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Guardanapos, Cestas Básicas e Notas no Sutiã: os bastidores da compra de votos que pode inviabilizar reeleição de Clodoaldo

Guardanapos, Cestas Básicas e Notas no Sutiã: os bastidores da compra de votos que pode inviabilizar reeleição de Clodoaldo

Uma sentença do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC) revelou as entranhas de um esquema altamente estruturado de corrupção eleitoral e transporte ilegal de eleitores ocorrido durante o primeiro turno das eleições de 2022. No centro do esquema, que resultou em pesadas condenações, está o deputado Clodoaldo Rodrigues, candidato ao cargo de Deputado Estadual, além de coordenadores e executores de sua campanha.

A investigação, desencadeada a partir da “Operação Ilíada” da Polícia Federal, desnudou uma rede organizada como uma verdadeira associação criminosa, operando com hierarquia, planilhas de controle e logística de distribuição de vantagens ilícitas a eleitores do Vale do Juruá.

De acordo com os autos do processo nº 0600104-26.2022.6.01.0004, Clodoaldo era o articulador principal e maior beneficiário do esquema. Sua esposa e, à época, Secretária Municipal de Assistência Social de Cruzeiro do Sul, Delcimar da Silva Leite, atual vice-prefeita da cidade, exercia o papel de coordenadora da campanha e gerente dos recursos financeiros ilícitos.

O grau de organização do grupo chamou a atenção da Justiça. Na residência do casal, a Polícia Federal apreendeu R$ 10.100,00 em espécie, a maioria em notas de R$ 50,00, além de um guardanapo contendo o rascunho de uma distribuição de R$ 10.000,00 por municípios da região com a data específica da eleição (02/10). O planejamento logístico também estava amplamente documentado: os investigadores confiscaram uma lista de “Lideranças por bairro”, cadernos estipulando cotas de combustível para apoiadores e uma planilha intitulada “Orçamento de Motos e Carros para o dia 02/10/2022”.

Um braço vital da associação criminosa era gerido por José Odecir de Souza, responsável por distribuir mercadorias em troca de apoio político. Durante buscas no veículo de Odecir, agentes encontraram um bloco com dezenas de comprovantes de “Vale 01 Cesta Básica”, centenas de panfletos do candidato Clodoaldo e uma lista manuscrita contendo números de CPF. A verificação indicou que os documentos pertenciam a pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e beneficiárias do auxílio emergencial.

A ousadia da operação ficou clara nos diálogos extraídos pela perícia. Em uma das conversas encontradas no celular do próprio deputado Clodoaldo, um interlocutor informou sobre a possibilidade de obter 200 votos mediante a entrega de 907 cestas básicas em uma terra indígena.

A ponta final do esquema era operada por figuras como José Francisco França da Silva, o executor de campo. No próprio dia da eleição, em 2 de outubro de 2022, José Francisco foi preso em flagrante dirigindo uma caminhonete S10 branca com material de campanha, transportando eleitores de forma irregular para a Escola Cora Coralina. Com ele, a polícia encontrou R$ 663,00, quase totalmente em notas de R$ 50,00.

A materialidade do crime se escancarou ainda mais na delegacia, quando uma das eleitoras transportadas retirou uma nota de R$ 50,00 escondida dentro do sutiã, confessando às autoridades que o dinheiro foi entregue pelo motorista com a promessa de que receberia outros R$ 50,00 logo após registrar seu voto.

As investigações periciais em telefones celulares também confirmaram a troca de votos por combustível. Em áudios, José Francisco negociou a entrega de dez litros de gasolina em troca dos votos da irmã de um eleitor e de seu marido. Na gravação, para garantir a transação, o operador da campanha confessou de forma cristalina: “lá é comprado o voto”.
Condenações

Diante de um conjunto probatório considerado robusto pela magistrada Rosilene de Santana Souza, Clodoaldo foi condenado a mais de 9 anos de reclusão em regime inicial fechado, enquanto Delcimar Leite recebeu pena de 8 anos em regime semiaberto. Os executores José Odecir e José Francisco também sofreram condenações pelos crimes de associação criminosa e corrupção eleitoral. Apenas o enteado do deputado, Iago Ribeiro, foi absolvido por insuficiência de provas.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Ecos da Notícia por Marcos Venícios.

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