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Há mais de 40 anos, 28 burros selvagens são soltos em pleno deserto e começam a fazer algo inesperado: cavam poços de até 2 metros, levam água a outras espécies e espalham sementes pelo caminho, até centenas de animais ajudarem a fazer surgir pequenos oásis em uma das regiões mais áridas de Israel

Há mais de 40 anos, 28 burros selvagens são soltos em pleno deserto e começam a fazer algo inesperado: cavam poços de até 2 metros, levam água a outras espécies e espalham sementes pelo caminho, até centenas de animais ajudarem a fazer surgir pequenos oásis em uma das regiões mais áridas de Israel

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Há mais de 40 anos, 28 burros selvagens são soltos em pleno deserto e começam a fazer algo inesperado: cavam poços de até 2 metros, levam água a outras espécies e espalham sementes pelo caminho, até centenas de animais ajudarem a fazer surgir pequenos oásis em uma das regiões mais áridas de Israel

Escrito por Ana Alice

Publicado em 13/09/2026 às 23:09

Atualizado em 13/09/2026 às 23:10

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Israel reintroduziu 28 asnos-selvagens no Neguev há mais de 40 anos; hoje, eles dispersam sementes e ajudam a recuperar funções ecológicas. – Imagem: Ilustrativa

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Reintroduzidos no deserto do Neguev a partir de 1982, asnos-selvagens-asiáticos voltaram a ocupar funções ecológicas perdidas, dispersando sementes, consumindo plantas nativas e alterando a dinâmica de um dos ambientes mais áridos de Israel.

O que começou em 1982 como uma tentativa de devolver ao deserto do Neguev um grande herbívoro desaparecido da região acabou criando uma população selvagem que atravessou quatro décadas e voltou a desempenhar funções ecológicas naquele ambiente.

Entre 1982 e 1987, 28 asnos-selvagens-asiáticos foram soltos na região de Makhtesh Ramon, no sul de Israel, e os descendentes desses animais hoje se espalham por outras partes do deserto.

O caso voltou a ganhar interesse em 2026 com novos estudos sobre o impacto desses animais no ecossistema. Uma pesquisa publicada em agosto pela Global Ecology and Conservation identificou 108 gêneros de plantas, pertencentes a 45 famílias, na dieta dos asnos selvagens do Neguev, indicando que a população se integrou ao ambiente e consome principalmente vegetação nativa.

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A história, porém, é mais complexa do que a imagem de animais simplesmente “criando um oásis”.

Pesquisas realizadas no próprio Neguev confirmam funções como dispersão de sementes e interação com a vegetação, enquanto estudos feitos com equídeos em outros desertos demonstram que cavalos e burros também podem cavar poços e criar pontos de água utilizados por outras espécies.

Asnos-selvagens-asiáticos percorrem Makhtesh Ramon, no deserto do Neguev, onde animais da espécie começaram a ser reintroduzidos na natureza na década de 1980. Crédito: Mark Katz / Israel Nature and Parks Authority.

Animais desapareceram da região no início do século 20

Os animais envolvidos no projeto pertencem à espécie Equus hemionus, conhecida como asno-selvagem-asiático. Embora possam ser chamados informalmente de “burros selvagens”, eles não são burros domésticos abandonados no deserto.

A subespécie que originalmente habitava partes do Oriente Médio, Equus hemionus hemippus, desapareceu no início do século 20 após décadas de pressão humana, caça e perda de habitat.

Para tentar restabelecer um animal ecologicamente semelhante, Israel criou em 1968 um núcleo de reprodução na reserva Hai-Bar Yotvata.

Esse grupo fundador tinha apenas 11 animais: seis asnos selvagens de origem persa e cinco da linhagem turcomena. Eles foram reproduzidos em cativeiro antes que seus descendentes começassem a retornar à natureza.

Essa informação também corrige uma versão repetida em alguns relatos sobre o projeto.

Os fundadores não resultaram do cruzamento entre onagros persas e asnos-selvagens-africanos trazidos da Etiópia; as pesquisas genéticas descrevem a população israelense como descendente das linhagens persa e turcomena de Equus hemionus.

Primeira soltura começou com apenas cinco machos

A etapa de reintrodução começou em abril de 1982, quando cinco machos foram libertados em Makhtesh Ramon, uma grande formação erosiva no deserto do Neguev.

Um registro publicado na revista científica Oryx logo depois da operação explica que os pesquisadores pretendiam observar como os animais se adaptariam antes de acrescentar fêmeas ao grupo.

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As liberações continuaram nos anos seguintes. Entre 1982 e 1987, 14 machos e 14 fêmeas, totalizando 28 animais, foram soltos em Ein Saharonim, dentro de Makhtesh Ramon.

Depois, em 1992 e 1993, outros dez indivíduos foram libertados em Wadi Paran, cerca de 35 quilômetros ao sul. A partir daí, a população começou a ocupar naturalmente outras áreas das terras altas do Neguev e do vale de Arava.

Grupo de asnos-selvagens-asiáticos atravessa uma encosta nas montanhas do Neguev, região onde a espécie voltou a viver após o programa de reintrodução. Crédito: Gidip / Wikimedia Commons.

População atual já reúne centenas de animais

O crescimento foi suficiente para transformar um pequeno grupo fundador em uma população selvagem estabelecida.

As estimativas mais recentes, contudo, variam conforme a área analisada e o método utilizado.

Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Molecular Ecology aponta um mínimo de aproximadamente 250 animais somente nas terras altas do Neguev, com tendência de crescimento.

