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Governo estrangeiro assina um decreto e toma de uma só vez as fábricas de uma das maiores empresas de alimentos do planeta, entrega tudo a uma firma comandada por um general, e o motivo alegado envolve uma guerra que já dura anos
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 19/09/2026 às 12:38
Economia
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Um decreto de sete páginas, assinado em Moscou em 17 de setembro de 2026, tirou da Nestlé o comando de seis fábricas na Rússia e entregou esse controle, junto com uma rede de supermercados francesa, a uma firma com um funcionário, capital de 15 mil rublos e um diretor que jornais russos ligam a um general
O decreto nº 661 foi assinado por Vladimir Putin em 17 de setembro de 2026 e publicado no mesmo dia no Portal Oficial de Informação Jurídica, o diário oficial eletrônico da Rússia, com sete páginas, 29 itens e um único nome no fim de cada linha.
Esse nome é L.E.V. Management, uma sociedade anônima de Moscou que passa a controlar as duas empresas russas da Nestlé, a rede Auchan, a antiga Leroy Merlin, onze firmas de logística e uma construtora, como mostra o texto oficial.
Não houve leilão, compra nem indenização, e o dono estrangeiro continua dono no papel, só que deixa de mandar, porque quem manda agora é a firma escolhida pelo Kremlin.
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Quem comanda essa firma, segundo a imprensa russa independente, é um general que chegou ao cargo uma semana antes da assinatura, e a história dele, junto com o motivo alegado pelo governo russo, está mais abaixo.
O que o decreto diz, linha por linha, sobre a Nestlé
O decreto é uma emenda que acrescenta itens a uma lista criada em abril de 2023, a dos bens de estrangeiros sob “gestão temporária”. Os itens 76 a 79 são os da Nestlé, e o texto registra as porcentagens com três casas decimais.
A Nestlé Kuban aparece dividida em duas fatias, 67,44% da matriz suíça, a Société des Produits Nestlé, e 32,56% da Nestlé Deutschland, da Alemanha, enquanto a Nestlé Rússia segue o mesmo desenho, com 84,082% e 15,918%.
Somando as fatias dá 100% nos dois casos, então o decreto não pegou só um pedaço da operação russa da Nestlé, pegou a operação inteira.
Seis fábricas, 7 mil empregados e 1% das vendas no mundo
São essas duas empresas que carregam a produção da Nestlé no país, e a AFP, em texto publicado pelo O Povo, informa que a companhia tem seis fábricas na Rússia e cerca de 7 mil funcionários, com café, ração para animais, nutrição infantil e doces.
A agência russa Interfax detalha onde elas ficam, nas regiões de Kaluga, Vologda, Samara e Vladimir e nos territórios de Perm e Krasnodar, e registra que a Nestlé está no país desde 1994.
No caixa do grupo o peso é pequeno, já que o analista Jean-Philippe Bertschy, do banco suíço Vontobel, afirmou à AFP que a Rússia representa pouco mais de 1% das vendas globais da Nestlé, contra quase 2% antes da guerra.
O grupo faturou 89,5 bilhões de francos suíços em 2025, segundo o balanço anual da própria Nestlé, e um por cento disso dá perto de 900 milhões de francos por ano, pouco para a Nestlé e muito para qualquer empresa.
A rede de supermercados, a antiga Leroy Merlin e a lista completa do decreto
A Nestlé não está sozinha nessa, porque o decreto também leva a Auchan, que tem 241 lojas na Rússia, 62 delas hipermercados, e mais de 33 mil funcionários, relata a AFP com dados da própria empresa.
Veja quem entrou na lista, lida no original russo do decreto:
No total são 16 empresas russas, todas com o mesmo gestor, e a Le Monlid tem um detalhe curioso: pelo decreto, 99,993% dela pertencem a um fundo chamado Scenari Holding LP e só 0,007% à francesa Groupe Adeo, mas as duas fatias foram entregues à L.E.V. Management.
Quem é o general que assumiu a firma uma semana antes do decreto
A L.E.V. Management foi registrada em Moscou em outubro de 2024 e tem como diretor-geral Andrei Kraiuchkin, informa a Interfax com base no registro oficial de empresas, e a mesma agência registra que a firma não teve atividade em 2025.
O jornal independente Novaya Gazeta Europa, editado fora da Rússia, cruzou o nome e a data de nascimento do diretor e afirma que coincidem com os de um general-major do Ministério do Interior, o equivalente russo a um ministério da polícia.
Esse Andrei Kraiuchkin foi primeiro vice-chefe da diretoria de migração do ministério de 2016 até pelo menos 2020, relata o jornal, e o site The Insider acrescenta que, na agenda de conhecidos, o número dele aparecia como “Andrei MVD” e “Andrei general”.
O calendário chama atenção, porque Kraiuchkin virou diretor da firma em 10 de setembro de 2026, como mostram os registros citados pelos dois veículos, e o decreto veio sete dias depois.
