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Garota vê aos 9 anos a crise da água em Flint pela televisão, estuda nanotubos de carbono e desenvolve aos 11 um aparelho conectado ao celular para detectar chumbo mais rapidamente do que os testes tradicionais
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 20/09/2026 às 19:09
Atualizado em 20/09/2026 às 19:10
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Gitanjali Rao conheceu a contaminação da água de Flint durante um jantar em família e transformou a preocupação com outras crianças no Tethys, dispositivo que utiliza nanotubos de carbono e envia pelo celular o resultado do teste.
Enquanto muitas crianças de sua idade ocupavam o tempo livre com jogos e desenhos, a norte-americana Gitanjali Rao passava horas pesquisando uma maneira mais rápida de detectar chumbo na água.
A ideia surgiu depois que ela acompanhou pela televisão as consequências da crise hídrica de Flint, no estado de Michigan. As imagens da água contaminada e os riscos enfrentados por milhares de moradores, principalmente crianças, não saíram de sua cabeça.
Anos depois, aquela inquietação se transformaria no Tethys, um dispositivo portátil que utiliza nanotubos de carbono para identificar chumbo e enviar o resultado a um aplicativo instalado no celular.
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Tudo começou quando Gitanjali viu na televisão crianças expostas à água contaminada de Flint
Segundo o Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos, Gitanjali tinha 9 anos quando ouviu pela primeira vez uma reportagem sobre a crise da água em Flint, em 2014.
Ela jantava com a família quando a televisão mostrou imagens de água com coloração semelhante à ferrugem e de moradores que apresentavam problemas de saúde.
A menina também ouviu relatos sobre os riscos do chumbo para o desenvolvimento cerebral das crianças. Surpresa, perguntou à mãe se a água que estava bebendo também poderia conter a substância caso estivesse em Flint.
A resposta confirmou que sim.
Naquela noite, Gitanjali teve dificuldade para dormir. As crianças mostradas na reportagem tinham aproximadamente a mesma idade que ela, mas estavam expostas a um perigo invisível cada vez que abriam uma torneira.
Na manhã seguinte, decidiu que tentaria encontrar uma solução científica para o problema.
Testes tradicionais pareciam lentos, caros ou pouco confiáveis para a jovem estudante
A crise de Flint começou depois que a cidade alterou sua fonte de abastecimento e passou a utilizar água do rio Flint. Sem o tratamento anticorrosivo adequado, o líquido provocou a deterioração de tubulações antigas e permitiu que chumbo entrasse na água consumida por milhares de famílias.
O problema mostrou como a identificação da contaminação poderia ser demorada. Alguns métodos exigiam o envio de amostras a laboratórios, enquanto testes domésticos nem sempre produziam resultados consistentes.
Gitanjali percebeu essa dificuldade dentro da própria casa, quando acompanhou os pais realizando testes na água em Nashville, no Tennessee.
De acordo com o Escritório de Patentes dos Estados Unidos, algumas tiras indicavam que a água estava segura, enquanto outras apontavam a possível presença de chumbo.
A diferença entre os resultados convenceu a estudante de que era necessário criar um método mais simples, rápido e confiável.
Um artigo sobre nanotubos de carbono apresentou o caminho para construir o sensor
Aos 10 anos, Gitanjali encontrou uma possível resposta enquanto lia uma publicação da revista MIT Technology Review.
O conteúdo explicava como nanotubos de carbono poderiam identificar a deterioração de alimentos por meio das alterações de resistência provocadas por gases presentes no ambiente.
A jovem começou então a formular uma pergunta: se esses materiais conseguiam detectar mudanças associadas aos alimentos, também poderiam reagir à presença de chumbo na água?
Gitanjali registrou a possibilidade em um caderno no qual mantinha diferentes ideias. Durante meses, pesquisou alternativas, descartou propostas que não funcionariam e retornou diversas vezes ao conceito dos nanotubos.
O princípio utilizado posteriormente no Tethys era relativamente direto. Quando o chumbo presente na água se liga ao nanotubo de carbono especialmente tratado, ocorre uma alteração na resistência elétrica do material.
Essa mudança pode ser medida pelo aparelho e transformada em uma informação compreensível para o usuário.
Mentoria de uma cientista da 3M ajudou a transformar a ideia em um protótipo funcional
Sem laboratório próprio e com dificuldade para encontrar os materiais necessários, Gitanjali inscreveu sua proposta no Discovery Education 3M Young Scientist Challenge.
Os participantes precisavam apresentar uma invenção capaz de solucionar um problema cotidiano enfrentado por suas famílias, comunidades ou pelo mundo.
Ao ser escolhida entre os dez finalistas, Gitanjali recebeu a orientação da cientista Kathleen Shafer, pesquisadora do Laboratório Corporativo de Materiais da 3M.
