em feriados e aniversários das crianças. Como não conseguia acompanhar conversas faladas, levava papel e caneta, trocava mensagens escritas com os convidados e depois voltava para casa carregando pratos com sobras da comida.

Kitson também passou a ajudá-la com compras e deslocamentos. O marido, Guy, acabou entrando na rotina e colaborando nos cuidados.

Isolamento ficou mais evidente conforme os pedidos de ajuda aumentaram

A proximidade permitiu que Kitson percebesse algo que a cerca entre as duas propriedades havia escondido durante anos. Edith vivia praticamente sozinha.

Ela não tinha computador nem televisão, não possuía familiares próximos e os vínculos que mantivera com a universidade pareciam ter diminuído. Em uma ocasião, Kitson levou uma pilha de revistas até sua casa. Edith respondeu por escrito que aquilo seria suficiente para entretê-la durante o inverno.

Com o tempo, os bilhetes também mudaram.

Pedidos curtos começaram a dar lugar a páginas inteiras relatando problemas mais sérios, como chamas saindo do fogão a gás e situações envolvendo dinheiro no banco.

Enquanto ainda conseguia pegar ônibus, fazer compras e pagar as próprias contas, Edith mantinha alguma independência. Aos poucos, entretanto, ela começou a sair menos de casa e a depender cada vez mais dos vizinhos para resolver situações cotidianas.

No fim de 2013, alguns bilhetes passaram a trazer apenas a palavra “ajuda”

A situação se agravou de maneira clara em dezembro de 2013.

Kitson começou a encontrar Edith do lado de fora, tremendo de frio e sem conseguir entrar novamente em casa. Escrever também se tornou difícil. Algumas mensagens chegavam ilegíveis ou até praticamente em branco.

Em determinados momentos, Edith conseguia escrever apenas “help”, palavra inglesa para “ajuda”.

O esforço para atravessar a pequena distância entre as duas casas podia consumir cerca de 20 minutos. Kitson ainda não sabia, mas Edith havia sofrido pelo menos um derrame e estava ficando quase cega devido à catarata, além da surdez que já fazia parte de sua vida.

A família tentou procurar cuidadores, instituições e serviços específicos para idosos surdos. Edith, porém, resistia às alternativas apresentadas e também não queria ser levada ao hospital.

Queda no quintal mostrou que Edith já não conseguia chegar sozinha até a casa vizinha

Em janeiro de 2014, Kitson observava o quintal pela janela da cozinha quando viu Edith tentando chegar até sua porta carregando mais um bilhete.

A idosa encontrou uma área com gelo, caiu no gramado irregular, conseguiu se levantar e tentou retornar para casa. Kitson correu para ajudá-la e encontrou a vizinha machucada e com frio.

A partir dali, manter Edith alimentada e segura passou a ocupar boa parte da rotina da família. Kitson comprava mantimentos, dividia refeições e verificava durante os passeios noturnos com os cães se a porta da casa da vizinha estava fechada. Outros moradores da região também ajudavam quando ela precisava se ausentar.

Mesmo assim, os problemas estavam avançando mais rápido que a ajuda informal.

Posteriormente, Kitson descobriu que Edith pesava menos de 85 libras, aproximadamente 38,6 quilos, e vinha sobrevivendo principalmente de porções de purê de maçã e barrinhas de granola.

Ela caía, esbarrava em objetos, sofria com dores e ficava desorientada. A casa também já não recebia os cuidados necessários.

Ligação feita em março de 2014 colocou uma equipe especializada dentro da casa

Equipe especializada passou a acompanhar Edith após pedido de ajuda em março de 2014. (Foto: Maddie McGarvey/The Washington Post )

A mudança decisiva aconteceu em março de 2014, quando uma amiga recomendou que Kitson procurasse a Iona Senior Services, organização voltada ao atendimento de idosos e seus cuidadores em Washington.

A assistente social Catherine Paitz recebeu o primeiro contato. Depois, Randy Smith foi até a residência de Edith e começou a organizar os problemas por prioridade, colocando saúde e segurança no topo da lista.