O Moscow Times resumiu o caso num vídeo curto, com a imagem do general de farda e a fala do Kremlin:
Assista o vídeo
O The Insider também conta que a empresa, com capital de 15 mil rublos e um único funcionário, aparecia no site de uma agência de registro como “sociedade anônima pronta”, à venda por 450 mil rublos.
O motivo alegado: países não amistosos e a guerra na Ucrânia
O decreto de 17 de setembro não traz justificativa, e quem deu a explicação foi o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, no dia seguinte, sexta-feira, 18 de setembro de 2026.
“São países não amistosos, que agora estão envolvidos da forma mais ativa em ações militares contra o nosso país”, disse Peskov, em fala reproduzida pelo site Meduza. A AFP relata que o Kremlin tratou a medida como resposta justificada ao apoio desses países à Ucrânia.
A guerra começou em fevereiro de 2022, já passa de quatro anos e meio em setembro de 2026 e é ela que aparece por trás de toda essa papelada.
A base legal é o decreto nº 302, de 25 de abril de 2023, cujo preâmbulo fala em resposta a ações “não amistosas” dos Estados Unidos e de países que se juntaram a eles, que tentariam tirar bens da Rússia e de russos no exterior.
O mesmo decreto de 2023 define o que é “gestão temporária”, e pelo item 5 o gestor exerce todos os poderes de dono, menos o de vender ou dispor dos bens.
A lista de 2023 cresceu de duas empresas para dezenas
Quando nasceu, em abril de 2023, a lista do decreto 302 tinha só três linhas, com as ações da Unipro, da alemã Uniper, e duas fatias da Fortum, da Finlândia, as duas do setor elétrico, e hoje, só na seção de participações em empresas, ela chega ao item 81.
Em 16 de julho de 2023 vieram a Danone russa e a cervejaria Baltika, da dinamarquesa Carlsberg, informou a CNN. Para chefiar a Danone, o Kremlin escolheu Yakub Zakriev, vice-premiê e ministro da Agricultura da Chechênia, e a AFP lembra que os ativos acabaram vendidos a um sobrinho do líder checheno Ramzan Kadyrov.
Os dois casos terminaram em venda, com autorização de Moscou:
- Danone: aprovação do governo russo em 22 de março de 2024 e venda concluída para a Vamin R, anunciou a própria Danone em 17 de maio de 2024;
- Carlsberg: venda da Baltika em 3 de dezembro de 2024 para uma empresa de dois funcionários antigos da cervejaria, informou a Carlsberg, que já tinha baixado todo o valor do negócio russo.
O que muda para a Nestlé no Brasil
Para quem compra Ninho ou Nescafé no mercado da esquina, nada muda por causa desse decreto, porque o texto só lista empresas russas, com CNPJ russo, por assim dizer.
O Brasil também não está na lista de países “não amistosos” do governo russo, uma relação criada em 5 de março de 2022 que inclui Estados Unidos, os países da União Europeia, Suíça, Reino Unido e Japão, entre outros.
Aqui a Nestlé segue em outra direção e, em 3 de setembro de 2026, anunciou uma fábrica de fórmulas infantis de R$ 600 milhões em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, parte de um plano de R$ 2 bilhões, relatou o jornal O Tempo.
A obra deve começar em 2027 com cerca de 700 vagas, e a produção de Ninho e Nestogeno, em 2028, informou o jornal. A ideia, disse o vice-presidente Marcelo Citrângulo, é o Brasil parar de importar essas fórmulas e passar a exportar.
As respostas da Nestlé, da Auchan e dos governos europeus
A Nestlé afirmou que avalia a situação e as opções e que está comprometida em “tomar todas as medidas necessárias para proteger seus direitos e garantir a continuidade das operações”, relata a AFP.
A Auchan russa disse que pediu “esclarecimentos” às autoridades e que as lojas seguem funcionando normalmente, enquanto o governo da França condenou a decisão e pediu que Moscou volte atrás, informou a AFP.
A Suíça também reagiu, e a Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos disse estar “preocupada” e que busca, junto com a empresa, reverter o decreto, relatou a agência Bloomberg.
O aviso já estava no ar desde agosto de 2026, quando o jornal Kommersant contou que uma pequena empresa, a KS Logistika, pediu a Putin a gestão temporária da Nestlé, alegando falta de planos de expansão e fim das exportações, e na época a Nestlé disse que as fábricas funcionavam e que cumpria todas as obrigações.
O decreto em vídeo e o que vem agora para as fábricas da Nestlé
A reportagem da Euronews, em português, mostra as lojas da Auchan em Moscou e resume o caso em pouco mais de um minuto:
Assista o vídeo
Pelo decreto 302, a L.E.V. Management pode administrar, contratar e decidir, mas não pode vender as fábricas, e Peskov disse que, por ora, não há plano de nova transferência nem de venda, contou o site The Bell.
A história da Danone e da Carlsberg mostra o caminho mais comum depois disso, a venda autorizada por Moscou a um comprador local, mas se as seis fábricas da Nestlé vão seguir essa trilha o decreto não diz, e por enquanto a Nestlé segue dona, no papel, de fábricas que não controla.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

