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Funcionária acompanha obra para evitar que escavação rompa um cabo subterrâneo, vê objetos caindo da terra e pensa serem tampinhas de cerveja, mas encontra 768 moedas de ouro e prata datadas de 1771 a 1937, tesouro com cerca de 6 quilos foi levado a museu e abriu mistério sobre quem enterrou a fortuna
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 05/09/2026 às 22:18
Atualizado em 05/09/2026 às 22:19
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Uma inspeção de rotina em uma obra de Praga terminou com centenas de moedas escorrendo de um barranco aberto por uma escavadeira. Eram 351 peças de ouro e 417 de prata, além de joias, escondidas havia décadas. O chamado Tesouro de Modřany foi levado para um museu e, anos depois, ainda provocaria uma disputa sobre quem realmente tinha direito à recompensa.
Daniela Černá estava em uma obra no distrito de Praga 12, na República Tcheca, para acompanhar as escavações e evitar que os trabalhadores atingissem um cabo subterrâneo. Em 3 de março de 2014, enquanto observava o serviço próximo ao Viniční domek nº 6, em Modřany, ela percebeu pequenos objetos caindo da terra aberta pela máquina.
A primeira impressão foi de que eram tampinhas de cerveja. Quando se aproximou, porém, percebeu que o material que saía do barranco era formado por moedas. O operador da escavadeira parou o trabalho e o que parecia um punhado transformou-se em centenas de peças de ouro e prata.
Ao final da retirada e da contagem, foram registradas 768 moedas, sendo 351 de ouro e 417 de prata, acompanhadas de algumas joias de prata. A peça mais antiga era de 1771 e a mais recente havia sido cunhada em 1937.
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Paulo Nogueira
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Moedas começaram a cair do barranco enquanto a escavadeira removia a terra
Černá contou à imprensa tcheca que estava justamente observando a área para impedir que a obra danificasse um cabo quando viu alguma coisa cair do buraco. Só depois percebeu que os objetos tinham formato de moedas.
Em outro relato concedido à Rádio Praga, ela descreveu a cena como um pequeno fluxo de moedas de prata descendo pela terra exposta. A funcionária sinalizou para que a escavadeira fosse interrompida, evitando que a máquina continuasse mexendo no ponto onde o material estava escondido.
Reportagens posteriores identificaram também o operador da escavadeira como Miloš Závora. Ele sustentaria mais tarde que tinha visto o tesouro enquanto levantava a concha da máquina e que, por isso, deveria ser considerado o principal descobridor. Essa diferença entre os relatos parecia pequena em 2014, mas se transformaria em uma disputa financeira dois anos depois.
As primeiras informações apontavam cerca de 6 quilos de moedas. Uma reconstrução publicada pelo iDNES em 2016 calculou o conjunto em aproximadamente 6,9 quilos, enquanto outras fontes posteriores mencionaram cerca de 6,5 quilos. A quantidade de 768 peças, porém, permaneceu consistente nas diferentes apurações.
Das 768 moedas encontradas, 351 eram de ouro e 417 de prata
O conjunto não era formado por uma única moeda ou por peças produzidas em um período curto. Havia exemplares de diferentes procedências, incluindo moedas tchecas, austríacas e francesas, algumas associadas a figuras históricas como Napoleão e Maria Teresa.
A diferença entre as datas das peças também chamou a atenção. Entre a moeda mais antiga, de 1771, e a mais recente, de 1937, havia um intervalo de 166 anos.
Isso estabelece pelo menos uma referência para o momento em que o conjunto foi escondido: o depósito não poderia ter sido feito antes de 1937. Saber exatamente quando e por quem, entretanto, mostrou-se muito mais difícil.
Logo após o achado, as moedas ficaram guardadas em um cofre bancário. Em 31 de março de 2014, representantes de Praga 12 e do Museu da Cidade de Praga retiraram o material, romperam o lacre e fizeram uma nova contagem antes de transferi-lo para os pesquisadores.
Prefeitura falou inicialmente em 3 milhões de coroas, mas museu evitou cravar o valor
A prefeitura de Praga 12 chegou a estimar inicialmente o Tesouro de Modřany em cerca de 3 milhões de coroas tchecas. Na própria entrega das moedas, porém, a então diretora do Museu da Cidade de Praga, Zuzana Strnadová, disse que ainda era cedo para determinar o valor do conjunto.
As peças precisavam ser limpas, catalogadas e estudadas individualmente. O trabalho passaria por conservadores e depois por especialistas em numismática, que examinariam origem, período, material e relevância histórica.