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Outro trabalho científico publicado em fevereiro de 2026 descreve a população israelense como superior a 300 indivíduos, distribuídos por amplas áreas áridas do país.

Por isso, números de 500 a 600 animais mencionados em algumas reportagens devem ser tratados com cautela.

A literatura científica recente permite afirmar com segurança que existem centenas de asnos-selvagens-asiáticos vivendo no Neguev, mas não sustenta de maneira uniforme uma estimativa única de 500 ou 600 indivíduos.

Fêmea de asno-selvagem acompanhada por dois filhotes no Neguev, em registro feito durante o acompanhamento da população reintroduzida em Israel. Crédito: Mark Katz / Israel Nature and Parks Authority.

Fezes ajudam sementes a viajar pelo deserto

Um dos efeitos ecológicos mais bem documentados está relacionado às sementes.

Em um estudo publicado em 2014 na revista Animal Conservation, pesquisadores da Universidade Ben-Gurion compararam três grandes herbívoros do Neguev: o asno-selvagem-asiático, o órix-da-Arábia e a gazela-dorcas.

A análise mostrou que cada espécie transportava uma combinação diferente de sementes em suas fezes. Isso significa que a recuperação desses grandes herbívoros pode restabelecer formas de dispersão que haviam desaparecido quando os animais foram eliminados da região.

As acácias, árvores importantes para os ambientes áridos, também fizeram parte da pesquisa.

Nesse caso específico, porém, os resultados mostraram que o órix foi o principal dispersor das sementes de acácia, e não exclusivamente o asno selvagem.

Os asnos continuaram tendo papel próprio na dispersão de outras plantas, reforçando a conclusão dos pesquisadores de que espécies diferentes podem ocupar funções ecológicas complementares.

Estudo encontrou 108 gêneros de plantas na dieta

Uma atualização publicada em 2026 ampliou o conhecimento sobre o que esses animais realmente comem.

Pesquisadores coletaram amostras de fezes e utilizaram análise de DNA para identificar a vegetação consumida. O levantamento encontrou 108 gêneros vegetais de 45 famílias, compostos principalmente por espécies lenhosas e herbáceas nativas.

Também não houve evidência de consumo seletivo especialmente intenso de plantas raras ou vulneráveis. O uso de plantas associadas a jardins e agricultura apareceu em níveis reduzidos.

Para os autores, os resultados sugerem que a população está ecologicamente integrada ao habitat histórico e que seu impacto atual sobre a vegetação parece sustentável.

Essa conclusão é relevante porque populações de grandes herbívoros também podem causar degradação quando crescem além da capacidade do ambiente.

Um estudo anterior, que acompanhou áreas de Makhtesh Ramon durante a década de 1990, não encontrou impacto significativo dos asnos selvagens sobre cobertura vegetal, riqueza de espécies, diversidade ou dominância das plantas.

Asnos-selvagens caminham pelo Neguev; décadas após a reintrodução, a população voltou a se reproduzir livremente em áreas áridas de Israel. Crédito: Moshe Cohen, via Ynet.

E os poços cavados pelos animais?

A capacidade dos equídeos de procurar água cavando o solo é real e já foi documentada cientificamente.

Um estudo publicado na revista Science em 2021 acompanhou cavalos e burros ferais em desertos da América do Norte. Os pesquisadores registraram animais escavando poços de até cerca de dois metros de profundidade para alcançar água subterrânea.

Esses buracos aumentaram a disponibilidade de água em determinadas regiões, chegaram em alguns momentos a fornecer o único ponto acessível no local e foram utilizados por outros vertebrados.

A perturbação do solo também criou condições para o estabelecimento de plantas próximas aos poços. O mesmo trabalho reúne observações de escavação feitas por outros equídeos, incluindo indivíduos de Equus hemionus na Mongólia.

No Neguev israelense, entretanto, não foi localizado estudo científico equivalente demonstrando que os 28 animais reintroduzidos ou seus descendentes tenham criado poços de dois metros responsáveis pela formação de “oásis” locais.

As pesquisas mais recentes sobre a população israelense mostram, inclusive, que fontes permanentes de água são tão importantes que a Autoridade de Natureza e Parques de Israel mantém pontos artificiais de abastecimento durante os meses secos.

Asnos-selvagens caminham pelo Neguev

Novos pontos de água mudaram até a reprodução

Em maio de 2020, pesquisadores e gestores redistribuíram as fontes artificiais utilizadas pela população nas terras altas do Neguev.

Três novos pontos foram implantados próximos à fronteira com o Egito e uma fonte antiga foi posteriormente desativada.

O acompanhamento genético revelou um efeito inesperado: a nova distribuição da água permitiu que mais machos estabelecessem territórios e participassem da reprodução, contribuindo para reduzir os cruzamentos entre indivíduos geneticamente próximos.

O estudo foi publicado em agosto de 2026 na Molecular Ecology.

Mais de quatro décadas depois das primeiras solturas, o projeto deixou de ser apenas uma tentativa de recuperar uma espécie desaparecida.

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Os descendentes daqueles 28 animais transportam sementes, consomem dezenas de grupos de plantas nativas, percorrem grandes extensões do deserto e voltaram a ocupar uma função ecológica que havia sido perdida no Neguev.

Ao mesmo tempo, estudos recentes mostram que a relação entre esses grandes herbívoros, a água e a vegetação é mais complexa do que a ideia de um deserto simplesmente transformado em área verde.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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