A Iona havia surgido em 1975, no bairro de Tenleytown, inicialmente como um centro comunitário. O próprio histórico da entidade informa que a grande quantidade de pedidos relacionados a pessoas mais velhas levou a organização a concentrar seus serviços nessa população.

No caso de Edith, a intervenção iniciou uma sequência de consultas e avaliações médicas que a família sozinha vinha tendo dificuldade para organizar.

Ida ao hospital terminou em centro de reabilitação e recuperação de cerca de 30 libras

Em maio de 2014, Edith precisou ir ao pronto-socorro. Dessa vez, retornar diretamente para a casa onde vinha vivendo sozinha deixou de ser a opção adotada.

Com acompanhamento de Randy Smith, ela foi encaminhada para um centro de reabilitação em Silver Spring, no estado de Maryland.

Nos meses seguintes, Edith recuperou aproximadamente 30 libras, cerca de 13,6 quilos, depois de ter chegado ao atendimento pesando menos de 39 quilos.

A recuperação física resolveu apenas parte dos problemas.

Com o apoio de outra assistente social da Iona, Carol Kaplun, Edith conseguiu passar por duas cirurgias de catarata que haviam sido adiadas por muito tempo. Os procedimentos permitiram recuperar sua capacidade de enxergar.

Duas cirurgias de catarata devolveram a visão antes de nova mudança

A combinação de surdez, perda severa da visão, consequências do derrame e dificuldade para se alimentar havia deixado Edith em uma condição na qual continuar sozinha representava um risco permanente.

Depois da reabilitação e das cirurgias, surgiu uma alternativa que atendia também a uma necessidade que ultrapassava cuidados médicos: viver em um ambiente onde ela conseguisse se comunicar.

Em dezembro de 2014, Edith deixou a região de Washington e foi levada para uma residência no Meio-Oeste dos Estados Unidos onde quase todas as pessoas utilizavam a Língua Americana de Sinais.

A mudança encerrou uma fase em que praticamente qualquer emergência dependia de um bilhete levado lentamente até a porta da casa ao lado.

Em novo lar, Edith passou a fazer três refeições por dia e conviver com pessoas que usavam ASL

A rotina descrita por Kitson após a mudança era muito diferente daquela descoberta meses antes.

Edith passou a receber três refeições diariamente, participar de encontros sociais e conviver com amigos capazes de conversar com ela por língua de sinais.

Kitson continuou acompanhando sua vida à distância, conversando com a antiga vizinha por meio de intérprete e visitando-a quando podia. A Iona também permaneceu envolvida no gerenciamento dos cuidados. A organização registra até hoje a reportagem sobre Edith e Kitson em seu arquivo de imprensa de 2015.

Seis meses depois da mudança, durante uma visita em maio de 2015, Kitson encontrou uma mulher fisicamente diferente daquela que havia visto sentada sozinha e com dores em sua antiga casa.

O rosto estava mais cheio depois da recuperação de peso e Edith já havia feito amizades. Um dos moradores, chamado Wayne, apareceu em seu quarto para acompanhá-la até o almoço e a ajudou durante o caminho.

A vizinha que passou anos dependendo de bilhetes para pedir ajuda agora vivia cercada por pessoas com quem conseguia se comunicar diretamente.

Um bilhete mudou uma relação que durante 12 anos praticamente não existiu

Quando Edith bateu à porta em janeiro de 2007, Kitson e sua família já moravam ao lado dela havia 12 anos. Apesar da distância de poucos metros entre as casas, quase não havia relacionamento entre as duas vizinhas.

A mensagem sobre a morte da mãe mudou essa dinâmica. Vieram depois os telefonemas, consertos, compras, viagens para resolver tarefas, refeições, aniversários e feriados compartilhados.

Sete anos mais tarde, quando a saúde de Edith já tornava impossível manter aquela ajuda apenas entre vizinhos, a família procurou atendimento especializado. A intervenção terminou com recuperação de peso, duas cirurgias de catarata e a transferência para uma residência onde a surdez já não significava passar os dias sem conseguir conversar com quem estava ao redor.

Você ajudaria um vizinho durante tantos anos mesmo sem ter qualquer parentesco com ele? Conte nos comentários.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

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