Dois anos depois surgiu uma avaliação mais concreta. Em 2016, um laudo do Museu Nacional de Praga avaliou as moedas em aproximadamente 1,8 milhão de coroas tchecas. A reportagem do iDNES observou que apenas o metal do conjunto já representava valor próximo de 2 milhões de coroas naquele momento.
Terreno havia pertencido a comerciante de vinhos que comprou a propriedade em 1921
Determinar o proprietário original do dinheiro abriu outra linha de investigação.
O terreno havia pertencido ao Arcebispado de Praga e, durante a Primeira Guerra Mundial, foi arrendado ao proprietário da empresa Šulc-Víno. Em 1921, a propriedade foi comprada pelo empresário Jan Sudík, que mantinha uma casa de vinhos na rua Karlova, em Praga.
Sudík continuou ligado ao terreno no período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial. Como as moedas mais recentes eram da década de 1930, surgiu a hipótese de que alguém de sua família pudesse ter enterrado o dinheiro em meio à instabilidade daquele período.
Havia, porém, uma pergunta sem resposta. Se a família sobreviveu à guerra e continuou ligada à propriedade, por que ninguém voltou para retirar ouro e prata de tamanho valor?
Daniela Černá considerava essa lacuna um problema para a hipótese. Para ela, mesmo que a pessoa responsável pelo esconderijo tivesse morrido durante a guerra, seria razoável imaginar que alguém próximo tivesse recebido alguma informação sobre a existência do dinheiro. A própria funcionária classificou a ligação com a família como especulação.
Outra hipótese colocou um soldado alemão no centro do mistério
A prefeitura também investigou outra possibilidade.
No fim da Segunda Guerra Mundial, soldados alemães ficaram instalados em uma escola de Modřany. Isso levantou a hipótese de que um integrante da tropa pudesse ter escondido o conjunto antes da retirada ou do fim do conflito.
Nenhuma evidência encontrada até então permitiu ligar diretamente o tesouro ao soldado, ao comerciante Jan Sudík ou à sua família. O Museu de Praga recebeu justamente a tarefa de estudar as moedas e tentar reconstruir a origem do conjunto.
Assim, a data de 1937 permaneceu como uma das pistas mais sólidas. Ela mostra o ano da moeda mais recente, mas não revela quanto tempo depois dessa cunhagem o tesouro foi colocado na terra.
Operador da escavadeira e outros três envolvidos disputaram a recompensa durante anos
Depois que o tesouro passou para o poder público, apareceu uma questão que não estava resolvida no dia da descoberta: quem, legalmente, tinha encontrado as moedas?
Miloš Závora apresentou seu pedido de recompensa ainda em março de 2014. Cerca de três meses mais tarde, outras três pessoas envolvidas na inspeção da obra também reivindicaram participação: dois funcionários públicos e o então vice-prefeito de Praga 12, Jiří Fremr.
Závora defendia que era o descobridor porque sua máquina havia retirado a terra e exposto o esconderijo. Os demais afirmavam que foram eles que perceberam as moedas e gritaram para o operador parar a escavação.
Em setembro de 2016, o governo municipal ainda não havia liberado o dinheiro. O fato de quatro pessoas reivindicarem a descoberta levantou dúvidas entre autoridades de Praga, e o pagamento inicialmente proposto não foi aprovado.
Os quatro acabaram chegando a um acordo para se apresentarem como descobridores conjuntos.
Três anos após o achado, quatro pessoas dividiram 1.824.056 coroas de recompensa
O impasse terminou em 2017, três anos depois de as primeiras moedas aparecerem na escavação.
Segundo informação posteriormente fornecida pelo porta-voz da prefeitura de Praga, Vít Hofman, os vereadores aprovaram uma recompensa total de 1.824.056 coroas tchecas aos quatro participantes reconhecidos como descobridores conjuntos. Cada um ficou com 456.014 coroas.
Para Závora, a solução não foi satisfatória. O operador da escavadeira continuou afirmando que deveria ter sido reconhecido como o verdadeiro descobridor e que as outras três pessoas estavam a aproximadamente 20 metros do ponto em que sua máquina atingiu o esconderijo. Mesmo assim, aceitou a divisão para que o processo finalmente fosse encerrado.
As moedas, por sua vez, permaneceram sob responsabilidade do Museu da Cidade de Praga. O que começou como uma fiscalização para impedir que uma escavadeira rompesse um cabo subterrâneo terminou com 768 moedas de ouro e prata, uma investigação sobre um esconderijo feito após 1937 e uma disputa que levou anos para ser resolvida.
Na sua opinião, a recompensa deveria ter ficado apenas com o operador da escavadeira ou a divisão entre os quatro envolvidos foi a decisão mais justa?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

