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Fazendeiros soltam porcos no pomar depois da colheita, os animais passam o dia devorando frutas caídas, larvas e restos no meio das árvores, a limpeza chega a eliminar de 90% a 100% dos frutos do chão e o pomar limpo vira uma barreira natural contra as mariposas que atacariam a safra seguinte
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/09/2026 às 10:52
Agronegócio
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Porcos em pomares consomem até 100% das frutas caídas e ajudam a interromper o ciclo de mariposas que atacariam maçãs e peras.
Depois que a colheita termina, frutas esquecidas debaixo das árvores podem parecer apenas desperdício, mas algumas delas escondem justamente a geração de insetos que voltará a atacar o pomar. Pesquisadores nos Estados Unidos testaram uma solução incomum em pomares orgânicos de maçã, pera e cereja: soltar porcos entre as árvores após a colheita para que os animais consumissem as frutas restantes.
No experimento publicado por Krista Buehrer e Matthew Grieshop na revista Organic Agriculture, os suínos consumiram 100% dos frutos remanescentes no chão nos três tipos de pomar, enquanto estudos reunidos posteriormente em uma revisão científica indicam remoções geralmente entre 90% e 100%.
A limpeza tem um efeito que vai além de alimentar os porcos. Maçãs e peras caídas podem continuar abrigando larvas da mariposa-da-maçã, Cydia pomonella, e da mariposa-oriental-das-frutas, Grapholita molesta. Ao retirar esses frutos do sistema antes que as larvas completem seu desenvolvimento, o produtor interfere diretamente em uma das etapas do ciclo das pragas.
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Frutas esquecidas no chão podem carregar a próxima geração de pragas
O problema começa quando uma fruta atacada cai antes ou depois da colheita e permanece debaixo da árvore. Por fora, ela pode parecer apenas um resíduo destinado à decomposição. Por dentro, entretanto, pode continuar abrigando uma larva.
A mariposa-da-maçã é um exemplo clássico. Sua larva perfura maçãs e peras, avança pela polpa e pode chegar à região das sementes.
Frutos atacados frequentemente caem antes do momento normal, e a larva posteriormente deixa a fruta para procurar um local onde possa formar seu casulo e continuar o ciclo.
É por isso que programas de manejo integrado recomendam retirar rapidamente frutos infestados tanto da árvore quanto do solo.
A Universidade Estadual da Carolina do Norte destaca a remoção dos frutos como medida preventiva, enquanto a Universidade de Kentucky observa que frutas que caem prematuramente frequentemente carregam larvas da mariposa-da-maçã ou do curculionídeo-da-ameixa.
O porco entra exatamente nessa etapa, realizando biologicamente um trabalho de saneamento que, de outra maneira, precisaria ser feito pela equipe da propriedade.
Experimento colocou porcos em pomares orgânicos depois da colheita
Buehrer e Grieshop realizaram o trabalho em pomares certificados como orgânicos de maçã, pera e cereja. Os animais foram manejados em pastejo rotacionado após a colheita, quando os frutos comerciais já haviam sido retirados e o material restante permanecia espalhado sobre o solo.
A pesquisa tinha três perguntas principais: quanto desse material os porcos conseguiriam comer, o que aconteceria com a cobertura vegetal do pomar e se a retirada dos frutos poderia afetar insetos capazes de sobreviver dentro deles.
A resposta à primeira pergunta foi extrema. Segundo o artigo, os porcos consumiram 100% das frutas que haviam permanecido no chão nos três tipos de pomar avaliados.
Uma revisão posterior sobre métodos orgânicos para controle de pragas em maçãs e peras analisou esse trabalho e outro estudo anterior com pastejo rotacionado de suínos. A conclusão apresentada pelos autores é que os porcos normalmente retiram entre 90% e 100% dos frutos caídos.
Porcos encontram alimento exatamente onde larvas permanecem escondidas
A eficiência da ideia está relacionada ao comportamento natural dos suínos. Porcos são animais onívoros e exploradores, capazes de utilizar o focinho para investigar o solo, vegetação, raízes, frutos e pequenos organismos em busca de alimento.
Quando entram no pomar depois da colheita, encontram uma concentração de comida que para o agricultor já perdeu valor comercial: maçãs machucadas, peras caídas e outros frutos que permaneceriam debaixo das árvores.