As duas trabalharam virtualmente durante o verão de 2017. A mentoria ajudou a estudante a concentrar os esforços nas etapas necessárias para transformar o projeto apresentado em vídeo em um protótipo real.
A escola de Gitanjali disponibilizou uma impressora 3D, enquanto a 3M forneceu materiais como fios e adesivos. Após procurar diferentes especialistas, ela também encontrou um fabricante disposto a fornecer nanotubos dopados com cloreto, necessários para o sensor.
Mesmo enfrentando uma mudança de cidade e sucessivas dificuldades técnicas, a estudante continuou pesquisando até conseguir colocar o aparelho em funcionamento.
Tethys usa sensor, processador e aplicativo para informar se existe chumbo na água
O protótipo recebeu o nome Tethys, referência à divindade grega associada à água doce.
O aparelho reunia uma estrutura produzida em impressora 3D, um sensor com nanotubos de carbono dopados com cloreto e um processador interno Arduino.
Quando o sensor entrava em contato com uma amostra contaminada, o chumbo se ligava aos nanotubos e modificava sua resistência elétrica. O processador registrava essa alteração e enviava os dados para um aplicativo no celular.
A proposta era permitir que o usuário recebesse rapidamente uma indicação sobre a presença de chumbo, sem precisar interpretar tiras coloridas ou aguardar por muito tempo o resultado de um laboratório.
A página do Young Scientist Lab explica que o projeto foi desenvolvido justamente para reduzir o tempo necessário à detecção, conectando-se por Bluetooth a um aplicativo capaz de mostrar quase imediatamente a condição da água.
O Tethys ainda era um protótipo e precisava passar por novas etapas de desenvolvimento antes de chegar ao mercado. Mesmo assim, demonstrava que a tecnologia poderia tornar a triagem inicial mais rápida e acessível.
Aparelho foi testado em laboratório antes de ser apresentado aos jurados da competição
Com a ajuda de Kathleen Shafer, Gitanjali realizou experimentos para verificar se o sensor conseguia reconhecer as alterações provocadas pelo chumbo.
O trabalho envolveu testar os nanotubos, ajustar o sistema eletrônico e programar a comunicação entre o processador e o aplicativo.
Em outubro de 2017, a estudante apresentou o Tethys diante de uma banca de cientistas no Centro de Inovação da 3M, em Saint Paul, no estado de Minnesota.
Segundo a ABC News, o dispositivo foi projetado para detectar chumbo mais rapidamente do que outras técnicas disponíveis na época e transmitir os resultados diretamente para um smartphone.
Gitanjali, então com 11 anos, era a participante mais jovem da competição. Ainda assim, seu projeto se destacou entre centenas de inscrições.
Invenção garantiu prêmio de US$ 25 mil e o título de melhor jovem cientista dos Estados Unidos
Ao final da competição, Gitanjali venceu o prêmio principal de US$ 25 mil e recebeu o título de America’s Top Young Scientist, ou melhor jovem cientista dos Estados Unidos em 2017.
Ela afirmou que pretendia investir parte do dinheiro no aperfeiçoamento do Tethys e guardar outra parcela para os estudos universitários.
O reconhecimento não encerrou o desenvolvimento do dispositivo. Gitanjali continuou trabalhando no projeto e, em 10 de agosto de 2021, aos 15 anos, recebeu a patente norte-americana nº 11.085.907 para um “sistema e método de detecção de contaminantes na água”.
Sua trajetória também avançou para outras áreas. A jovem criou projetos relacionados ao combate ao cyberbullying e à identificação de riscos associados à dependência de medicamentos.
Em 2020, foi escolhida pela revista Time como a primeira Criança do Ano, ampliando o reconhecimento internacional de seu trabalho científico.
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Caio Aviz
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A história de Gitanjali mostra como uma pergunta infantil pode dar origem a uma solução tecnológica
Gitanjali não tinha laboratório particular, formação universitária nem acesso imediato aos materiais necessários quando decidiu pesquisar uma solução para o problema de Flint.
Ela tinha uma pergunta, um caderno de anotações e a disposição para estudar um assunto complexo.
A orientação de especialistas foi fundamental para transformar a ideia em um protótipo, mas o projeto começou quando uma criança decidiu que a demora para descobrir se uma água estava contaminada não deveria ser considerada normal.
A imagem vista pela televisão levou ao estudo dos nanotubos de carbono, à criação de um sensor conectado ao celular, a um prêmio de US$ 25 mil e, posteriormente, a uma patente.
Se uma estudante conseguiu transformar a indignação diante de uma notícia em uma invenção, quantas outras soluções poderiam surgir se mais crianças tivessem acesso à ciência, a laboratórios e a mentores dispostos a ouvi-las?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