No experimento, os pesquisadores encontraram larvas de mariposa-da-maçã e de mariposa-oriental-das-frutas dentro de maçãs e peras deixadas no solo. Nenhum inseto-praga foi encontrado nos frutos de cerejeira examinados naquele trabalho.
Portanto, o efeito não depende de os porcos saírem especificamente “caçando” cada larva. Quando o animal devora a fruta infestada e elimina aquele material do chão, ele também remove o microambiente onde a praga estava se desenvolvendo.
Pomar com porcos teve menos larvas da mariposa-oriental nas frutas caídas
A equipe encontrou uma redução significativa de larvas da mariposa-oriental-das-frutas nos frutos caídos associada ao manejo com os animais. A importância disso aparece na geração seguinte.
A Grapholita molesta pode atacar diferentes frutas de caroço e também maçãs e peras. As larvas podem perfurar brotações ou penetrar diretamente nos frutos, causando perda comercial.
Quanto maior o número de indivíduos que completa o desenvolvimento no final de uma temporada, maior pode ser a pressão de infestação que o produtor precisará enfrentar posteriormente.
Ao utilizar os animais para retirar os frutos infestados antes que o ciclo seja concluído, o manejo funciona como uma espécie de barreira biológica entre duas safras.
A revisão publicada na revista Insects concluiu que existem diferentes níveis de sucesso nos trabalhos disponíveis, mas registra reduções no dano causado pela mariposa-da-maçã e outros tortricídeos na temporada seguinte após o pastejo.
Danos em peras diminuíram na temporada seguinte ao pastejo
O experimento não terminou simplesmente contando quantas frutas desapareceram. Os pesquisadores acompanharam também o dano causado pelas pragas posteriormente.
Depois do primeiro ano, houve redução significativa de danos associados à mariposa-da-maçã e à mariposa-oriental em peras provenientes das parcelas que haviam recebido os porcos, em comparação com áreas-controle.
Nos pomares de cereja, o dano causado pelo curculionídeo-da-ameixa também foi significativamente menor nas parcelas manejadas com suínos.
O resultado precisa ser interpretado sem exagero. O estudo não demonstrou que porcos eliminam todas as pragas nem que substituem integralmente qualquer estratégia de manejo fitossanitário.
Também não foi possível coletar os mesmos dados de dano após o segundo ano porque ocorreu perda total da safra, uma limitação explicitamente registrada pelos pesquisadores.
Ainda assim, o primeiro ano forneceu evidência experimental de que colocar os animais no pomar depois da colheita pode produzir efeitos que continuam visíveis na temporada posterior.
A técnica transforma desperdício agrícola em alimentação animal
Existe ainda uma segunda lógica econômica por trás do sistema. A fruta que fica no chão representa biomassa produzida pela árvore, mas que não chegou ao mercado.
Contratar trabalhadores ou utilizar máquinas para recolher todo esse material gera custo sem necessariamente produzir receita direta. Deixá-lo apodrecer, por outro lado, pode favorecer determinadas pragas e doenças.
Quando os suínos entram no sistema, parte desse resíduo torna-se alimento.
A propriedade passa, portanto, a combinar duas atividades que convencionalmente seriam administradas de maneira separada. O pomar fornece alimento temporário para os animais, enquanto os animais prestam um serviço de saneamento ao pomar.
É uma lógica semelhante a outras formas de integração lavoura-pecuária, mas aplicada a uma tarefa extremamente específica: retirar rapidamente frutos que permaneceriam acumulados no chão.
Porcos também reduzem o capim, mas o resultado pode passar do ponto
A limpeza não se limita às frutas. O estudo encontrou mudanças significativas na própria cobertura do solo.
Depois da entrada dos porcos, houve aumento da proporção de solo descoberto e redução da quantidade de grama nos três tipos de pomar avaliados.
Dependendo do objetivo do produtor, isso pode representar uma vantagem temporária no controle da vegetação espontânea. Também pode, entretanto, tornar-se um problema.
Porcos possuem comportamento de fuçar e revolver o solo. A Washington State University alerta que eles estão entre os animais mais difíceis de integrar permanentemente a sistemas silvipastoris, porque focinho e patas podem causar distúrbio intenso no terreno e até danificar ou matar árvores.
É justamente por essa razão que a estratégia estudada utiliza pastejo rotacionado e de curta duração, principalmente depois da colheita, e não simplesmente mantém grandes grupos de suínos soltos permanentemente no pomar.
O mesmo animal que limpa o pomar pode destruir árvores se ficar tempo demais
A imagem dos porcos trabalhando tranquilamente debaixo das árvores pode transmitir a impressão de que basta abrir a cerca e deixar os animais livres. Na prática, o manejo exige exatamente o contrário.
A Washington State University recomenda atenção à densidade, raça, idade dos animais e duração do pastejo. Em sistemas tradicionais em que suínos utilizam áreas arborizadas, cargas reduzidas ou movimentação rápida ajudam a evitar danos excessivos.
Se permanecerem muito tempo numa área pequena depois de consumir as frutas disponíveis, os animais podem começar a escavar intensamente o solo, expor raízes, retirar vegetação e danificar a casca de árvores jovens.
A revisão científica sobre controle orgânico em pomares também menciona custos com cercas, manejo animal e licenciamento, além do risco de alterações no solo e impactos sobre organismos que vivem ou fazem ninhos no chão.
Portanto, os porcos funcionam melhor como ferramenta temporária de manejo, e não como substitutos permanentes de todas as práticas do pomar.
Técnica de usar porcos entre árvores existe há muito mais tempo que os experimentos modernos
A ideia de colocar suínos debaixo de árvores não nasceu com a agricultura contemporânea. Referências agrícolas históricas já recomendavam manter porcos em pomares para consumir frutas atacadas e reduzir vermes.
O que os trabalhos modernos fizeram foi transformar uma observação antiga em hipótese experimental.
Em vez de simplesmente afirmar que os animais “limpam” o terreno, pesquisadores passaram a medir quanto da fruta desaparece, quais insetos estavam dentro dela e o que acontece com o dano na safra posterior.
Os resultados explicam por que uma prática aparentemente rudimentar voltou a despertar atenção dentro da agricultura orgânica e do manejo integrado de pragas.
O valor da técnica não está em rejeitar toda tecnologia moderna, mas em utilizar o comportamento natural do animal como mais uma ferramenta dentro de um sistema que também pode envolver monitoramento, armadilhas, controle biológico e outros métodos.
Remover a fruta interrompe uma etapa crítica do ciclo da mariposa
A lógica é particularmente evidente no caso da mariposa-da-maçã.
Depois de entrar no fruto e se alimentar internamente, a larva madura eventualmente sai para procurar um local protegido onde possa empupar. Algumas gerações continuam ainda durante a temporada, enquanto outras podem atravessar o período desfavorável e contribuir para a infestação seguinte.
É exatamente por isso que extensões agrícolas nos Estados Unidos recomendam não deixar maçãs infestadas simplesmente caídas debaixo das árvores. A Washington State University orienta retirar ou destruir frutos “com vermes” para impedir que as larvas completem o desenvolvimento.
O porco automatiza biologicamente parte desse serviço.
Ele não sabe que está fazendo controle de pragas. Apenas encontra uma maçã no chão e a come. Para o inseto que estava dentro dela, entretanto, a consequência pode ser o fim do ciclo antes da emergência como mariposa adulta.
Quando 100% das frutas desaparecem, o pomar deixa de servir de abrigo para parte das pragas
É justamente aí que a experiência ganha uma imagem difícil de esquecer. Em vez de trabalhadores atravessarem fileiras recolhendo manualmente maçãs, peras e cerejas que não possuem valor comercial, um grupo de porcos entra depois da colheita e começa a transformar o desperdício em alimento.
No experimento de Buehrer e Grieshop, a limpeza chegou a 100% dos frutos restantes nos três tipos de pomar estudados. A revisão científica posterior situa normalmente essa capacidade entre 90% e 100%.
Dentro de maçãs e peras descartadas, os pesquisadores encontraram exatamente duas pragas importantes: a mariposa-da-maçã e a mariposa-oriental-das-frutas. Depois do primeiro ano, parcelas manejadas com porcos apresentaram redução significativa de determinados danos provocados por esses insetos.
O sistema não transforma os suínos em um inseticida perfeito e ainda exige cercas, rotação e controle rigoroso para impedir danos ao solo e às árvores.
Mas demonstra uma inversão interessante da lógica tradicional: algo que parecia apenas desperdício passa a alimentar outro produto da propriedade, enquanto o animal que come esse resíduo executa simultaneamente uma etapa do manejo de pragas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

